U2 3D

13/10/2008 | Categoria: Críticas

Filme é um deleite para fãs de música e para cinéfilos que valorizam a experiência coletiva proporcionada pelo cinema

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Escrever sobre “U2 3D” (EUA, 2007) é uma tarefa traiçoeira, por dois motivos. Primeiro, porque o longa-metragem é essencialmente um show de rock, o que automaticamente faz o elemento subjetivo ganhar mais importância do que teria em um filme de ficção (se o crítico gosta da banda, tenderá a falar bem, mesmo que os aspectos técnicos e narrativos deixem a desejar). Além disso, trata-se de um projeto pioneiro, que inaugura uma tecnologia de projeção inteiramente nova. Este detalhe praticamente obriga o crítico a falar mais sobre os efeitos e sensações provocados pelo sistema de projeção digital em 3D do que sobre o filme/show em si. Ainda assim, dá para afirmar que “U2 3D” é um deleite tanto para fãs de música como para cinéfilos que valorizam a experiência coletiva proporcionada pelo cinema.

Na realidade, há três aspectos distintos que se deve abordar, no tocante a “U2 3D”. O primeiro diz respeito à qualidade do espetáculo em si. O segundo enfoca os aspectos cinematográficos, em especial a montagem, a edição de som e a fotografia. O terceiro, por fim, analisa a tecnologia de projeção. É obrigatório observar, contudo, que os três aspectos não podem ser abordados em separado, porque cada um deles interferiu nos outros de forma decisiva. O espectador mais atento vai perceber, por exemplo, que a montagem utiliza planos com duração média de 10 a 20 segundos, bem mais longos do que normalmente se usa na edição de espetáculos musicais (média de dois a três segundos). O intervalo maior entre os cortes é uma exigência do sistema 3D, já que o efeito de imersão do espectador no filme só funciona bem se a imagem se sustentar na tela durante algum tempo.

Os 85 minutos de “U2 3D” não compõem um único show da banda irlandesa, embora os 17 longos meses de edição meticulosa tenham criado a aparência coesa de um. Na verdade, dez diferentes espetáculos (nove na América Latina e um na Austrália) foram gravados, sob a coordenação da diretora de arte de banda, Catherine Owens (que assina a direção com Mark Pellington, autor de clips da banda). A captação de imagens foi feita com um conjunto de 18 câmeras digitais que trabalhavam aos pares – a duplicidade de imagens, capturadas de ângulo ligeiramente diferente, é essencial para a criação do efeito 3D. Em cada show, a banda executou as mesmas canções, de forma que a equipe pudesse se concentrar em filmar toda a ação de pontos de vista diferentes. Os planos que mostram toda a banda foram feitos no Brasil, as tomadas aéreas ocorreram no Chile e os closes dos músicos foram feitos em um espetáculo especial, na Argentina, sem a presença do público.

Cada canção, portanto, é um quebra-cabeça composto por dezenas de imagens captadas em diferentes países, quebra-cabeça tornado coeso pelo magnífico trabalho de montagem de Olivier Wicki. A edição de som também se destaca, no aspecto técnico, por ter conseguido manter a sincronia e a textura das canções, apesar de os técnicos terem sido obrigados a cortar/colar pedacinhos de música incansavelmente. Tudo isso acaba passando despercebido, aos olhos dos espectadores comuns, graças à sensação poderosa de imersão dentro do filme que o sistema de projeção digital em 3D oferece. O sistema, em que um par de óculos cinzentos acionados por raios infravermelhos invisíveis substituem os velhos óculos de lentes azuis e vermelhas, dá realmente a sensação de que o espectador está dentro da platéia. O sistema é particularmente eficaz nas tomadas feitas do ponto de vista do público, e ainda mais quando os cinegrafistas usam braços e cabeças para enquadrar e compor as imagens.

Extremamente nítida, a projeção digital em 3D cria um incrível efeito de profundidade, permitindo que a platéia veja, com foco perfeito, diversas camadas de imagem com perfeição. Quando Bono estica a mão em direção à platéia, torna-se quase possível tocar os dedos do cantor. As tomadas que focalizam o público também são muito boas, capturando com fidelidade a devoção quase cristã com que os fãs olham para os ídolos. Como aspecto negativo, apenas o uso exagerado de tomadas captadas distante do palco, em um ângulo que prejudica o efeito de imersão total da platéia no ambiente do show. Filmagens planejadas com rigor, em que cada tomada é pensada com antecedência, devem se beneficiar ainda mais da tecnologia.

Quanto ao show em si, é importante ter em mente que o U2 permanece uma das bandas mais poderosas do planeta. A curta duração (fundamental para evitar o cansaço visual que poderia enfraquecer a experiência) valoriza os maiores sucessos do grupo irlandês, e a execução calculadamente despojada apenas reforça quão bons e entrosados são os quatro músicos. Fãs mais radicais podem reclamar, aqui e acolá, pela ausência de alguns hits (“Running to Stand Still”, “Mysterious Ways”) e de faixas mais obscuras, mas não havia mesmo espaço para tantas músicas em uma experiência visual arrojada como “U2 3D”. Ademais, vamos ser sinceros e admitir que “One” continua a ser uma das mais sensacionais canções da música pop, mesmo quando executada com desleixo. E o baixo ribombante de “Bullet the Blue Sky” mostra que nem sempre se precisa de guitarras para fazer música realmente pesada.

– U2 3D (EUA, 2007)
Direção: Catherine Owens e Mark Pellington
Documentário/show
Duração: 85 minutos

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