Última Cartada, A

05/11/2008 | Categoria: Críticas

Thriller de ação lotado de malfeitores engraçadinhos, diálogos espertos e tiroteios intermináveis

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Thriller de ação lotado de malfeitores engraçadinhos, diálogos espertos e tiroteios intermináveis, “A Última Cartada” (Smokin’ Aces, EUA, 2006) parece ter surgido uma década depois do boom desse tipo de filme. O terceiro longa-metragem de Joe Carnahan (“Narc”) encaixaria direitinho na onda de filmes criados a partir do estilo “quarteirão-com-queijo” lançado por “Pulp Fiction” (1994), de Quentin Tarantino. No entanto, “A Última Cartada” lembra mais ainda os filmes de ladrões engraçadinhos criados pelo inglês Guy Ritchie, seguidor mais aplicado do estilo pop de Tarantino (estilo que, é importante assinalar, o próprio criador abandonou rapidamente).

De forma resumida, a história estabelecida pelo roteiro, também escrito por Carnahan, relata a disputa entre diversos assassinos de aluguel pelo coração de Buddy Israel (Jeremy Piven), dublê de ilusionista e mafioso de Las Vegas. Depois de expor poderosos homens da máfia da cidade, com atos desastrados, o mágico se viu perseguido por bandidos e decidiu usar os conhecimentos privilegiados do submundo da cidade dos apostadores, virando testemunha do FBI. A traição faz com que o maior dos mafiosos locais ofereça um prêmio de US$ 1 milhão para o matador que der cabo de Israel, agora encastelado na suíte de cobertura de um hotel de luxo no balneário de Lake Tahoe, junto com uma trupe de seguranças trogloditas e prostitutas.

Todo esse panorama é apresentado nos 10 primeiros minutos de projeção. Durante o resto do filme (ou seja, mais 100 minutos), a câmera nervosa de Joe Carnahan vai acompanhar os esforços de diversos assassinos de aluguel para chegar ao alvo na frente dos concorrentes. A fauna de meliantes pop inclui um trio de irmãos neonazistas, duas negras gostosas, um macho latino que gosta de usar estiletes, um especialista em disfarces com queda por longos episódios de tortura, ex-agentes de condicional com ligações dentro da máfia, e até um misterioso assassino sueco que ninguém conhece. Enquanto isso, dois estressados agentes do FBI recebem a dura missão de proteger a valiosa testemunha, tendo que chegar ao hotel antes de todo mundo.

Distanciando-se por completo do estilo brutal-naturalista do ótimo “Narc”, retrato atordoante da vida difícil dos policiais que vivem infiltrados entre traficantes de drogas, o diretor Joe Carnahan usa aqui um arsenal completo de direção pop: edição cheia de frescurinhas (frames congelados, telas divididas, arte gráfica para apresentar personagens), música tonitroante, diálogos engraçadinhos e seqüências de ação com violência de cartum. Apesar de não revelar talento especial em nenhum desses itens, já que o filme não consegue se destacar do senso comum em qualquer área, Carnahan entrega um espetáculo de violência pop cujo maior mérito é manipular a tensão de forma correta, criando um crescente de suspense que só explode perto do final.

Por outro lado, o filme se ressente da superficialidade dos personagens. O roteiro não faz qualquer tentativa de aprofundar nenhum, limitando-se a criar elos inesperados entre eles e desatando esses nós com a mesma rapidez usada para construí-los. Entre os clichês do gênero, não falta sequer a grande reviravolta final, que não chega a surpreender os mais atentos. Mas a grande falha é mesmo o excesso de personagens – a certo ponto da narrativa, uma das inúmeras tramas paralelas investe em duas cenas envolvendo um irritante garoto magricela aprendiz de caratê. É o caso de questionar: qual a função daquilo para a narrativa do filme? A resposta, óbvia, é que os excessos caricaturais e a velocidade da edição funcionam como um truque de mágica de segundo escalão. Ou seja , são apenas poeira nos olhos da platéia, um artifício inócuo usado para distrair os incautos da obviedade da história.

O DVD nacional leva o selo da Universal. O enquadramento original está preservado (widescreen anamórfico), o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1) e os extras incluem três featurettes de bastidores, erros de gravação, comentário em áudio do diretor e galeria de cenas cortadas. 

– A Última Cartada (Smokin’ Aces, EUA, 2006)
Direção: Joe Carnahan
Elenco: Ryan Reynolds, Ray Liotta, Jeremy Piven, Andy Garcia
Duração: 109 minutos

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