Última Noite, A

14/03/2007 | Categoria: Críticas

Robert Altman se despede do cinema (e da vida) com um filme simples, tranqüilo, despojado e delicioso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Robert Altman já estava doente quando começou a trabalhar no projeto de “A Última Noite” (A Prairie Home Companion, EUA, 2006). Tão doente que o estúdio com quem acabou assinando, o pequeno Picturehouse, exigiu que o filme tivesse um diretor substituto, alguém que pudesse tocar as filmagens em caso de impossibilidade do titular. Admirador confesso de Altman, o jovem Paul Thomas Anderson (de “Magnólia”) fez as vezes de reserva e, com o gesto delicado, permitiu que o mestre se despedisse do cinema – e da vida, pois morreria logo depois de finalizar a película – em grande estilo. Se não está entre as maiores obras-primas dirigidas pelo grande iconoclasta do cinema norte-americano, “A Última Noite” ainda é um legítimo Altman, e um filme delicioso.

Aliás, o longa-metragem funciona também como perfeito exemplo do respeito que a indústria cinematográfica nutria pelo cineasta. Apesar de estar doente e trabalhar com o minúsculo orçamento de US$ 10 milhões, o diretor de “Nashville” (clássico da carreira de Altman com quem “A Última Noite” guarda grande semelhança) conseguiu atrair a habitual galeria de grandes atores, formando um elenco de respeito. Meryl Streep, Kevin Kline, Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Lindsay Lohan e Virginia Madsen são alguns dos rostos conhecidos que interpretam as duas dezenas de personagens desta nostálgica e divertida viagem ao passado.

Bem, não exatamente ao passado, pois a trama de “A Última Noite” se passa no presente, e em uma única noite. É que o filme documenta a última apresentação de um programa de rádio que permanece exatamente igual há décadas, em uma pequena cidade rural de Minnesota (EUA). Uma grande empresa acaba de comprar o velho teatro em que o show semanal é apresentado, e pretende derrubá-lo para construir um shopping center. Ainda assim, com a foice no pescoço, o curioso apresentador Garrison Keillor (que interpreta a si mesmo, já que o filme é inspirado em uma história real) tenta conduzir o misto de show musical, programa de piadas e esquetes publicitários falsos com a maior naturalidade possível, de modo que o programa termine de modo suave, sem chuva de lágrimas ou lamentações bombásticas.

Trata-se do tipo de filme que dá margem a especulações, pois é óbvio que Altman está filosofando sobre a morte, talvez sobre a sua própria. É possível fazer um paralelo, sem muito esforço, entre o programa radiofônico e a vida do diretor. Será que o criador de “M.A.S.H.” estava mandando ao público um recado sobre sua ausência? Será que ele queria dizer algo como “a vida continua, amigos, tudo o que é velho tem que morrer, e deve fazê-lo de modo digno, com coragem e sobriedade”? Nunca vamos saber, mas se esta foi a intenção, Altman acertou em cheio. O filme é simples, tranqüilo, despojado – e ao mesmo tempo sofisticadíssimo, com seus lentos e graciosos movimentos de câmera que a grua carrega sobre o palco. A maneira crua e original de captar os diálogos improvisados dos atores, sobrepostos, é uma marca registrada que Altman manteve, para a felicidade dos admiradores.

Como de hábito, o diretor inclui pequenos toques cômicos, quase inocentes, na trama. É o caso do detetive Guy Noir (Kevin Kline), que narra a história como se fosse um anti-Humphrey Bogart, e a figura misteriosa interpretada por Virginia Madsen (melhor não revelar a identidade dela, pois será algo crucial para o final satírico). A propósito, o elenco deve ter se divertido horrores, cantando músicas de verdade – tudo foi registrado ao vivo, sem dublagens – e tecendo uma teia intrincada de amizades, intrigas e relacionamentos nos bastidores do programa. Meryl Streep dá um show de despojamento e afinação, a dupla John C. Reilly e Woody Harrelson é responsável por um dos momentos cômicos mais inspirados, e o não-ator Garrison Keillor atua como um maravilhoso mestre de cerimônia, coroando o espetáculo de simpatia. “A Última Noite” é como um bolo de chocolate: a gente conhece o sabor, mas não quer deixar de experimentar, certo?

O DVD é um lançamento da Imagem Filmes. Não possui extras, mas o filme tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– A Última Noite (A Prairie Home Companion, EUA, 2006)
Direção: Robert Altman
Elenco: Garrison Keillor, Meryl Streep, Kevin Kline, Lily Tomlin
Duração: 105 minutos

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