Última Noite, A

11/07/2007 | Categoria: Críticas

Filme de Spike Lee tem personagens profundamente humanos e funciona como um belo poema-homenagem a Nova York

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

À primeira vista, “A Última Noite” (25th Hour, EUA, 2002) não parece um filme de Spike Lee. Afinal, não possui a verve agressiva ou o engajamento político-racial do diretor negro mais conhecido dos Estados Unidos. É bem o contrário, um filme lírico e melancólico, um drama suave, pungente e caloroso que narra o último dia de um homem prestes a ir para a cadeia. Sob a superfície, porém, “A Última Noite” é puro Spike Lee: tem personagens ricos e profundamente humanos, e funciona também como um belíssimo poema-homenagem a Nova York, cidade que o diretor sempre cantou e que acabara de sofrer a profunda ferida moral que foi o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001.

O atentado às torres gêmeas do World Trade Center está indelevelmente associado ao longa-metragem, por uma razão simples: esta foi a primeira grande produção da indústria do cinema a abordar o fato traumático, uma decisão de última hora de Spike Lee. O ato terrorista ocorreu poucos dias antes de o filme começar a ser rodado na cidade. Na época, a maior parte dos filmes em desenvolvimento preferiram agir como se o massacre nunca houvesse ocorrido. Omitir-se diante de um ato de tamanha gravidade, contudo, nunca foi do feitio do cineasta, que então decidiu modificar ligeiramente o enredo e incluir algumas menções ao ataque terrorista.

Ao contrário do que se pode imaginar por estas informações, “A Última Noite” não é e nem pretende ser uma declaração ufanista sobre os Estados Unidos. Trata-se de uma história delicada, de escala íntima, pessoal, sem qualquer tipo de dimensão ideológica. É universal, que mexe com emoções humanas. O filme evoca com perfeição o estado de espírito do protagonista: triste, reflexivo, nostálgico de uma época que não volta mais. Por uma dessas felizes coincidências que só o cinema é capaz de produzir, este era também o estado de espírito de Nova York em 2002. Ou seja, “A Última Noite” também funciona como uma grande metáfora do trauma vivido pela cidade.

A história gira em torno de Monty Brogan (Edward Norton), traficante de drogas que deve cumprir uma pena de sete anos na cadeia a partir do dia seguinte. Enquanto saboreia cada segundo do último dia de liberdade, ele precisa encerrar um ciclo de sua vida. Isso significa se despedir da namorada Naturelle (Rosario Dawson), do pai James (Brian Cox) e dos dois melhores amigos, Jacob (Philip Seymour Hoffman) e Frank (Barry Pepper). Há até um pequeno mistério: Monty não sabe quem o entregou à polícia. Desconfia de Naturelle, e essa desconfiança vem minando a relação. Mas não tem certeza, e pensa em usar a atmosfera emocional da despedida para ver se consegue descobrir o delator.

O filme não se resume a seguir Monty durante 24 horas. Há diversas seqüências de flashback inseridas na ação, mas não há aviso sobre isso – o espectador tem que descobrir sozinho em que momento no tempo cada cena existe. A cena de abertura, por exemplo, nos apresenta a Monty em um momento singular, enquanto este encontra um cachorro ferido no meio da rua e decide ficar com ele. Claramente é uma cena que diz algo importante sobre Monty: ele não é um homem mau.

Bem, também não é uma flor de pessoa. Monty é articulado, bem educado, charmoso. Mas também é ambicioso e egoísta. Por isso meteu-se com o tráfico de drogas, uma atividade que lhe permite viver em um padrão de vida confortável. Em outras palavras, é um cara normal, com virtudes e defeitos. Assim também são os outros personagens. Naturelle, por exemplo, sempre condenou o trabalho sujo de Monty, mas nunca o obrigou a parar com as drogas, pois isso significaria, para ela, perder a chance de beber vinhos caros, usar jóias e visitar Porto Rico durante as férias anuais.

O melhor de “A Última Noite” está na delicada teia de relações que Spike Lee vai tecendo sobre os personagens. Eles não parecem personagens de um filme, superficiais ou virtuosos em excesso. São gente como nós, com problemas a superar, e cheios de vontade de viver a vida. Lee filmou o roteiro de David Bennioff, baseado em livro dele mesmo, com uma abordagem direta e sem firulas. E conseguiu momentos maravilhosos, como o tocante devaneio de Monty perto do fim do filme e os emocionantes planos noturnos dos fachos de luz azul crescendo entre os prédios de Nova York.

Além disso, o diretor foi capaz de injetar suas impressões digitais por todo o longa-metragem, mostrando por exemplo um panorama vigoroso do universo multiracial da cidade – Monty é branco, mas namora uma morena, trabalha para a máfia russa e tem amigos negros. Há até um brilhante monólogo do protagonista diante do espelho, quando descarrega a frustração e a ansiedade disparando contra as minorias racionais que convivem em Nova York. Parece uma cena do clássico “Faça a Coisa Certa”, e funciona como a assinatura de um dos cineastas mais personalistas do nosso tempo.

O DVD nacional é um lançamento Buena Vista. O disco é simples e muito bom. A qualidade do filme é ótima (imagem no formato widescreen anamórfico, som em Dolby Digital 5.1), e há muitos extras: um documentário sobre a carreira de Spike Lee (23 minutos), um featurette mostrando cenas do Ground Zero, uma importante locação do filme (6 minutos), uma galeria de cenas deletadas (são seis, que somam 11 minutos) e dois comentários em áudio, um deles do diretor. Todo o material extra tem legendas.

– A Última Noite (25th Hour, EUA, 2002)
Direção: Spike Lee
Elenco: Edward Norton, Barry Pepper, Rosario Dawson, Phillip Seymour Hoffman
Duração: 135 minutos

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