Última Parada 174

26/05/2009 | Categoria: Críticas

É irônico que um longa-metragem sujo, nervoso, desbocado e bem feito ajude a alimentar os preconceitos que parte da crítica brasileira tem contra Bruno Barreto

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Por razões que lhe escapam do controle, Bruno Barreto foi se tornando, ao longo de uma carreira construída parte no Brasil e parte em Hollywood, o cineasta que a crítica nacional ama odiar. Parte do desprezo que os intelectuais do cinema sempre lhe reservaram vem do fato de Bruno ter nascido em berço esplêndido. Por ser filho do produtor mais importante e respeitado do país (Luiz Carlos Barreto) e ter trânsito livre nos bastidores do poder, ele não teve que lutar para fazer filmes, como a maioria dos diretores que não foi criada no meio cinematográfico. O tipo de filme desenvolvido por ele, limpinho e com indisfarçável tino comercial, também não ajudou muito. O diretor ajudou a perpetuar estereótipos turísticos do Brasil – a morena gostosa, as praias cariocas – em trabalhos como “Gabriela Cravo e Canela” (1982) e “Bossa Nova” (2000). Levou muita cacetada por praticar esse cinema estilo “cartão postal”.

É irônico, portanto, um longa-metragem sujo, nervoso e desbocado como “Última Parada 174” (Brasil/França, 2008) ajude a alimentar os preconceitos que parte da crítica brasileira tem contra Bruno. Em circunstâncias normais, o projeto teria tudo para representar uma grande reviravolta na carreira dele (se não em termos econômicos, certamente na questão do respeito crítico). Trata-se de uma história extraordinária, de alta voltagem emocional, e muito bem filmada. O grande problema é que Bruno Barreto ficcionalizou um episódio bastante conhecido dos brasileiros, e que já foi tema de outro grande filme – “Ônibus 174”, documentário de José Padilha. Por causa disso, parte da crítica nacional deixou de lado os méritos estéticos e narrativos do trabalho de Bruno para destacar a suposta falta de originalidade do projeto. Para essa turma, se uma história foi (bem) contada num filme, não existe qualquer motivo para contá-la em outro filme. Se um sujeito faz isso, ainda mais alguém que desperta desconfiança, como Bruno Barreto, está mexendo em vespeiro.

Uma das reprimendas mais duras que “Última Parada 174” tem recebido diz respeito, justamente, à enorme mudança de estilo demonstrada pelo cineasta. Bruno Barreto sempre adotou um estilo narrativo clássico, limpo, em filmes que observam com naturalidade a classe média, mas também teve enorme dificuldade de mostrar as nuances da periferia brasileira. No filme de 2008, o diretor resolveu remar na contramão de sua obra pregressa. Ele aposta todas as fichas na estética crua, urgente e despojada que caracteriza a maior parte dos trabalhos de sucesso feitos no Brasil desta primeira década do século XXI (entre eles “Cidade Baixa”, “Madame Satã” e, claro, “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, os dois últimos referências fundamentais para compreender o filme de Bruno). Para muita gente, seria a mesma coisa que uma banda de rock’n’roll decidir fazer um disco de pagode, somente para seguir a moda. Ficaria bem feito, mas sem alma.

Se deixamos todo esse raciocínio de lado para nos concentramos exclusivamente na obra em questão, contudo, teremos uma boa surpresa. “Última Parada 174”, é sim, um bom filme, repleto de proezas técnicas e narrativas dignas de um cineasta veterano, que domina bem o seu ofício. Os méritos são muitos: o elenco desconhecido (e semi-amador) alcança desempenhos brilhantes, fotografia e direção de arte dão ao filme o tom urgente e abrasador que ele necessita para funcionar em um nível emocional alto, o roteiro escrito por Bráulio Mantovani (“Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, entre outros) capta o vocabulário coloquial e o jeito “ou-vai-ou-racha” das favelas cariocas. De quebra, a câmera de Bruno Barreto filma com franqueza desconcertante a sexualidade vulcânica de uma juventude sem perspectivas, que transa furiosamente como se não houvesse amanhã. “Última Parada 174” só perde o rumo no terceiro ato, quando flerta desastradamente com toques de melodrama ausentes até então.

Embora o cineasta tenha dado o pontapé inicial no projeto com a intenção de contar uma história lateral ao seqüestro do ônibus, ele acabou optando por fazer uma cinebiografia de Sandro Barbosa do Nascimento. O rapaz de 22 anos protagonizou um espetáculo televisivo de violência ao vivo, ao seqüestrar um ônibus com duas dezenas de passageiros, no ano 2000. O episódio foi transmitido ao vivo para todo o Brasil, e visto por mais de 60 milhões de pessoas. Inicialmente, Bruno Barreto pensava em filmar a história da mãe adotiva de Sandro, focalizando principalmente a relação entre os dois (um supria a carência afetiva do outro). A mulher abre e fecha o filme, em duas cenas habilmente conectadas, mas não aparece muito no recheio. O fio condutor da narrativa é mesmo o rapaz que escapou, adolescente, de morrer no episódio conhecido nacionalmente como Chacina da Candelária, apenas para virar protagonista de um show televisivo de horrores, alguns anos mais tarde.

Ao contrário de José Padilha, que tratou o caso com rigor jornalístico, Bruno Barreto ficcionaliza livremente a trajetória de Sandro (Michel Gomes), inserindo personagens fictícios e tomando diversas licenças poéticas. O resultado é interessante. Uma das boas idéias é a inclusão do briguento Alê Monstro (Marcello Melo Jr), que nunca existiu na realidade. O jovem, que inicia o filme como adversário e termina como melhor amigo do protagonista, parece uma versão endiabrada e com menos cabelo de Zé Pequeno (“Cidade de Deus”), semelhança realçada pela interpretação agressiva e cheia de gírias do ator iniciante que lhe dá vida. A amizade que surge entre os dois é cheia de verdade e paixão, e é desenvolvida com muita densidade e senso de realidade pelo roteiro, assim como a relação afetiva que Sandro mantém com uma prostituta (Gabriela Luiz). O sexo entre os dois, cheio de tesão e tensão, é certamente perturbador, porque funciona como indício claro do tamanho da carência que Sandro carrega dentro de si, uma carência que, em última instância, vai acabar funcionando como elemento catalisador da tragédia.

A crueza tão perseguida por Bruno Barreto transparece bem na fotografia suja, escura, que valoriza a luz natural e põe os becos estreitos e os barracos imundos das favelas cariocas na tela sem retoques. Na maior parte do longa-metragem, o cineasta evitou usar storyboards, a fim de permitir que o improviso dos atores soasse mais livre, e a técnica funciona bem. Os dois primeiros atos de “Última Parada 174”, enfim, deixam ótima impressão. O filme só desmonta de verdade no terceiro ato, exatamente quando Bruno Barreto focaliza o seqüestro do ônibus. Apesar da ótima sacada de usar o ator André Ramiro (o aspirante André Matias de “Tropa de Elite”) no papel do policial encarregado de negociar com Sandro, Bruno Barreto exagera na carga melodramática do material filmado, criando uma série de momentos artificiais e exagerados – o improvável olhar cruzado das duas mulheres na hora do desfecho é apenas um deles – que implodem todo o esforço realista feito até então. O excesso de música e câmera lenta quase joga o filme na vala comum dos dramalhões. A última tomada, apesar de ser dramaturgicamente correta, porque rima perfeitamente com a primeira cena, também é puro melodrama. Um pecado para um filme que até então tinha conseguido ser tão duro.

O DVD da Paramount traz o filme com razão de aspecto original (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1). Um making of acompanha o disco.

- Última Parada 174 (Brasil/França, 2008)
Direção: Bruno Barreto
Elenco: Michel Gomes, Marcello Melo Jr, Gabriela Luiz, Cris Vianna
Duração: 117 minutos

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14 comentários
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  1. Eu acho que o cinema brasileiro se restringe demais à dura realidade social do país, alguns estigmas e caricaturas, e novelas globais com duas horas de duração.

    Raríssimas exceções não têm os seguintes cenários em destaque: violência urbana, favela, tráfico, nordeste e globobais.

    Sinceramente? Na boa, mesmo? Tô de saco cheio!

    Depois acham ruim as salas vazias… !

  2. Eles gravaram várias cenas desse filme em frente ao meu trabalho, pois trabalho no prédio(que hoje é uma Universidade) onde em frente os meninos foram chacinados (sei que é meio sombrio mesmo :lol: ). Todo sábado durante quase um mês eu ficava vendo o Bruno gravar algumas cenas quando eu saía do trabalho.
    Só pelo motivo de ter visto algumas cenas sendo gravadas fiquei curioso de ver o filme. Mas só darei uma opinião melhor depois de assití-lo. E miha opinião sobre o cinema nacional fica pra mais tarde :mrgreen: . Mas já tenho uma (quase) formada.

  3. O texto conseguiu captar muito bem a sensação que que eu tive ao ver o filme. Muito bem filmado e com boas atuações, porém não consegui me livrar do sentimento de “tô pegando carona em outros sucessos”, bem como você escreveu. Acho que isso atrapalhou um pouco minha compreensão do filme. Ah, nunca imaginei que o Bruno Barreto em toda sua carreira fosse filmar uma cena tão pesada como a que abre o filme, isso me surpreendeu…

  4. Rodrigo, creio que seu artigo avalia bem o filme, tanto no que toca o conteúdo técnico quanto no que concerne às críticas, “contaminadas” pela antipatia geral ao diretor. Queria somente que você falasse um pouco mais sobre o desempenho dos atores. Concordo com você que há momentos impactantes: particularmente as explosões de fúria, tanto dos coadjuvantes quanto do protagonista, são de um realismo assombroso (destaco a atuação de Michel Gomes dentro do ônibus, maravilhosa) . Mas senti problemas ao tentar me aproximar de Sandro. Por quase toda a duração do filme achei-o apático, insosso, exibindo um rosto quase sem expressividade, raramente fazendo uso de recursos dramáticos que o aprofundassem e enriquecessem. Ele ficava bem pequeno perto da vitalidade de “Alê Monstro”. Tendo em vista a já citada cena do ônibus, creio que o ator poderia oferecer mais. O que você acha?

  5. Kleber, o que você falou faz sentido, mas acho que você ainda está muito preso ao que eu chamaria de hiperatividade do ator. Ou seja, creio que tenha sido um dado intencional. Acho que o roteirista e o diretor queriam exatamente que o personagem parecesse anestesiado, desorientado, sem rumo na vida – e op ator deu vida a um personagem assim. O ator precisa dar ao personagem o que ele precisa, e no caso o que o Sandro precisava era desse ar de interrogação. Se ele ficasse gritando o tempo todo, não faria sentido para o personagem.

  6. Achei o filme interessante porém não é um filme que adiciona muito em nossas vidas não é a melhor produção nacional, mas não é a pior achei que alguns momentos poderiam ter sido melhores explorados e outras coisas poderiam ser explicadas melhor , porém é melhor que assistir Miami Vice

  7. :-( onde consigo baixar o filme?, se possível me dê uma ajuda, valeu!!

  8. Sandhy, o filme acabou de estrear nos cinemas. Ademais, não oferecemos links para filmes aqui no site. Não esqueçamos que é uma prática ilegal.

  9. Não vi o filme. Não tenho nada a dizer a respeito de suas qualidades e dos seus defeitos.

    Contudo, estou cansado de ler críticas desqualificando filmes que “não mostram a realidade do país”, são supostamente alienados ou são interpretados por “Globais”.

    Não estou falando de sua crítica Rodrigo, que isso fique bem claro.

    Caramba… O filme é bom? Diverte ou entretém? Tem boas atuações?
    Ora, isso é o que importa!

    Se um brasileiro faz um filme light e com um final feliz, é logo taxado de “americanizado”. Qual, afinal, é o problema? Não é permitido mostrar felicidade no Brasil!? Todo filme tem que mostrar o pior de nossa sociedade!? Acho que não.

    O cinema Brasileiro virou uma verdadeira monocultura temática, seja de filmes sertanejos, seja de filmes de favela, de bandido e de policial. Simplesmente não há a tal “realidade” em outras coisas. A classe média, rural ou urbana, por exemplo, nunca teve o direito de ser retratada com os seus dramas ou prazeres cotidianos sem o apedrejamento da obra. É pecado. Somente os ricos são mais excluídos, esses pobres coitados.

    Já notaram como no Brasil não há filme retratando os ricos bacanas, liberais e honestos. É proibido, é coisa de burguês babão “das elite”. Nunca vi um cidadão abonado ser retratado pelo cinema nacional sem o estereótipo de corrupto, ladrão ou preconceituoso.

    Para ser sincero, eu nem gosto muito dos nacionais light – prefiro os tais filmes “realistas” mesmo -, mas defendo a iniciativa de fazer um cinema que TAMBÉM deve buscar o puro entretenimento, como os americanos – esses leprosos culturais – fazem tão bem.

    Sabe de uma coisa, dane-se, sejamos francos: ninguém sabe dosar o ritmo de um filme como o tão criticado “cinema americano”, seja ele feito dentro ou fora dos EUA . Enquanto “cinema Europeu” concentra a emoção no seu final da película, o brasileiro não sabe terminar sua obra, ou, não raras vezes, sua obrada.

    Mania de querer ser político sempre!

    E Sandhy, deixa de pirangagem e vai pro cinema. hehehehe

  10. Personagens esteriotipados (o favelado boca suja, a elite malvada, o policial corrupto e incompetente, até o pastor babaca esta lá!).

    a receita de hoje é “Estética Frankestein”: pegue um caldeirão de ônibus 174, derrame cidade de deus, misture com um pouco de carandiru, junte com uma pitada de tropa de elite e tcharããã! temos um filme prontinho!

    Sinceramente isso não é o que o Brasil pode fazer de melhor! daqui a pouco os gringos vão acreditar q o Brasil é só isso mermo! pra mim o q ainda salva esse filme são as atuações amadoras q mais uma vez são convincentes, e creio q surgiu nesse filme o Will Smith brasileiro(Michel Gomes), ele conseguiu estrair com perfeição a confusão mental do personagem.

    Já O Bruno Barreto tenta sair de seu nicho mas não consegue… enquanto a ação se passa na favela ele mostra a violência a qual estamos acostumados, mas quando quando as vitimas são da “alta sociedade” ele as esconde, não tem coragem… veja a cena do latrocínio, ele não consegue mostrar a cara da granfina q leva o tiro… é forte demais!

    No ônibus os personagens são esteriótipos ridículos!!! Chegam a ser idiotizados!!! Eu me senti ofendido com tanta superficialidade…

    Pra mim a grande sacada ainda foi do roterista B. Mantovani que reservou uma explicação convincente para cada frase do Sandro em seu surto final.

    Em suma, filme feito p ganhar um prêmio (oscar), já que este costuma premiar os filmes não por sua qualidade mas por injustiças feitas no passado, seja com atores, diretores, ou mesmo países… :evil:

  11. O filme possui quase todos os cacoetes do cinena nacional, ou seja, aqueles vícios que vêm desde o cinema novo (nossa grande desgraça cinematográfica). Porém, descontados o “viès sociológico e o vitimismo triunfante”, verdadeiros cânones da nossa “arte engajada”, a película do BRUNO BARRETO atinge seus objetivos. Sem dúvida, o principal ponto positivo é o desempenho dos atores amadores (ninguém aguenta mais ir ao cinema para ver WAGNER MOURA e LÁZARO RAMOS). Enfim, ´´ULTIMA PARADA” não é nenhum CIDADE DE DEUS, mas vale o ingresso.

  12. Não vejo problema nenhum em afirmar que o grande cinema, cinema bom mesmo, bem feito, diverso, que desperta forte interesse e bate na veia, é o cinema americano. Não raro, até os filmes ruins são legais, se é que me entendem.

    Cabeçudos, intelectuais, nacionalistas, “anti-imperialistas” e outros “istas”, podem estribuchar e falar o que quiserem, fiquem à vontade para assistir “cinema de arte” europeu, iraniano ou essas chatices brasileiras, não tenho nada contra, mas dá licença que eu vou rever o bom e velho, clássico, Pulp Fiction !!

  13. Eu creio que o filme perturba, incomoda, traz à tona uma realidade cruel que a nossa consciência não quer ver… Esparramemos um olhar crítico sobre os moradores de rua no centro da cidade hoje… O que mudou daquela época para cá?

    O que gostei mais foi que no final do filme ao tronar lento o seguimento de uma cena, o diretor introduziu uma nova dimensão do tempo; não era o passado, nem o presente, nem o futuro… Era o tarde-demais!

    O filme faz refletir e , ao contrário do que a maior parte da crítica coloca, não vitimiza Sandro e sim humaniza-lhe… E isso certamente é preocupante!

  14. Bem, assisti ao filme já faz algum tempo, e não curti muito.

    Mas não vim dizer somente isso. O que me levou aqui foi o comentário do Paulo, lá em cima. Certamente, este deve ser alguém que vive no vigésimo andar dum apartamento, de onde o mundo parece mais uma maquete de Lego, do que algo real. Sou baiano, nordestino, mas isso não é motivo de orgulho. Em compensação, existem filmes que provam que é possível respirar beleza na simplicidade, na realidade do povo, do nordestino, do que é provinciano e pequeno pra alguns. O Walter Salles nos dá grandes exemplos disso, como o lindo Abril Despedaçado e o Central do Brasil, que teve várias cenas rodadas aqui na Bahia, inclusive.

    Mês passado, ao descer de um ônibus, me deparei com um assalto no mínimo diferente: na calçada, defronte a mim, um policial, uniformizado, impotente diante dum revólver apontado para sua cabeça, revólver empunhado pelo carona duma moto; o assaltante pegou o revólver, não matou o policial (graças a deus…) e partiu. Restou o policial, envergonhado, sem saber pra onde ir, nem a quem recorrer…

    Foi rápido, real, me chocou.

    Se o cinema brasileiro quer mostrar essa realidade, que mostre!

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