Última Sessão de Cinema, A

04/01/2007 | Categoria: Críticas

Melhor filme de Peter Bogdanovich retrata vida sem perspectiva dos moradores de uma cidade pequena

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Inspirado por um obscuro romance que fazia uma crônica sensível da vida modorrenta de uma minúscula cidadezinha no Texas, “A Última Sessão de Cinema” (The Last Picture Show, EUA, 1971) é o tipo de filme que não poderia ter sido feito alguns anos antes. Trata-se de uma das obras seminais da geração de jovens cineastas que mudou Hollywood, na virada entre as décadas de 1960 e 70, eliminando qualquer traço de glamour e melodrama de suas história e dedicando-se a levar para as telas de cinema a atmosfera da vida real dos anônimos. Em suma, um filme com cheiro de rua.

Curiosamente, o cineasta Peter Bogdanovich não tinha o perfil de diretor capaz de realizar um filme do gênero. Descendente de imigrantes europeus e morador de uma grande metrópole durante toda a vida, o diretor e cinéfilo de carteirinha foi apresentado ao livro de Larry McMurtry e hesitou. Ele não conhecia tão bem aquele mundo. Porém, percebendo a riqueza do conjunto de personagens e inspirado pelos resultados conseguidos por muitos colegas de geração que mergulhavam nos problemas da vida real com bons resultados (Bob Rafelson, Martin Scorsese), Bogdanovich decidiu ir em frente – e fez o melhor filme de sua carreira.

O tédio e a falta de perspectiva da vida numa cidade pequena é o tema principal de “A Última Sessão de Cinema”. Para capturar o clima melancólico e o vazio emocional dos personagens, Bogdanovich fez três escolhas estéticas essenciais: decidiu filmar em preto-e-branco e em locação, além de fazer o filme sem trilha sonora. Do ponto de vista técnico, era um tremendo risco. Na época, acreditava-se piamente que os filmes em P&B haviam morrido para sempre, e não existia mais equipamento para filmar sem cores. Além disso, nenhum executivo em sã consciência permitia um longa-metragem sem música, sem falar que filmar fora dos estúdios era muito mais caro.

Mesmo assim, Bogdanovich bateu o pé. Ele não estava fazendo uma história épica, mas um filme simples, quase minimalista, sobre gente comum. Por sorte, as condições ajudaram. A revolução trazida pelos jovens cineastas encontrava eco no público, naqueles tempos, e os estúdios se permitiam ousadias mais arrojadas. Desta forma, tudo foi feito da maneira que o cineasta planejou, inclusive com as filmagens ocorrendo na cidade de Archer City, local onde o escritor do livro original (promovido também a roteirista) havia passado a infância. Desta forma, os jovens atores que compunham o elenco puderam inclusive ter contato com as pessoas que haviam inspirado os personagens fictícios.

O resultado foi um filme saboroso, um retrato pungente da falta de perspectiva dos jovens que vivem longe dos grandes centros urbanos. Há pelo menos uma dúzia de belos personagens de duas diferentes gerações, e a narrativa contrapõe com inteligência os indivíduos das duas faixas etárias, mostrando o abismo cultural existente entre eles – de um lado, há os jovens cheios de esperanças, como Sonny (Timothy Bottoms) e Duane (Jeff Bridges); do outro, os nostálgicos e desiludidos adultos, como o dono do bar/cinema local, Sam (Ben Johnson), e a mulher do professor de ginástica, Ruth (Cloris Leachman). O filme não diz, mas sugere com firmeza, que o tempo implacável se encarregará de transformar os primeiros nos últimos.

Cinéfilo incorrigível (e autor de um excelente livro de entrevistas com cineastas veteranos de respeito, um grosso volume chamado “Afinal, Quem Faz os Filmes”), Bogdanovich encontrou espaço também para incluir um lamento à crise das salas de cinema, incluindo na história um teatro que perde público ano após ano, até o inevitável fechamento, que ocorre após uma esvaziada e melancólica sessão de “Rio Vermelho”, o western épico de Howard Hawks. No todo, uma obra-prima relativa e injustamente esquecida.

O DVD brasileiro é um lançamento da Columbia. O disco é simples, mas interessante: boa qualidade de imagem (widescreen 1.85: 1 anamórfica) e som (Dolby Digital 2.0), mais um documentário bacana com 65 minutos de duração (infelizmente sem legendas). Vale ressaltar que se trata da versão do diretor, com um acréscimo de oito minutos de cenas eliminadas da montagem exibida nos cinemas.

– A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show, EUA, 1971)
Direção: Peter Bogdanovich
Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybil Shepherd, Ellen Burstyn
Duração: 126 minutos

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