Ultimato Bourne, O

13/12/2007 | Categoria: Críticas

Com edição vulcânica, terceiro título da série confirma o diretor Paul Greengrass como mestre do improviso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Viscerais e inteligentes, as duas primeiras partes da franquia que apresentou ao mundo o agente secreto Jason Bourne viraram referência para os filmes de ação do novo milênio. O segundo longa (“A Supremacia Bourne”, de 2004), em particular, chamou a atenção do público para o estilo frenético e realista de edição do diretor inglês Paul Greengrass. A estética suja seguida pelo britânico rapidamente se tornou paradigma em produções de espionagem, influenciando até mesmo séries veteranas de sucesso, como 007 e Missão Impossível. Por isso, a expectativa criada em torno de “O Ultimato Bourne” (The Bourne Ultimatum, EUA, 2007) era alta. Será que Greengrass conseguiria entregar um produto que ficasse à altura dos altos padrões alcançados pela franquia? Um produto que reafirmasse o próprio talento do diretor, demonstrado sobretudo em filmes políticos como “Vôo United 93” e “Domingo Sangrento”?

O resultado final demonstra que não havia qualquer motivo para temer pelo pior. Mais uma vez escudado pelo bom ator Matt Damon e pelo produtor executivo Doug Liman (diretor do primeiro filme da série), Greengrass se incumbe da tarefa com eficiência digna do personagem principal. Mesmo que “O Ultimato Bourne” não chegue a atingir o mesmo nível de excelência do longa de 2004, chega muito perto. De quebra, confirma o nome de Greengrass na linha de frente dos melhores cineastas em atividade. Há poucos diretores com o mesmo talento para orquestrar espetáculos cinematográficos de massa, que valorizem igualmente o trabalho de câmera quanto a edição de som, e ainda por cima dominem a arte do improviso com tamanha segurança.

A trama de “O Ultimato Bourne” retoma a jornada do agente secreto Jason Bourne (Damon) mais ou menos do ponto onde o filme anterior havia parado. Circulando por grandes metrópoles de três continentes (Madri, Tânger, Nova York, Berlim, Paris, Moscou), Bourne continua lutando para descobrir quem é, e de onde veio. Se já tem uma idéia clara sobre seu próprio envolvimento com a CIA, o agente ainda não compreendeu que tipo de laços o ligavam à agência. Assombrado pelos fragmentos de memória que insistem em vir à mente, como bolhas de ar na superfície de um lago, e ainda de coração quebrado pela morte da amada, Jason sabe que precisa ir até o fim da linha. E acredita que o caminho para isto está na investigação empreendida por um repórter investigativo (Paddy Considine).

Como se fosse o equivalente cinematográfico de um piloto de Fórmula 1, Paul Greengrass inicia o filme em ritmo alucinante, e mantém o pé pisando fundo no acelerador até o final. Com o auxílio de uma técnica brilhante, ele injeta tensão inesgotável a uma narrativa veloz, construindo tudo aquilo que se espera de um bom blockbuster: grandes seqüências de ação, trama inteligente, tensão inesgotável e personagens cujos desejos e motivações são possíveis de reconhecer. Para começar, Greengrass leva às últimas conseqüências o estilo de cinema-guerrilha que patenteou em todos os títulos que dirigiu. Ele filma a maior parte das cenas em locações abertas, como o centro de Tânger (Marrocos) ou a maior estação de trens de Londres, e faz questão de manter as pessoas que circulam por esses locais sem saber que se está gravando um filme ali. Espalha cinegrafistas com câmeras digitais de alta definição no meio dos transeuntes e filma tudo sem planejamento prévio.

O resultado desta técnica arrojada e surpreendente, refinada na mesa de edição, é uma cinematografia absolutamente única, que funciona como assinatura estética do diretor. Para conseguir focalizar os atores no meio da multidão, os cinegrafistas abusam de zooms e chicotes (movimentos laterais rapidíssimos). A câmera não pára nunca de chacoalhar. Associados aos cortes rápidos, os movimentos produzem uma sensação de urgência, de perigo iminente, de tensão absoluta, que Greengrass realça com uma extraordinária edição de som, em que ruídos orgânicos – motores de automóvel, toques de telefone celular, passos – mantêm o espectador em permanente estado de alerta, assimilando a mesma sensação dos personagens. Detalhe: Greengrass faz tudo isso sem que o espectador perca a compreensão do que está vendo, algo dificílimo de conseguir.

Com esta técnica vulcânica e aparentemente suicida, mas que mantém sob controle o tempo inteiro, Greengrass consegue produzir um filme alucinante, repleto de seqüências de ação cruas, violentas e impressionantes. Na mais brilhante delas, três agentes secretos empreendem um verdadeiro balé de gato e rato nas ruas de Tânger, no Marrocos, em uma perseguição que começa de moto e termina numa longa e dolorida luta corporal, passando por telhados e varandas de arquitetura oriental. Grengrass também acerta ao dar um tom discreto e sutil ao inevitável envolvimento romântico do herói, um clichê irritante que os filmes de espionagem jamais abandonaram. Outro ponto forte é o ótimo e numeroso elenco, que inclui bons atores jovens europeus (o alemão Daniel Brühl, o escocês Paddy Considine) e veteranos de habilidade comprovada (David Strathairn, Joan Allen, Albert Finney, Scott Glenn).

Como nem tudo é perfeito, “O Ultimato Bourne” tem um ponto fraco evidente na trilha sonora percussiva, chata e onipresente (elemento que, aliás, era muito bem resolvido no filme anterior). Mas o maior problema é que o cineasta inglês não resistiu à tentação de transformar Jason Bourne num espião imbatível à McGyver. Se nos dois filmes anteriores o público percebia que ele sentia dor e tinha dúvidas, aqui o personagem se torna sobre-humano: sobe escadas usando uma moto, sobrevive sem machucados a acidentes inacreditáveis de automóvel e consegue invadir prédios e salas à prova de pessoas indesejadas como se tudo isso fosse a coisa mais fácil do mundo. Mesmo com essas falhas, “O Ultimato Bourne” estabelece a franquia como a mais eficiente do moderno cinema de ação, e põe a si próprio como um dos melhores blockbusters do ano.

O DVD da Universal, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1), contém cenas cortadas e comentário em áudio do diretor.

– O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, EUA, 2007)
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Julia Stiles, David Strathairn, Joan Allen, Scott Glenn
Duração: 112 minutos

| Mais


Deixar comentário