Último Mestre do Ar, O

11/01/2011 | Categoria: Críticas

Adaptação de série infanto-juvenil representa mais um passo em falso na carreira de um cineasta cujo imenso talento tem sido eclipsado pelo igualmente enorme ego

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

M. Night Shyamalan surfava na popularidade de “O Sexto Sentido” (1999) quando recebeu convite da Warner para adaptar o primeiro longa-metragem da franquia Harry Potter. Ele recusou, alegando que preferia escrever seus próprios roteiros, e argumentando que em adaptações desse tipo seria obrigado a seguir a trama original muito de perto, sem oportunidade de incluir temas pessoais. Infelizmente, o tempo se encarregou de punir essa atitude com uma série de fracassos de bilheteria, um após o outro, que lhe retiraram aos poucos o poder adquirido com o filme de 1999. Uma década depois, Shyamalan finalmente cedeu e realizou a primeira adaptação da carreira: a aventura épica infanto-juvenil “O Último Mestre do Ar” (The Last Airbender, EUA, 2010). Trata-se de um filme decepcionante, que guarda muito pouco da veia autorial daquele que talvez seja o cineasta hollywoodiano mais interessante de sua geração.

O envolvimento de Shyamalan com “O Último Mestre do Ar” é resultado direto do fracasso de “A Dama na Água” (2006), fábula adulta que marcou o rompimento de Shyamalan com a Disney, empresa que o apoiou em toda a carreira. No caso específico, executivos da empresa se recusaram a liberar orçamento para o filme, alegando que o roteiro era excêntrico e dispendioso demais. Shyamalan não apenas correu para a concorrente Warner, mas escreveu um livro detonando a suposta falta de sensibilidade artística da Disney. Fez o filme que queria, e se arrependeu – não apenas a bilheteria foi um fracasso monumental como, talvez pela primeira vez nos Estados Unidos, a crítica lhe caiu de pau de forma praticamente unânime. O estrago estava feito. Ele teria, mais uma vez, que começar de baixo para dar a volta por cima.

Aparentemente, o contrato assinado com a Paramount para adaptar a série animada “Avatar” (espécie de mangá étnico que mistura kung fu, magia adolescente e um cenário épico na linha de “O Senhor dos Anéis”) poderia lhe permitir essa reviravolta. Além de trabalhar com um material extremamente popular no mundo inteiro, o contrato permitia que Shyamalan escrevesse o roteiro sem interferências de executivos. De fato, essa teimosia na relação com os estúdios parece trabalhar contra o cineasta. Embora Shyamalan seja um dos cineastas mais talentosos do planeta no trabalho com a câmera – poucos diretores no mundo têm uma habilidade natural tão fluida e impressionante para lidar com tomadas longas, controlando enquadramento e composição visual em profundidade – seu trabalho tem se tornado cada vez mais auto-indulgente.

De fato, a câmera é o único aspecto positivo em “O Último Mestre do Ar”. Embora haja nesse filme muito menos planos longos do que em qualquer outro trabalho de Shyamalan (e dessa vez ele optou por usar o manjado truque de alterar a velocidade de projeção dessas tomadas, ora acelerando ora utilizando o recurso da câmera lenta, em associação com mudanças abruptas de foco e enquadramento), a coreografia dos atores dentro desses planos continua sofisticada e de bom gosto. Pena que esse bom gosto não se estendeu em outros departamentos do filme: a trilha sonora de James Newton Howard apóia-se em batuques étnicos previsíveis, os figurinos parecem sobras usadas por figurantes no já citado “O Senhor dos Anéis”, e os efeitos especiais abusam de licenças poéticas que mais parecem erros de continuidade, incluindo personagens que levam jatos d’água no rosto e não molham um único fio de cabelo.

O pior de tudo, porém, é o roteiro. Comprimindo informação demais em pouco tempo de projeção, Shyamalan inclui longuíssimas cenas de diálogos explicativos, insere narração em off sempre que possível, e mesmo assim os espectadores que não conhecem a trama e os personagens da série de TV se sentem perdidos como cego em tiroteio. Há nomes demais para decorar – personagens, tribos, nações, locais, deuses – e as relações entre pessoas e lugares nunca fica muito clara. Não dá para criticar Shyamalan por causa da trama (num mundo pós-apocalíptico dividido em quatro nações ligadas aos elementais da natureza, garoto de 10 anos é único ser humano a dominar os quatro elementos – água, ar, terra e fogo – e passa a ser perseguido pelos guerreiros dessa última nação, que tenta dominar as demais), que é mais uma variação da jornada do herói arquetípica presente em fábulas desde que o homem aprendeu a andar em duas pernas, mas a maneira como ele organiza a imensa quantidade de detalhes da trama original em uma narrativa confusa e trôpega é lamentável.

O pior de tudo é que, pelo que dizem os especialistas no desenho animado que originou o filme, Shyamalan alterou bastante os fatos vistos na TV, em parte para dar mais uma caracterização mais densa aos personagens (vários deles têm contas a ajustar com o passado, como a maioria dos heróis de Shyamalan). No entanto, essas alterações desagradaram a garotada fã do seriado. Ou seja, até mesmo o público-alvo do filme (meninos de 10 a 14 anos que passam o dia assistindo a mangás na TV e jogando videogame) tem rejeitado a produção de US$ 150 milhões, dando-lhe bilheterias decepcionantes e fazendo a Paramount hesitar em dar prosseguimento à idéia original de realizar uma trilogia. Em última instância, “O Último Mestre do Ar” falha em praticamente todos os aspectos – do criativo ao narrativo, do financeiro ao visual – e representa mais um passo em falso na carreira de um cineasta cujo imenso talento tem sido eclipsado pelo igualmente enorme ego. Uma pena.

– O Último Mestre do Ar (The Last Airbender, EUA, 2010)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Noah Ringer, Nicola Peltz, Dev Patel, Jackson Rathbone
Duração: 103 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


20 comentários
Comente! »