Último Portal, O

05/04/2011 | Categoria: Críticas

Thriller de mistério de Polanski é prato cheio para quem gosta de procurar pistas escondidas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O longa-metragem europeu “O Último Portal” (The Ninth Gate, Espanha/França/EUA, 1999) foi aguardado, na época do lançamento nos cinemas, como um retorno triunfal de Roman Polanski ao horror. Depois de ver o filme, porém, a platéia demonstrou decepção, considerando a trama frouxa. Foram dois erros seguidos dos analistas de plantão: primeiro, Polanski nunca foi um cineasta especializado em horror; e se visto com atenção, “O Último Portal” se mostra um prato cheio para quem gosta de procurar pistas escondidas e desvendar significados ocultos por trás de uma história aparentemente simples.

Sobre a primeira afirmação, é preciso analisar com cuidado a carreira do diretor polonês. Versátil, ele já dirigiu desde comoventes dramas de guerra (“O Pianista”) até intrincados contos neo-noir (“Chinatown”). Parte da obra mais autoral do Polanski de fato flerta com elementos dos thrillers de mistério e/ou sobrenaturais (“O Bebê de Rosemary”, “O Inquilino”), mas mesmo nestes filmes o cineasta se recusou a chafurdar nos clichês do gênero. Polanski sempre deixou soluções fáceis de lado. Ele sabe que, mais até do que a história, o elemento que realmente faz a diferença neste tipo de filme é a atmosfera crescente de mistério. Isto – clima funesto e tensão incessante – existe de sobra em “O Último Portal”.

Baseado num romance do espanhol Arturo Pérez-Reverte, o longa-metragem narra a os esforços de um especialista em livros raros para inspecionar as últimas duas cópias remanescente de um livro demoníaco. Esperto e amoral, Dean Corso (Johnny Depp) é contratado por um rico colecionador de artigos de ocultismo, chamado Boris (Frank Langella), para a tarefa, que parece no mínimo esquisita. Afinal, Boris acabara de adquirir um dos três únicos exemplares existentes de um tratado sobrenatural, escrito em 1666. Mas ele desconfia que apenas um dos três livros é original, e deseja saber qual.

Para isso, Corso precisa comparar o livro de Boris com os outros dois, que estão em mãos de outros colecionadores, na França e na Espanha. Em tese, uma tarefa relativamente simples, apesar de meio espinhosa devido ao cuidado que donos de tomos raros dedicam aos objetos. Considerando a enorme soma de dinheiro envolvida, Corso topa a parada. Logo se verá envolvido em uma crescente espiral de mistério, ao verificar que deixa involuntariamente um rastro de sangue e mortes a cada nova parada. Para complicar ainda mais as coisas, uma misteriosa mulher loira (Emmanuelle Seigner) parece segui-lo.

A primeira hora de projeção é atmosférica. Através de uma narrativa clara e levemente cômica (cortesia da performance descontraída de Johnny Depp), Polanski apresenta os personagens principais e inicia a missão, enquanto aguça a curiosidade do espectador ao mostrar claramente que há mais no quadro completo do que aquilo que enxergamos. Não é preciso ser gênio para perceber que Dean Corso está dando um passo para dentro de um círculo freqüentado por pessoas dispostas a qualquer coisa para obter o que desejam. Fica evidente que não há apenas humanos envolvidos no caso, mas também forças sobrenaturais.

Para os espectadores que ainda não viram o filme, uma dica importante: preste bastante atenção na chamada mise-en-scéne (ou seja, a composição dos elementos visuais dentro de cada tomada), pois o longa está repleto de sugestões, citações – algumas bastante complexas e até eruditas – e pistas escondidas que podem, ou não, abrir para o espectador uma leitura diferente, subterrânea, dos eventos vividos por Corso, até o final ambíguo (e, para muitos, decepcionante, já que o filme termina numa nota melancólica).

Em “O Último Portal”, a palavra-chave é interpretação. Como David Lynch nos melhores momentos, Polanski se recusa a explicar a natureza dos acontecimentos que vemos na tela; podemos interpretá-los da maneira que quisermos. O que pensamos sobre a trama pode ser ou não verdade. Algumas perguntas importantes: qual a identidade da bela loira que persegue Corso? Quem é responsável pelos assassinatos que ele presencia?

Uma breve consulta aos fóruns de cinéfilos que discutem o filme (o Internet Movie Database tem um bem completo) mostra que os fãs têm dezenas de teorias sobre o filme e o significa oculto das ações de Dean Corso e demais personagens. Vê-lo uma segunda vez também pode ajudar a colocar os acontecimentos em outra perspectiva. Agora, nada é mais gostoso do que raciocinar e encontrar uma explicação para tudo por conta própria, certo?

O filme não saiu no Brasil em DVD. Nos EUA, o disco é simples: ótima qualidade de imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), comentário em áudio de Polanski e um pequeno making of.

– O Último Portal (The Ninth Gate, Espanha/França/EUA, 1999)
Direção: Roman Polanski
Elenco: Johnny Depp, Frank Langella, Lena Olin, Emmanuelle Seigner
Duração: 133 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


9 comentários
Comente! »