Último Rei da Escócia, O

11/06/2007 | Categoria: Críticas

Atuação eletrizante de Forrest Whitaker é o maior trunfo de filme político que exibe olhar colonialista sobre a África

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A indústria cinematográfica internacional tem demonstrado interesse crescente em retratar as terríveis condições sociais e políticas dos países mais miseráveis da África. Alguns dos países enfocados por filmes-denúncia de qualidade variável, nos últimos anos, foram Nigéria (“O Jardineiro Fiel”), Costa do Marfim (“Diamante de Sangue”) e Ruanda (“Hotel Ruanda”). A estréia do respeitado documentarista Kevin Macdonald na direção de longas-metragens de ficção, “O Último Rei da Escócia” (The Last King of Scotland, Inglaterra, 2006), traz à tona a situação de Uganda, em um verdadeiro show solo (premiado com o Oscar) de um ótimo e parcialmente desconhecido ator norte-americano: Forrest Whitaker.

Gordo e com um defeito congênito em uma das pálpebras, Whitaker sempre teve um obstáculo extra na carreira – é um homem feio. Por isso, teve que construir a fórceps uma carreira em Hollywood, onde a beleza sempre abriu oportunidades mais interessantes a atores negros mais bonitos (Denzel Washington, Jamie Foxx). Comendo pelas beiradas, Whitaker conseguiu trabalhar com diretores do porte de Robert Altman (“Pret-a-Porter”), David Fincher (“O Quarto do Pânico”) e Jim Jarmusch (“Ghost Dog”), mas nunca se tornou conhecido do grande público. A atuação eletrizante que impõe ao personagem do cruel e paranóico ditador ugandense Idi Amin é o grande papel de sua vida, e ele aproveita cada segundo da oportunidade, criando um indivíduo carismático e sedutor que, aos poucos, se revela um monstro egocêntrico e extremamente violento.

A maneira firme com que o cineasta escocês molda a personalidade do ditador, que governou Uganda durante oito anos, na década de 1970, é um destaque positivo de “O Último Rei da Escócia” (o título do filme se refere, de modo jocoso, à obsessão do governante pelo país europeu). Demonstrando domínio dos recursos técnicos do cinema, Macdonald os utiliza para dar ao filme o ponto de vista de seu verdadeiro protagonista: o médico recém-formado Nicholas Garrigan (James McAvoy, em atuação vigorosa). O truque que dá solidez ao bom roteiro de Jeremy Brock e Peter Morgan (este último também responsável por “A Rainha”, filme da mesma safra que também se ocupa em dramatizar os bastidores de um governo verídico) é dotar o longa-metragem do ponto de vista ingênuo e deslumbrado do jovem doutor.

Logo após a formatura, Garrigan ruma para Uganda. Pretende viver muitas aventuras e praticar a Medicina com objetivos puramente sociais, como costumam fazer muitos jovens europeus, todos os anos. Ele se emprega como voluntário numa creche do interior do país, mas um acidente bizarro envolvendo o ditador recém-empossado, numa estrada rural ali por perto, abre as portas do palácio presidencial para o médico. Ele trata do presidente e o impressiona com a jovialidade e a conversa franca, ganhando um convite para se tornar o médico particular do governante. Convite aceito, Garrigan vai sendo aos poucos seduzido para uma vida de luxo, enquanto sem perceber se torna cego para a violência que acompanha o séqüito de Amin. Quando começa a perceber a extensão da paranóia e da brutalidade do ditador, pode ser tarde demais.

Kevin Macdonald, autor do respeitado documentário “Um Dia em Setembro” (1999), usa ferramentas técnicas com discrição para enfatizar a progressão emocional do personagem principal desta jornada. Na primeira parte do filme, quando Garrigan ainda está deslumbrado com a posição privilegiada de que desfruta nos círculos íntimos do poder, predominam as cenas que se passam sob a luz do sol, esfuziante e alegre. À medida que o médico vai tomando consciência das atrocidades do regime, e passa a temer o ditador, o foco se desloca para cenas noturnas, em espaços fechados, às vezes com a Câmera posicionada a grande distância, como se fosse um espião observando o jovem doutor. A paleta de cores vai do amarelo explosivo (quente) ao azul cinzento (fria). Macdonald também abandona a discrição da narrativa, no terço final, quando o filme finalmente explode em violência crua para sublinhar mais fortemente o tamanho do genocídio promovido por Amin.

Por outro lado, se o cineasta novato se sai bem ao investir em um caráter documental para registrar o período turbulento, “O Último Rei da Escócia” não escapa de exibir o mesmíssimo olhar colonial – um olhar de cima para baixo – que filmes como os já citados “Diamante de Sangue” e “Hotel Ruanda” lançam ao continente africano. É um olhar de patrão para empregado, ou de colonizador para colonizado, simpático mas cheio de condescendência, e ainda por cima repleto de clichês – o povo de Uganda é visto como enormes massas de negrinhos sorridentes, ignorantes e supersticiosos, que precisam da ação de um branco para sair do imobilismo. A trilha sonora batuqueira e os planos de transição filmados nas favelas da capital de Uganda, Kampala (este foi o primeiro filme feito lá), que via de regra sempre mostram os nativos como seres simplórios de mentalidade curta, reduzem o povo do país a mero instrumento de um preconceito repetido, talvez inconscientemente, até mesmo por aqueles que os defendem.

O DVD da Fox contém apenas o filme, sem extras. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1) é boa.

– O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland, Inglaterra, 2006)
Direção: Kevin Macdonald
Elenco: James McAvoy, Forrest Whitaker, Kerry Washington, Gillian Anderson
Duração: 121 minutos

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