Último Samurai, O

23/06/2004 | Categoria: Críticas

Épico de Edward Zwick faz críticas ousadas à política norte-americana, mas procura o grande público no final do DVD

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Tom Cruise é o tipo de sujeito que não precisa provar mais nada para ninguém. Galã, bom ator, produtor corajoso e estrela máxima da constelação de Hollywood há uns quinze anos, Cruise vem se dedicando a viabilizar projetos interessantes dentro dos grandes estúdios de Hollywood. Infelizmente, nos últimos tempos sua estrela vinha brilhando mais por conseguir revelar bons cineastas (Alejandro Amenábar, de “Os Outros”, e Joe Carnahan, de “Narc”) do que pelos filmes que escolhida protagonizar. “O Último Samurai” (The Last Samurai, EUA, 2003) parece, assim, uma escolha lógica do ator. Isso é, ao mesmo tempo, uma dádiva e uma maldição.

Explico. Em certo aspecto, “O Último Samurai” lembra demais o ótimo policial “Minority Report”. Dizer isso pode soar estranho, já que são filmes ambientados em culturas e épocas radicalmente diferentes (o Japão do século XIX e os EUA do meio do século XXI). A verdade é que os filmes são semelhantes por possuírem premissas interessantes, resultarem eficientes mas nunca conseguirem ultrapassar um último estágio de ousadia, que lhes permitiria virar grandes filmes. O longa-metragem de Edward Zwick, como o de Steven Spielberg, tinha potencial para ser um épico belo e tematicamente forte, mas só consegue atingir a primeira promessa. E Cruise, mesmo sem querer, é o culpado do problema.

Novamente, explico. Na Hollywood atual, um projeto com respaldo de Tom Cruise significa aprovação imediata de qualquer estúdio. Em compensação, atira o filme para a escala das superproduções, do tipo que exige grandes bilheterias para se pagar. Como resultado disso, os cineastas que dirigem esse tipo de trabalho são obrigados a orquestrar todo tipo de concessão, a fim de tornar o longa mais palatável para o público médio norte-americano. Resultado final: um filme incompleto, pálido e sem coragem.

“O Último Samurai” conta a história de Nathan Algren (Cruise), um atormentado oficial do Exército norte-americano. Obrigado pelos superiores a massacrar aldeias inteiras de índios, Algren afoga no álcool suas lembranças. Ele é contratado pelo governo do Japão para treinar e armar um exército moderno, e enfrenta a oposição de um numeroso grupo de samurais, os guardas imperiais do Japão feudal. Logo no primeiro confronto entre as duas facções, Algren cai nas mãos do inimigo. O filme, de verdade, começa aí.

Obrigado a ficar todo o inverno na belíssima aldeia dos samurais, o oficial passa por um lento processo de conversão, tornando-se um homem fascinado pela cultura dos samurais. Ao mesmo tempo, encontra no carismático general Katsumoto (Ken Watanabe) um verdadeiro ídolo. A primeira metade do filme, que focaliza justamente o período de “prisão” de Algren entre os samurais, é excelente.

O filme ousa fazer duras críticas à cultura e à política (tanto interna quanto externa) norte-americana. Também acerta ao fazer boa parte dos diálogos serem travados em japonês, como um verdadeiro samurai faria. Enfim, faz poucas concessões ao espectador médio, além de apresentar uma fantástica direção de arte (os figurinos e as paisagens vêm diretamente dos responsáveis pela trilogia “O Senhor dos Anéis”) e um trabalho excelente de atores (destaque para Watanabe, que ofusca Cruise na maior parte das cenas em que os dois estão juntos).

Infelizmente, todos esses acertos são abandonados a partir da metade do longa-metragem. Buscando o grande público e as bilheterias gordas que pagariam as contas, Edward Zwick força uma conclusão muito fraca, que praticamente renega toda a mensagem das primeiras duas horas de filme. Apenas para ficar em um exemplo, colocar samurais para falar em inglês quando feridos mortalmente soa, com o perdão da expressão, como idéia de jerico. Como tal absurdo não havia ocorrido antes (pelo menos não com freqüência), conclui-se que isso acontece para que o tal espectador médio dos EUA, que odeia legendas, não tenha o clímax atrapalhado pela sopa de letrinhas na tela.

Assim, apesar de filmar as batalhas com incrível realismo (são cenas de violência realmente impressionantes, que nunca economizam sangue) e de resumir a um tímido beijo estilo “selinho” o surradíssimo romance entre Cruise e a irmã de Katsumoto (Masato Harada), por quem ele apropriadamente se apaixona no desenrolar da película, o diretor acaba com um monstro híbrido nas mãos, um Frankenstein: um filme que poderia ser belíssimo, mas acaba apenas competente e mediano, da mesma forma que já havia acontecido com “Minority Report”.

O DVD do filme, por outro lado, é muito competente. Como já é padrão nesses casos, o disco é duplo e concentra, no primeiro CD, o filme completo, com som e vídeo de primeira qualidade, e um comentário do diretor. No disco 2, a cereja do bolo: um vídeo-diário, quatro documentários sobre a filmagem, um exclusivo sobre a carreira de Tom Cruise, outro a respeito da história real por trás dos filmes e até cenas da pré-estréia do filme no Japão. Tudo legendado em português.

– O Último Samurai (The Last Samurai, EUA, 2003)
Direção:Edward Zwick
Elenco: Tom Cruise, Ken Watanabe, Billy Connolly, Masato Harada
Duração: 154 minutos

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