Últimos Dias

03/04/2007 | Categoria: Críticas

Drama intimista de Gus Van Sant deduz como Kurt Cobain viveu os últimos momentos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O longa-metragem “Últimos Dias” (Last Days, EUA, 2005) pretende ser uma livre interpretação do cineasta Gus Van Sant (vencedor em Cannes por “Elefante”, de 2003) para os últimos dias do guitarrista Kurt Cobain, maior ícone da geração 1990. Curiosamente, isso representa, ao mesmo tempo, um acerto e um erro do projeto, que passou quase dez anos no limbo antes que Van Sant achasse o ator certo para o papel. A visão idealizada de Van Sant é de muita sensibilidade, mas o filme acaba criando controvérsia porque mira num público desacostumado ao que vai ver. “Últimos Dias” atrai uma platéia viciada em cultura pop, que espera uma coisa ao entrar na seção e encontra outra – e, por isso, acaba odiando o resultado final.

Claro que controvérsia não é algo incomum à carreira de Van Sant. “Últimos Dias” encerra uma trilogia do diretor sobre a juventude norte-americana dos anos 1990, e os outros dois exemplares dessa trilogia já foram, em medidas diferentes, objeto de polêmica. “Gerry”, de 2002, teve pouquíssima repercussão, mas ganhou críticas ácidas e inflamadas, o que se repetiu em escala muito maior com o premiado “Elefante”. “Últimos Dias” adota o mesmo estilo despojado e intimista dos outros dois e, por atrair um público maior e mais jovem, acaba ampliando ainda mais a intensidade da controvérsia.

Por causa do grande interesse que o tema suscitou na grande imprensa – Cobain cometeu suicídio em circunstâncias jamais explicadas – o filme provoca interesse garantido nos fãs do Nirvana, banda do guitarrista, que são milhões. Não é o público ideal para o estilo lento, hipnótico, fantasmagórico de Van Sant. “Últimos Dias” não é uma cinebiografia. Trata-se de um filme de ficção que imagina o que poderia ter ocorrido nas últimas 48 horas da vida de Cobain, quando o guitarrista permaneceu trancado dentro da mansão onde morava, à beira de um bosque, vagando pela floresta e pelos quartos amplos da casa, como um fantasma.

Van Sant filma tudo sem pressa, em tomadas longas, que não raro duram vários minutos, geralmente com a câmera bem distante de Blake (Michael Pitt), o fictício guitarrista cuja figura macilenta e encurvada parece uma cópia carbono de Kurt Cobain. Na maior parte dessas cenas, curiosamente, não é possível ver o rosto do músico, o que remete aos filmes de Hollywood que mostravam Jesus Cristo antes dos anos 1960. É provável que isso tenha sido mera coincidência, mas a técnica ajuda a mitificar a figura do guitarrista, que passa os 97 minutos murmurando palavras sem sentido e caminhando sem rumo pela casa ou pelo bosque. É um homem inteiramente desconectado com o que ocorre ao redor. A rigor, já estava morto antes de morrer.

O que Gus Van Sant tenta conseguir, com esse raro épico mundano sobre depressão, é a mesma qualidade hipnótica que o também guitarrista Neil Young buscava obsessivamente, nas canções com 10 minutos e intermináveis solos, nos anos 1970/80: uma espécie de transe. Dessa forma, Van Santa não se esforça para mostrar nenhuma progressão dramática. Blake toca guitarra e bateria, tenta gravar uma musica, se veste de mulher, dá longos passeios pelo mato, toma banho de rio. A cena final do filme é alegórica e intrigante.

A rigor, “Últimos Dias” é um filme muito corajoso e próximo a “Elefante”. Os dois longas-metragens investem no mesmo estilo hipnótico e ficcionalizam tragédias que mexeram profundamente com o imaginário do jovem nos EUA na década de 1990 (no caso de “Elefante”, o evento enfocado foi o massacre da escola Columbine). Ambos são filmes que evitam qualquer tentativa de explicar essas tragédias, limitando-se a narrar os acontecimentos com simplicidade e despojamento, no mesmo ritmo monótono da vida. É cinema que faz pensar, mas exige certa paciência do espectador.

O DVD da Warner é um lançamento da rede de TV HBO nos EUA. O disco, simples, conta com imagem original (wide anamórfica) e som de boa qualidade (Dolby Digital 5.1). Não há extras.

– Últimos Dias (Last Days, EUA, 2005)
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Michael Pitt, Lukas Haas, Asia Argento, Kim Gordon
Duração: 97 minutos

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