Umberto D

06/03/2008 | Categoria: Críticas

Clássico do neo-realismo italiano e dirigido por Vittorio De Sica, filme é obra-prima de narrativa cinematográfica simples e serena

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Se cinéfilos contemporâneos fossem instados a criar uma lista com os cinco melhores filmes do neo-realismo italiano, é bem possível que deixassem “Umberto D” (Itália, 1952) de fora. O longa-metragem de Vittorio De Sica surgiu numa época em que o gênero, que trouxe de volta o respeito ao cinema europeu no período do pós-guerra e introduziu uma maneira de filmar muito diferente do que se fazia na época, já estava em decadência. Embora muito menos famosa do que obras como “Ladrões de Bicicleta” (1948) e “Roma Cidade Aberta” (1946), a produção acabou se tornando a mais cinematográfica, e provavelmente mais respeitada (por especialistas), de todas aquelas rodadas sob o rótulo do neo-realismo.

As qualidades de “Umberto D” ficam evidentes quando o filme é colocado ao lado de “Ladrões de Bicicleta”, clássico incontestável do mesmo diretor. Graças à experiência adquirida com o maior tempo de estrada, De Sica conseguiu criar um trabalho complementar, na temática, e ainda mais refinado em termos de narrativa. O registro alcançado se aproxima mais do realismo absoluto, tão desejado pelos cineastas que seguiam as regras do movimento: é mais simples e sereno, recusa com firmeza qualquer tipo de manipulação emocional da audiência, e alcança um registro bem mais casual e espontâneo. Além disso, consegue encapsular o tema pretendido – a miséria crescente dos aposentados na Itália do pós-guerra – em um personagem de composição impecável.

A apresentação de Umberto (Carlo Battisti, professor universitário que jamais havia atuado antes) acontece numa cena perfeita. O filme abre com uma passeata, promovida pelos aposentados, pedindo o aumento da pensão. Os velhinhos são dispersados pela polícia com violência. Um dos senhores que se esconde dos truculentos policiais dentro de uma viela é Umberto. Ele conversa com outros aposentados e demonstra irritação, mas não com a polícia. Na verdade, Umberto até dá razão aos policiais para terem dispersado a passeata. Ele está enfurecido com os organizadores do protesto, por terem recorrido à estratégia sem pedir permissão das autoridades locais.

Funcionário público aposentado, Umberto se veste como um fidalgo. As roupas são velhas, mas de corte impecável. Ele caminha empertigado, com o auxílio de uma bengala. Percebe-se, pelo porte, que o velho já viveu em condições bem mais favoráveis do que quando o filme se inicia. Na ocasião, Umberto vive no quarto de uma pensão vagabunda, acompanhado apenas por um cão vira-latas. Ele está devendo dois meses de aluguel, e o salário não lhe permite saldar o débito (“para pagar tudo o que devo, precisaria ficar um mês sem comer”, calcula). O aposentado sobrevive vendendo objetos por um preço muito abaixo do que valem. Ele sabe que aquela situação não pode demorar muito. O nível de vida de Umberto está caindo rapidamente. Ele está a caminho da miséria absoluta.

Sem sentimentalismos, De Sica alcança um registro quase antropológico da situação de penúria dos aposentados na Itália dos anos 1950. Com a economia em ruínas e os impostos cada vez mais altos, os velhos vêem o poder aquisitivo encolher a cada mês. O governo e a sociedade, contudo, não lhes dão muita atenção. Não são tempos de meio-termos, mas de altos e baixos enormes: muita pobreza nas classes baixas, hedonismo inconseqüente nas classes altas. A composição dos personagens secundários é tão impecável quanto a de Umberto. De Sica usa a dona da pensão para comentar a situação dos mais ricos, e a empregada do local para fazer o mesmo com os mais pobres. As duas camadas sociais padecem de versões distintas do mesmo mal – a alienação.

A narrativa é perfeita, do ponto de vista cinematográfico. Vittorio de Sica recusa firmemente o melodrama. Utiliza a música de forma econômica, sutil e não-invasiva, e dribla sabiamente a armadilha do cachorrinho de estimação. Animais desse tipo, no cinema, são pretextos perfeitos para fazer qualquer história mergulhar no melodrama lacrimoso e na auto-complacência, mas De Sica usa o animal para fazer humor melancólico, e também como recurso dramático para dispensar o uso de diálogos e expor os conflitos íntimos de Umberto sem ter que colocá-lo para conversar com outras pessoas. É o cão, por exemplo, que faz o aposentado hesitar, quando a situação realmente fica preta e a idéia de suicídio começa a vir à mente.

Todo o terceiro ato do filme é inesquecível, a começar pela sensacional seqüência em que Umberto tenta pedir esmolas pela primeira vez – um exemplo de timing impecável, que deixa a cena com uma atmosfera melancolicamente engraçada, quase como faria Charles Chaplin. A cena final, que tem vez num parque da capital italiano, também mistura perfeitamente luz e sombras, dor e alegria. A montagem, afinadíssima, permite ao espectador acompanhar sem qualquer dificuldade toda a ação dramática, ainda que ela seja quase sempre silenciosa. “Umberto D” é, enfim, uma obra-prima de magia cinematográfica, que transcende gêneros e rótulos e confirmar o diretor entre os grandes da Sétima Arte no século XX.

Há duas versões em DVD nacional. São absolutamente idênticas, com exceção da capa. A primeira é da Continental, e a mais recente carrega o selo da Silver Screen Collection. Nenhuma das versões tem extras. A qualidade da imagem (fullscreen 1.37:1, formato original) e do áudio (Dolby Digital 2.0) é OK.

– Umberto D (Itália, 1952)
Direção: Vittorio De Sica
Elenco: Carlo Battisti, Maria Pia Casilio, Lina Gennari, Memmo Carotenuto
Duração: 89 minutos

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