Up – Altas Aventuras

23/11/2009 | Categoria: Críticas

Filme funciona como aventura infantil e como reflexão pungente sobre a velhice e os sonhos não-realizados que acumulamos em nossas vidas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Embora seja uma atitude desejável, é difícil esquecer, mesmo que por um instante, os superlativos normalmente associados à Pixar. Em 2009, a empresa capitalizou como nunca os anos a fio de elogios angariados junto à comunidade cinematográfica, em quase duas décadas de atividade. Mesmo ainda associada à produção infanto-juvenil de Hollywood, a empresa invadiu o prestigiado circuito de cinema de festivais europeus, nicho normalmente reservado ao que chamamos de “cinema de arte”. O líder criativo da firma, John Lasseter, ganhou homenagem em Veneza; e “Up – Altas Aventuras” (EUA, 2009), primeiro longa-metragem da Pixar produzido em 3D, obteve a honra de se tornar a primeira animação a abrir o Festival de Cannes, fazendo-o sob mais uma saraivada de críticas positivas.

Toda essa adulação, aliada à lendária fama da empresa de jamais ter investido tempo e dinheiro num filme ruim, autorizava o mais desconfiado dos cinéfilos a elencar “Up” na lista dos melhores títulos de 2009, mesmo sem ter visto sequer um fotograma da produção. Por isso, se uma sombra de desapontamento percorrer sua mente após a primeira seção do longa-metragem de Pete Docter (o primeiro do cineasta após o belo “Monstros S/A”, feito oito anos antes), dê o devido desconto. Todos nós sabemos que as expectativas exageradas tendem a gerar decepções (ou, mais raramente, adorações) igualmente imensas, de forma que reservar algum tempo para uma reflexão cuidadosa sobre a obra pode ser uma atitude sensata. Até porque, numa conferida cuidadosa, “Up” se mostra mais uma obra impecável do estúdio mais criativo da atualidade.

Digo isso porque “Up”, embora na superfície possa parecer pálido para os altíssimos padrões estabelecidos pela Pixar, funciona muitíssimo bem em dois níveis distintos e intercambiáveis: como uma aventura infantil repleta de cenários deslumbrantes e personagens divertidos, e como uma reflexão pungente sobre a velhice e os sonhos não-realizados que todos nós acumulamos em nossas vidas. Aliás, sob certo aspecto, o longa-metragem tem mais potencial junto ao público adulto – o subtexto da dolorosa jornada do protagonista é tão rico quanto econômico e silencioso – do que junto às crianças, para quem aventuras ambientadas em cenários naturais exóticos (habitados por animais igualmente exóticos) vêm se tornando comuns, vide os sucessos de franquias como “Madagascar” e “A Era do Gelo” (cujo terceiro exemplar, aliás, foi lançado nos cinemas poucos meses antes de “Up”).

A rigor, os 12 minutos que compõem o prólogo do filme de Pete Docter se equiparam ao melhor que a Pixar já conseguiu produzir. Nesse intervalo, ficamos conhecendo Carl e Ellie, duas crianças solitárias, que compartilham sonhos aventureiros alavancados pelo explorador Charles Muntz, que volta das selvas localizadas no planalto da Venezuela com imagens de paisagens encantadoras e o fóssil de uma criatura desconhecida. Enquanto ele é confrontado com acusações de fraude e desaparece nas selvas da América do Sul para e encontrar o bicho vivo, as duas crianças crescem, se casam e envelhecem, tentando economizar para uma viagem ao local exótico e sendo impedido pelas circunstâncias da vida. A dinâmica entre os dois é perfeita: ela fala demais, ele não abre a boca. Quando Carl consegue comprar as passagens, Ellie está doente. Ela morre, deixando-o solitário e amargurado – um velho ranzinza cuja maior aventura diária consiste em caminhar do quarto até a varanda.

Não demora muito para que Carl “desista” da vida em sociedade e, numa seqüência visualmente estonteante que encapsula perfeitamente a idéia de uma espécie de ressurreição metafórica, parta numa viagem surreal ao planalto venezuelano, tendo a própria casa içada por milhares de balões coloridos. Aquela que seria uma aventura solitária, contudo, acaba se transformando numa viagem imprevisível e perigosa, graças à presença inusitada de Russell, escoteiro de oito anos que por acaso estava na varanda do velhinho quando a casa levantou vôo. A relação forçada com o intruso-viajante, apimentada por uma ave colorida e uma matilha de cães falantes (!), vai ensinar a Carl uma ou duas coisinhas novas a respeito da natureza humana, bem como levá-lo a reprocessar a memória de toda uma vida a partir de uma nova perspectiva. Tudo isso entremeado por duas ou três seqüências de ação física capazes de deixar o espectador literalmente sem ar.

Falar sobre a qualidade da animação da Pixar é chover no molhado; não chega a surpreender, portanto, que as paisagens da natureza presentes em “Up” sejam tão belas. Incomum, porém , é a decisão de manter o traço cartunesco das figuras humanas, uma aposta distante do naturalismo que dita as regras das animações feitas em computador neste século XXI. Nesse ponto, “Up” paga tributo a “Os Incríveis” (2004), alcançando um resultado muito interessante em termos de expressividade do rosto humano, mesmo fugindo da representação de fundo realista. Observe, por exemplo, as reações do menino Carl durante a cena de abertura, que o mostra assistindo a um noticiário sobre o explorador: curiosidade, idolatria, exultação, raiva e decepção se alternam no seu rosto. Nem todo ator de carne e osso consegue alcançar esse grau de expressividade.

Assim como em “Monstros S/A” (2001), Pete Docter mostra talento nas transições entre as cenas, imprimindo ao filme um ritmo fluido. Ele usa o som, com freqüência, para ligar duas ações distantes no tempo e/ou no espaço. No já citado prólogo, que dispensa os diálogos (e funciona como uma espécie de unidade narrativa autônoma dentro do longa), Docter transforma o estouro de um balão de ar no espoucar de um flash fotográfico, unindo com um som simples e marcante dois momentos separados no tempo por pelo menos uma dúzia de anos. O senso de composição visual do diretor, que usa de forma abundante a profundidade de campo para acentuar a beleza das paisagens, também garante cenas de ação empolgantes; o primeiro “pouso” da casa no planalto venezuelano, capaz de deixar muitas crianças suando frio. Em emoção, a seqüência se equivale à viagens através das portas em “Monstros S/A”. E a paleta de cores também evolui de modo perfeito. No primeiro ato, por exemplo, as cores vão sendo dessaturadas à medida em que o casal envelhece, sinalizando visualmente o melancólico final deste trecho; nos outros dois atos, enquanto Carl reexamina sua vida, acontece o contrário, e as cores vão ganhando vida e beleza ao mesmo tempo em que o velhinho descobre sentimentos adormecidos há muito.

Se existe uma sombra de decepção deixada por “Up”, ela não está no tratamento visual dado à história, mas no uso recorrente de dispositivos narrativos cuja originalidade não é um ponto forte. O cineasta dá à relação entre o menino e o velho, um recurso narrativo muito explorado em Hollywood, um tratamento apenas correto, apesar de repleto de humor e graça. Além disso, a necessidade de criar um vilão facilmente reconhecível torna o enredo, a partir de certo ponto, facilmente antecipável. O resultado disso é um desequilíbrio qualitativo na história, com o primeiro ato impecável se sobressaindo de forma evidente aos dois trechos seguintes. De qualquer forma, é fundamental “ler” o filme nas entrelinhas – e prestar atenção nas reflexões que ele propõe sobre o tema da velhice – para entender que o alcance de “Up” vai além do nível de entretenimento puro e simples.

Em tempo: muita gente (eu incluso) espera os curtas-metragens que antecedem os longas da Pixar nos cinemas com uma expectativa tão grande quanto a reservada para o prato principal. E para variar, “Parcialmente Nublado” (Partly Cloud), dirigido por Peter Sohn, iguala-se em lirismo, graça e humor a todos os outros curtas maravilhosos produzidos pela empresa. O filminho, de cinco minutos, parece buscar inspiração na seqüência de abertura de “Dumbo” (1941) para mostrar as aventuras de uma cegonha entregadora de bebês, às voltas com uma nuvem desastrada. O curta abandona a influência de Chuck Jones (evidente em “Presto” e “ Quase Abduzido”), perde em selvageria, mas ganha em encantamento (e mostra-se mais próximo, em clima, de “Para os Pássaros” e “Banda de um Homem Só”). Ou seja, são duas obras-primas pelo preço de uma.

Os dois filmes, longa e curta, estão presentes no DVD nacional, que carrega o selo Buena Vista. O filme de Pete Docter aparece com aspecto de imagem correto (widescreen anamórfico) e áudio de boa qualidade (Dolby Digital 5.1). Um segundo curta-metragem é integrado ao pacote, assim como dois featurettes, o primeiro documentando a viagem da equipe da Pixar aos planaltos da Venezuela (eles queriam inspiração para as paisagens) e o segundo discutindo as várias opções de final com que os roteiristas trabalharam para o personagem de Muntz.

– Up – Altas Aventuras (EUA, 2009)
Direção: Pete Docter
Animação
Duração: 96 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


22 comentários
Comente! »