V de Vingança

10/08/2006 | Categoria: Críticas

Filme é uma corajosa alegoria política que alfineta o governo Bush e não esquece de ser um thriller de ação eletrizante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Parte da crítica internacional tem bombardeado “V de Vingança” (V for Vendetta, EUA/Alemanha, 2006) sob o argumento de que se trata de um filme politicamente irresponsável. A alegação é compreensível. O longa-metragem, estréia na direção de James McTeigue, tem como herói um terrorista mascarado cujo objetivo é explodir o Parlamento da Inglaterra e, dessa forma, estimular as pessoas a abandonar a apatia, pensarem por si mesmo e reassumirem o controle das próprias vidas. O debate sobre as implicações ideológicas do filme pode ser complexo, mas não empata os méritos cinematográficos da produção de US$ 50 milhões. “V de Vingança” é uma corajosa alegoria política que alfineta sem piedade a política de restrição dos direitos individuais da era George W. Bush, e de quebra funciona perfeitamente como um thriller de ação com cérebro, artigo raro no cinema industrial de Hollywood.

O rastro de polêmica gerado após o lançamento de “V de Vingança” lembra bastante a recepção oferecida a outro filme controverso: “Clube da Luta” (1999), de David Fincher. São obras de tom e discurso distintos, mas que compartilham uma semelhança irrefutável; ambas escondem, sob a aparência de frenéticos filmes de ação, discursos ideológicos que funcionam como ataque frontal a símbolos poderosos do status quo capitalista.

Além disso, “V de Vingança” também tem um protagonista-esfinge, um homem enigmático e fascinante. V, o homem vestido de negro que cita Shakespeare enquanto maneja facas com velocidade supersônica, oferece à platéia uma imagem poderosa e inesquecível. Trata-se de um romântico à moda antiga vivendo em um futuro distópico e totalitário – um futuro construído cuidadosamente para lembrar o presente, só que um passo adiante. É, desde já, um dos personagens mais icônicos da era pós-11 de setembro.

Dá para entender a reação enfurecida da parcela mais conservadora da crítica de cinema quanto ao conteúdo literal e potencialmente explosivo. Afinal, o cenário evocado pelo filme de McTeigue revisita (conscientemente ou não), numa ficção que faz alegoria com a realidade, o pesadelo do ataque às Torres Gêmeas, em 2001. Imagina, por exemplo, um futuro pós-apocalíptico, quando os EUA afundam em guerra civil enquanto a Inglaterra é dominada por um governo neonazista, que tem até campos de concentração.

A trama, situada em algum momento perto de 2020, revela uma população narcotizada que, em troca de segurança, aceita abrir mão da liberdade individual. Milhões de pessoas vivem sob rigoroso monitoramento, o que se traduz em um ambiente de policiamento ultra-intensivo, vigilância eletrônica e falta de privacidade. Um cenário que vai um passo além, mas é familiar a quem viveu de perto as conseqüências do 11 de setembro de 2001.

“V de Vingança” reúne a equipe criativa responsável pela trilogia “Matrix”: o produtor Joel Silver e os irmãos Larry e Andy Wachowski. Os dois últimos, desta vez, abrem mão da direção para assinar apenas roteiro e produção. Atrás das câmeras está James McTeigue, assistente de direção nos três exemplares de “Matrix”. Apesar do novo diretor, o filme traz as impressões digitais da grife Wachowski, a começar pelo estilo, uma colagem furiosa de cacos e estilhaços de cultura pop e erudita, alto e baixa, reunidas sem distinção.

Desta vez, o caldeirão cultural dos Wachowski é beneficiado pelo texto original do escritor de revistas em quadrinhos Alan Moore, autor da obra original que inspirou o filme e também adepto da colagem de referências. A maior parte dos elementos da colagem – versos de Shakespeare, livros de George Orwell, quadros surrealistas de Max Ernst, a música de Tchaikovski, Rolling Stones e Sex Pistols, gibis do Judge Dredd, a teoria anarquista de Mikhail Bakunin, Alexandre Dumas – vem da obra de Moore. O trabalho dos Wachowski foi bater tudo num liquidificador gigante e passar um verniz autoral no resultado, que dá um caldo vigoroso. O caldeirão de referências constrói um futuro distópico tão totalitário quanto aquele enfrentado por Neo e Trinity nos filmes anteriores do grupo.

As influências dos irmãos Wachowski não se resumem ao estilo. V, o terrorista mascarado, fala do mesmo jeito que o guru Morpheus, com longos monólogos explicativos embebidos de filosofia. Há um sem-número de diálogos construídos com o palavreado pós-moderno que muitos dos personagens de “Matrix” (o Oráculo, o Arquiteto) utilizavam. As cenas de ação são poucas e, ainda bem, poderosas, deixando de lado as sofisticações do bullet time e investindo com inteligência em efeitos câmera lenta e numa cenografia escura.

Há sangue aos borbotões no filme, e isso deixa claro que “V de Vingança” mira um público mais adulto do que a média das grandes produções de estúdio, o que é sempre bom. E o final do longa-metragem, ainda que claramente impossível do ponto de vista narrativo, investir num tom profético de parábola, assumindo uma impossível, mas belíssima imagem de poesia visual (a multidão de mascarados) que casa perfeitamente com a demolidora canção “Street Fighting Man”, dos Stones, entoada por um Mick Jagger cheio de juventude enquanto os créditos sobem à tela. No todo, é uma delícia.

Para os poucos puristas que exigiam fidelidade aos quadrinhos de Alan Moore, uma má notícia: as alterações na intrincada trama tecida pelo hippie inglês são muitas. Larry e Andy Wachowski eliminaram meia dúzia de personagens dos gibis e concentraram a narrativa em apenas três deles: o terrorista V (Hugo Weaving, o agente Smith de “Matrix”), a bela garota que ele salva e com quem se envolve, Evey (Natalie Portman), e o investigador que o persegue, Finch (Stephen Rea).

Mesmo nesse trio houve mudanças consideráveis. Nas revistas de Alan Moore, Evey é menor de idade e trabalha como prostituta; no filme ela é mais velha, menos ingênua e ganhou uma profissão, digamos, menos humilhante – virou produtora de TV. Nos gibis, o primeiro-ministro totalitário da Grã-Bretanha é um quarto personagem importante, enquanto no longa-metragem Sutler (John Hurt) só é visto brevemente, em telas de TV. A revista ainda possui um supercomputador que desapareceu nas telonas.

As modificação não eliminam, mas diluem um dos aspectos essenciais do texto de Alan Moore: a tese de que é possível uma anarquia utópica, onde cada homem é capaz de cuidar de si mesmo e não há a necessidade de um Estado. É por essa utopia que V luta e mata. “V de Vingança” não chega a ser pessimista, mas denota certa falta de fé na humanidade, acréscimo dos criadores do filme ao romantismo idealizado de Alan Moore.

Nesse sentido o roteiro traz uma bem-vinda novidade, pois dá ao sorridente terrorista uma sombra de hesitação e dúvida que o faz mais humano, e portanto mais crível, enquanto no gibi ele era apresentado como uma espécie de super-homem nietzscheano, cujas ações cuidadosamente calculadas sempre denotavam exatamente as conseqüências que ele era capaz de prever, nos mínimos detalhes.

A interpretação de Hugo Weaving (o agente Smith de “Matrix”, com o rosto o tempo inteiro coberto pela máscara sorridente) é fundamental para expressar esse caráter humano de V; o ator dota o personagem de uma linguagem corporal sutil, levemente cômica, que é calorosa e inspira confiança, mas sem deixar de impor certo ar de excentricidade.

A máscara do personagem, a propósito, reproduz o rosto do conspirador Guy Fawkes, personagem histórico que tentou, em 1605, explodir o Parlamento inglês. Pode parecer um recurso ridículo e inverossímil, mas tanto Alan Moore quanto os irmãos Wachowski sabem da importância de trabalhar com símbolos visuais para passar uma mensagem com eficiência. E a imagem visual de V – capa negra, máscara, facas e rosas vermelhas – é poderosa o suficiente para permanecer na mente por dias, meses, anos.

Talvez esteja nesse ponto – a construção e o uso de símbolos visuais poderosos – o segredo do sucesso dos irmãos Wachowski. De cultura e inteligências acima da média, e totalmente sintonizados com a geração a que pertencem, os dois compreendem perfeitamente que tipo de material faz um filme ser lembrado após a sessão de cinema. Suas obras viram, dessa forma, algo mais do que filmes: artefatos culturais que simbolizam uma era.

É sob esse ponto de vista que “V de Vingança” se revela um filme-síntese, do mesmo naipe dos três exemplares de “Matrix”. O longa-metragem de 132 minutos absorve, sintetiza e ecoa os medos, esperanças e temores da sua geração, traduzindo tudo isso numa trama de ação eletrizante e inteligente. Há defeitos eventuais, sim, mas até eles – a visão romântica de um passado irreal, a concepção às vezes rasa ou incompleta de idéias filosóficas complexas e, claro, o terrorismo como solução democrática válida – pertencem tanto aos criadores do filme quanto ao público. Com “V de Vingança”, os irmãos Wachowski comprovam que continuam em sintonia com sua audiência, o que é ótimo.

O disco é um lançamento da Warner. Além de ter o filme em ótima qualidade, com imagem perfeita (widescreen anamórfica) e som idem (Dolby Digital 5.1), há um making of.

– V de Vingança (V for Vendetta, EUA/Alemanha, 2006)
Direção: James McTeigue
Elenco: Hugo Weaving, Natalie Portman, Stephen Rea, John Hurt
Duração: 132 minutos

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