Vá e Veja

02/10/2008 | Categoria: Críticas

Graças a uma ousada tour-de-force de edição de som e operação de câmera, filme russo desorienta o espectador e o esmurra com a força de um soco

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Você pode ser um cinéfilo experiente e acreditar que já viu de tudo, dentro do gênero “filme de guerra”. Pois não viu. Pelo menos até encarar de frente a obra-prima russa “Vá e Veja” (Idi i Smotri, URSS, 1985). Relato duro, seco e impassível do ataque nazista à União Soviética, em 1943, o longa-metragem transpõe para celulóide as terríveis memórias de infância do cineasta bielo-russo Elem Klimov, que sentiu na pele a violência da guerra. Graças a uma ousada tour-de-force de edição de som e operação de câmera, Klimov foi capaz de alcançar e manter, do início ao fim do espetáculo cinematográfico, um impressionante rigor formal, mesclado com altíssimo nível de emoção. Ele produziu, assim, um dos espetáculos mais brutais e desconcertantes já exibidos em uma tela de cinema. É um filme que atinge o espectador direto no estômago, com a força de um soco. Um filme que desorienta.

De fato, “Vá e Veja” é uma daquelas obras de arte (igualmente visual e sonora) para as quais palavras parecem frágeis, até mesmo desimportantes. Descrever e analisar os inúmeros méritos técnicos e cinematográficos alcançados por Klimov são atos necessários, mas insuficientes para traduzir o enorme impacto emocional causado pelo longa-metragem. Antes de tudo, é fundamental ressaltar que o diretor soviético vai muito mais longe do que simplesmente ligar a câmera e filmar atrocidades com boas condições de iluminação. Ele utiliza toda uma variedade de ferramentas e técnicas cinematográficas, sempre ousadas e sofisticadas, para imprimir à obra uma qualidade sensorial muito rara. Neste filme, o espectador não apenas assiste a cenas de violência gráfica. Ele é chamado a cheirar, ouvir e sentir, com o coração, a brutalidade insana da guerra. Ao final do espetáculo, a platéia terá comungado, com o personagem principal, da descoberta física e espiritual de um horror que jamais imaginava existir.

Antes de morrer, em 2003, Elem Klimov explicou que o objetivo de “Vá e Veja” não era contar uma história, mas mergulhar nas memórias de infância e tentar comunicar à platéia a assombrosa confusão de sentimentos – pânico, fúria, tristeza, medo, horror – que experimentou, enquanto a família tentava escapar da ofensiva alemã na Bielo-Rússia (país a oeste da Rússia), em 1941. O objetivo, ambicioso para qualquer criador, foi plenamente alcançado. De fato, Klimov não se preocupa em contar uma história. Pelo menos não da maneira clássica, com começo, meio e fim, em que o protagonista atravessa uma jornada de dificuldades e sai transformado. A câmera de Klimov, ao mesmo tempo brutal e elegante, rústica e sofisticada, apenas acompanha as experiências vividas pelo jovem camponês Florya (Alexei Kravchenko), em um par de dias, na fase mais crítica da invasão nazista à região.

Para reconstituir as lembranças da guerra com a maior fidelidade possível, Klimov não poupou esforços. Conseguiu verdadeiros uniformes militares nazistas, usou munição de verdade nas cenas de tiroteios e recusou a facilidade de filmar em estúdios, preferindo a imprevisibilidade das locações reais. Ele optou por filmar tudo em tomadas longas, que freqüentemente ultrapassam três ou quatro minutos, sem cortes. O extraordinário uso da steadycam (equipamento especial que dá estabilidade às imagens captadas por uma câmera fixa nos ombros de um operador), aliado à execução perfeita de intrincadas coreografias, com a movimentação simultânea de centenas de figurantes, deveria ser estudado em escolas de cinema, tamanha a perfeição. Enquanto a câmera passeia pelo meio de multidões de camponeses aterrorizados e soldados enlouquecidos, temos a sensação de estar bem no meio da guerra, vivenciando tudo aquilo.

Este envolvimento emocional é amplificado por uma engenhosa edição de som, que vai além do realismo puro e simples. Quando uma bomba explode ao lado de Florya, ele passa a ouvir um zumbido alto e insistente, que abafa quase completamente os sons naturais. As pessoas gritam bem ao lado dele, que não ouve. Steven Spielberg copiou esta técnica em na abertura de “O Resgate do Soldado Ryan”, mas não teve coragem de levá-la ao extremo, como faz Klimov. O diretor bielo-russo mantém o zumbido em primeiro plano por cerca de 20 minutos, em que o espectador compartilha da desorientação e do terror que o rapaz sente. Diálogos e sons ambientes podem ser ouvidos, mas muito ao longe, bem atrás de uma parede sólida de ruídos. O zumbido vai cedendo lentamente, como aconteceria na vida real. Além disso, o cineasta teve a grande sacada de mixar ao zumbido, de forma quase imperceptível, trechos distorcidos de melodias de Mozart. A música é praticamente inaudível, mas atinge com força o subconsciente e contribui para elevar a experiência sensorial da guerra a um nível de horror puramente emocional, como pouquíssimos filmes já ousaram fazer.

Como se não fosse o bastante, Klimov ainda mescla outros planos às longas e elaboradas. Planos diametralmente opostos: closes fechados dos rostos dos personagens mais importantes, de curta duração. O choque entre planos de estética tão distinta amplifica ainda mais a dramaticidade das cenas (é a mesma técnica utilizada por Sergio Leone para realçar o drama nos filmes que ele dirigiu, embora o italiano transforme o drama em melodrama – de alto nível – graças ao uso da música, o que não ocorre aqui). Ao falar, os personagens quase sempre olham fixamente para a câmera, se dirigindo diretamente ao espectador. Trata-se de uma técnica infalível para gerar envolvimento emocional na platéia – seria o equivalente cinematográfico de agarrar um membro da audiência pela camisa e puxá-lo para dentro do filme.

Ao conjunto dessas técnicas, todas maravilhosamente executadas, deve-se agregar ainda a atuação absolutamente sobrenatural do jovem ator Alexei Kravchenko, cuja expressão petrificada, de olhos esbugalhados, parece conter toda a dor do mundo. Em algumas cenas, ele foi hipnotizado para que o diretor conseguisse extrair dele reações de puro terror. Além disso, o elenco de anônimos, com rostos duros e vincados, expressões sofridas e o olhar permanente de quem está encarando a morte sem esperanças, também brilha intensamente. Os atores e figurantes desconhecidos emprestam dignidade e verdade a seqüências que parecem encapsular toda a insanidade e a violência da mais estúpida e genocida de todas as guerras registradas pela História humana.

Apesar de longa e desconfortável, a experiência emocional provocada por “Vá e Veja” é poderosa. Há diversas cenas antológicas: o banho de chuva na floresta, em meio a pequenos arco-íris provocados pelo reflexo da luz entrando pela copa das árvores, quase um momento de alívio antes de a tempestade de fogo realmente começar; a recusa de Florya em aceitar o destino da mãe e das duas irmãs, que culmina com um passeio emocionalmente arrasador por dentro de um pântano de lama; a destruição de um vilarejo rural por uma tropa de soldados alemães, auxiliados por aterrorizados bielo-russos que vestem trajes nazistas; e a incrível seqüência da vaca (melhor não falar mais nada sobre ela, e deixar que você assista com seus próprios olhos).

Além delas, atente para a engenhosidade do polêmico final, em que Florya empunha um rifle e atira repetidamente contra um retrato de Hitler, que bóia em uma poça d’água. Em paralelo, a montagem arrojada contrapõe imagens reais da II Guerra Mundial, rodando ao contrário. Enquanto o rapaz dispara contra a imagem do ditador, o próprio rosto dele aparece refletido na água, misturando-se à face do líder nazista. Klimov parece querer dizer que os dois homens, quando dominados pela fúria, tornam-se perigosamente idênticos, porque se despem de todos os traços de humanidade. “Vá e Veja” (o título é uma citação do Livro do Apocalipse, e funciona também como um adequado apelo ao espectador mais céticos) nunca teve grande repercussão no mundo ocidental, mas foi visto pelas pessoas certas e ecoou fortemente dentro da filmografia de Hollywood sobre a guerra – o argumento de “Império do Sol” e o final de “A Lista de Schindler”, com a ficção fundindo-se à realidade, foram inspirados diretamente pela obra-prima russa.

A Lume Filmes lançou o longa-metragem no Brasil com boa qualidade de áudio (Dolby Digital 2.0) e imagem com enquadramento original preservado (ou seja, com aspecto 1.37:1). O único extra digno de nota é um texto assinado pelo ator Sean Penn.

– Vá e Veja ((Idi i Smotri, URSS, 1985)
Direção: Elem Klimov
Elenco: Alexei Kravchenko, Olga Mironova, Liubomiras Lauciavicius, Vladas Bagdonas
Duração: 142 minutos

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