Valente

14/07/2012 | Categoria: Críticas

Aventura da princesa ruiva que não deseja se casar é o primeiro filme “comum” da Pixar e, claro, decepciona quem se acostumou a esperar o melhor do estúdio

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Um dia tinha que acontecer. Durante quase três décadas a partir de 1986 (ano da fundação), os funcionários da Pixar celebraram o mérito de trabalhar no único grande estúdio cinematográfico do mundo que jamais havia lançado um filme ruim. Nesse intervalo de tempo, a empresa ajudou a criar e expandir os níveis criativos da animação feita em computador a patamares talvez nunca imaginados. No processo, “engoliu” a gigante patroa Disney, foi coletivamente homenageada pelo respeitado Festival de Veneza (a única vez que um estúdio inteiro foi premiado num evento tão prestigioso) e lançou um punhado de obras-primas do naipe de “Os Incríveis”, “Ratatouille” e a série “Toy Story”. Já “Valente” (Brave, EUA, 2012) consiste no primeiro lançamento em longa-metragem da empresa ao qual é possível associar adjetivos como irregular, decepcionante e, o pior de todos, comum.

Antes de explicar esse vaticínio, vale a pena relativizá-lo em dois aspectos. Em primeiro lugar, “Valente” não é exatamente um filme ruim. Para os parâmetros da Pixar, aí sim, a decepção fica patente. Desse estúdio a gente se acostumou a um padrão altíssimo de qualidade. Em segundo lugar, há quem defenda que os filmes da franquia “Carros” são inferiores a “Valente”. Eu discordo. Acho que os filmes de 2006 e 2011 não estão no mesmo nível de obra-prima de “Procurando Nemo”, “Monstros S/A” e outros citados no parágrafo anterior. No entanto, ambos possuem personagens carismáticos, trama coesas e existem num universo cuidadosamente construído, em que cada objeto ou ser, por mais insignificante que seja, tem uma história pré-existente e obedece a uma lógica interna sólida. E é justamente nesse último tópico que se concentram as maiores decepções de “Valente”.

Ambientado na Escócia do século X, o longa tem como protagonista a princesa Merida. Sob uma vasta cabeleira ruiva, a moça está prestes a chegar à idade adulta e deve se casar, como manda a tradição, com um príncipe. Só que ela não tem nenhum interesse em romance. De fato, sua rejeição à idéia é tão grande que decide fazer um trato com uma bruxa para evitar o casamento. O acordo dá errado, e um feitiço desastrado termina por ameaçar a vida da opressora mãe da adolescente. Como se vê, o enredo, desenvolvido ao longo de nove anos (a roteirista e diretora Brenda Chapman foi contratada em 2003 para desenvolver o projeto da primeira heroína feminina da Pixar), aposta numa estrutura fabular tradicional, mais afeita aos filmes conservadores da Disney do que às tramas ousadas da própria Pixar.

O primeiro problema está no excesso de idéias derivativas e pouco originais. A noção de uma heroína adolescente obrigada a se casar sem amor é repetitiva, pouco original e domina vários filmes cronologicamente muito próximos a “Valente” – apenas para citar duas produções enormes distribuídas pela própria Disney, os megasucessos “Aladdin” (1992) e “Alice no País das Maravilhas” (2010). A segunda parte da trama, que ocorre após o citado feitiço, também parte de um conceito narrativo e visual retirado de um filme recente da própria Disney: “Irmão Urso” (2003). Finalmente, toda a ambientação visual do longa-metragem traz resquícios de mais dois filmes lançados em 2010: “Como Treinar Seu Dragão” e “Enrolados” – os guerreiros bárbaros escoceses são muito parecidos os vikings e piratas desses filmes, os cenários naturais e até mesmo os figurinos usados pelas mulheres têm semelhanças inquestionáveis. “Valente” é o primeiro filme da Pixar cuja trama parece uma colcha de retalhos de outros filmes, e cujo visual não causa grande impressão positiva.

O segundo e mais grave problema está nas pontas soltas do roteiro. Esse problema pode ser sintetizado pela introdução de um Deus ex machina na trama: a bruxa que dá a Merida a porção mágica causadora do feitiço que dispara a trama. Na área da criação narrativa, o Deus ex machina (expressão latina que significa “Deus surgido da máquina”) é um artifício em que um evento ou personagem inesperado/improvável é inserido na trama, pelo roteirista, para resolver ou provocar um evento fundamental para o desenrolar da trama. O Deus ex machina desafia a lógica interna da trama e, por causa disso, costuma ser evitado por roteiristas com a mesma intensidade com que vampiros odeiam alho. Um escritor de respeito nunca usa esse recurso.

Nesse ponto, é importante lembrar que outro filme recente da Pixar já havia utilizado essa ferramenta narrativa indesejável: “Toy Story 3” (2010), na cena em que os bonecos são salvos da incineração pelos personagens mais improváveis que se pode imaginar. Naquele filme, porém, a introdução do Deus ex machina ocorria já bem perto do final, quando os espectadores estavam irremediavelmente seduzidos pela trama e eram capazes de perdoar qualquer deslize narrativo – sem falar que a própria personificação desse “Deus surgido da máquina” era uma piada muito bem bolada que servia de alívio cômico após uma seqüência tensa (e intensa!).

Em “Valente”, porém, a bruxa cria o ponto de virada que liga o primeiro e o segundo ato. A velha proporciona a Merida a oportunidade para mudar o futuro cruel que o destino parece lhe reservar. A aparição da bruxa impulsiona a trama em direção ao conflito, concretizado após o feitiço amaldiçoar a mãe da heroína. Nada haveria de errado com isso, se a existência da bruxa obedecesse naturalmente à lógica interna estabelecida pelo filme. Mas ela não obedece. A feiticeira sequer poderia ser categorizada como o vilão da história. De fato, a bruxa não é um personagem. Ela aparece em determinado ponto do enredo para cumprir uma exigência dramatúrgica do roteiro (alguma coisa PRECISA pôr a heroína em maus lençóis, e os roteiristas devem ter quebrado a cabeça para imaginar algo, até que decidiram por um feitiço… mas era preciso que houvesse uma bruxa para que pudesse acontecer um feitiço, ora bolas!) e desaparece para não retornar. Nada sabemos sobre as motivações ou desejos da bruxa, porque – repito – ela não é um personagem. Ela entra em cena, faz o que o roteirista precisa para que o enredo continue se desenrolando, e sai. Como uma laranja depositada num cesto de maçãs apenas para fazer volume, e depois retirada rapidamente dali porque não se encaixa organicamente em seu entorno. Deus ex machina.

Incomoda, também, a caracterização convencional dos personagens secundários, algo que a Pixar sempre fez muito bem. A mãe de Merida aparece como uma tirana, mais preocupada em manter as aparências da família do que com a felicidade da filha. O pai, bonachão e farrista, é uma figura apagada que não consegue perceber o drama da filha, ou se mostra incapaz de trocar argumentos sensatos com a mulher – vale a pena mencionar que os mesmos clichês na caracterização desses personagens podem ser encontrados em “Alice” (2010) ou “A Noiva Cadáver” (2004), mais um filme sobre um casamento indesejado. Mães castradoras e pais lenientes são recorrentes em enredos desse tipo. Os irmãos dela apenas fazem o contraponto cômico (estão ali para provocar sorrisos e aliviar a tensão). Os guerreiros bárbaros não passam de coadjuvantes sem expressão, incluindo aí os três pretendentes de Merida, que mal aparecem. Fraco.

No meio disso tudo, “Valente” ainda sofre com pequenas oscilações no tom, problema particularmente grave para a parcela infantil do público. Há momentos em que o filme se torna realmente sombrio (o encontro com a bruxa, o primeiro confronto com o urso negro), e isso pode incomodar os pequenos. Algumas piadas típicas de humor pastelão – uma fila de guerreiros com a bunda de fora – sobressaem na narrativa como sangue na neve. Vários trechos (inclusive a introdução) são longos demais sem que nada dramaticamente relevante ocorra. Talvez o fato de a diretora original Brenda Chapman ter sido substituída no meio das filmagens, quando o longa foi reescrito e teve boa parte refeita, seja uma explicação para todos os problemas mencionados, mas nada disso pode ser usado como desculpa para justificar a irregularidade de um filme. Nem mesmo da Pixar.

Há, claro, os pontos positivos. A bela metáfora visual dos cabelos revoltos para o estado de espírito livre da protagonista é o melhor deles – e a brilhante cena em que esta, aprisionada dentro de uma túnica com gorro para a primeira aparição pública diante de seus pretendentes, teima em deixar aparecer pelo menos uma mecha ruiva, sendo repetidamente contida pela mãe, oferece uma demonstração clara do quão belo e evocativo o filme poderia ter sido. Há, ainda, um vibrante terceiro ato e uma conclusão verdadeiramente tocante (ainda que previsível) para o conflito vivido pela heroína. As imponentes paisagens naturais da Escócia, com a luz do sol lutando para penetrar as grossas nuvens de neblina em meio a paredões de rocha e árvores frondosas, são recriadas com a competência habitual pelo pessoal da equipe técnica da Pixar. Muito pouco para um estúdio de quem a gente sempre espera tanto.

– Valente (Brave, EUA, 2012)
Direção: Mark Andrews e Brenda Chapman
Animação
Duração: 93 minutos

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