Valente

06/03/2008 | Categoria: Críticas

Filme de vingança de Neil Jordan tem texto elegante e explora a persona cinematográfica de Foster de maneira bastante inteligente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Um dos aspectos da vida nas grandes cidades que mais tem fornecido material para reflexão de bons (e maus) cineastas é a violência urbana. Algumas das obras que pertencem ao gênero policial funcionam como verdadeiras câmaras de eco do inconsciente coletivo. Dentro deste filão específico, encontra-se um subgênero que tem gerado muita ressonância na platéia, e também muita polêmica: o filme de vingança, em que cidadãos comuns submetidos a grandes tragédias pessoais se transformam em justiceiros, que acabam operando, pelo menos na ficção, a faxina no submundo do crime que o poder público sempre fracassa em realizar nas grandes cidades.

Este filão marcou profundamente a carreira de atores como Charles Bronson, cuja série “Desejo de Matar” (cinco filmes) permanece como a mais conhecida obra a saciar a sanha de vingança dos cidadãos comuns contra desordeiros em geral. É a esta subseção do gênero que pertence “Valente” (The Brave One, EUA/Austrália, 2007), thriller que carrega a assinatura de dois profissionais sempre interessantes, o diretor Neil Jordan (“Nó na Garganta”) e a atriz/produtora Jodie Foster (Oscars por “O Silêncio dos Inocentes” e “Acusados”). Melodrama realizado de forma competente, o filme não tenta extrapolar as fronteiras do gênero, mas tem texto elegante e explora a persona cinematográfica de Foster de maneira bastante inteligente.

Uma observação pertinente sobre o gênero policial diz respeito ao interesse crescente dos cineastas que militam neste tipo de filme sobre dramas relacionados à paranóia da violência urbana, com personagens demonstram insegurança e sentem medo de circular pelas grandes cidades. Neste sentido, pode ser curioso – e extremamente válido – traçar um paralelo entre “Valente” e o brasileiro “Tropa de Elite”, filmado no mesmo ano. Ambos são trabalhos que provocam catarses emocionais, obras que aproveitam o status ficcional para exorcizar a angústia, a insegurança, a raiva do cidadão comum. Os dois filmes possuem antepassados: além da já citada série com Charles Bronson, obras como “Um Dia de Fúria” (1993), de Joel Schumacher.

A história, infelizmente, é acometida de alguns clichês. Radialista famosa e de bem com a vida (Foster) sofre ataque de uma gangue no Central Park (mesmo trecho do parque onde foi filmado outro bom thriller, “Parceiros da Noite”, de William Friedkin). Ela fica ferida com gravidade, permanece em coma por três semanas, e descobre que o namorado (Naveen Andrews, o iraquiano de “Lost”) não sobreviveu à pancadaria. Tomada de pavor, ela compra uma pistola de forma ilegal e descobre uma maneira de usá-la ao presenciar um ato de violência numa loja de conveniência. A partir daí, vai se transformando numa justiceira noturna, um “fantasma” que os jornais não cansam de celebrar, para desgosto dela mesma.

Erica Bain age por impulso, mas fica horrorizada com os próprios atos, que não consegue aceitar de forma racional (“É difícil aceitar que há um estranho dentro de você mesmo, um estranho que tem seus braços, suas pernas, seus olhos”). Em paralelo, ela faz amizade com um detetive esperto e insone (Terrence Howard, de “Crash”), que compartilha com ela algumas confidências. Não é difícil imaginar onde vai dar a amizade entre os dois – o personagem do detetive emocionalmente próximo ao protagonista também existe na série “Desejo de Matar” e em quase todos os chamados filmes de vingança. Trata-se de um arquétipo que “Valente” abraça sem constrangimentos. Há outros pequenos clichês, como a auto-descoberta da personagem dentro de uma loja de conveniência. Não é algo que chega a ameaçar a credibilidade do filme.

Um dos aspectos mais interessantes de “Valente” é o modo como Neil Jordan utiliza cada uma das ações violentas de Erica Bain para ilustrar diferentes aspectos da violência contra a mulher nas metrópoles. Jordan também aproveita a própria persona cinematográfica projetada por Jodie Foster, em filmes como “Acusados” (em que foi vítima de estupro) e “Taxi Driver” (prostituta-mirim), para criar um inteligente diálogo intertextual entre a personagem e a atriz. Este é um dos aspectos mais originais do filme. Além disso, o diretor usa a escalação de atores para reforçar, no subtexto, o modo como a violência urbana atinge a todos, independente de raça, gênero ou credo – o policial que investiga o caso é negro, a protagonista é mulher, o noivo dela tem descendência árabe, e por aí afora.

Como se hábito, Jordan extrai ótimos desempenhos de seus personagens, em particular de Foster e Howard, que demonstram ótima química e agregam uma dimensão suplementar às muitas cenas de diálogos que dividem, tornando as conversas repletas de subtexto com o uso correto das expressões corporais e faciais para “conversar” numa dimensão além das palavras. Por outro lado, o cineasta deixa escapar um final não apenas polêmico e discutível do ponto de vista moral (por causa dos últimos minutos, “Valente” foi espinafrado pela maior parte da crítica norte-americana, sempre comportada), mas que – este sim, é o real problema – destoa do conjunto de valores éticos que norteou as ações do personagem do policial durante todo o longa-metragem.

O DVD da Warner não contém extras. A imagem mantém o enquadramento correto (widescreen anamórfico). O áudio é de boa qualidade (Dolby Digital 5.1).

– Valente (The Brave One, EUA/Austrália, 2007)
Direção: Neil Jordan
Elenco: Jodie Foster, Terrence Howard, Nicky Katt, Naveen Andrews
Duração: 119 minutos

| Mais


Deixar comentário