Van Helsing

02/11/2004 | Categoria: Críticas

Encontro de Drácula, Frankenstein e lobisomens é aventura alucinada e cheia de efeitos digitais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Um filme B de US$ 150 milhões. Esse era o objetivo declarado do cineasta Stephen Sommers ao iniciar o projeto de “Van Helsing – O Caçador de Monstros” (Van Helsing, EUA, 2004), para a Universal. Para isso, Sommers decidiu amarrar, num mesmo roteiro, os três monstros mais lendários desse tipo de filme – o conde Drácula, Frankenstein e lobisomens. O resultado é exatamente o tipo de trabalho que poderia se esperar do diretor da franquia “A Múmia”: um filme hiperacelerado, com ênfase absoluta nos efeitos visuais e enredo beirando o ridículo.

“Van Helsing” começa com um flashback em preto-e-branco, que põe o espectador diretamente dentro da ação, sem pausa para respirar. Estamos na Transilvânia, no século XIX, no castelo do Dr. Frankenstein. Os habitantes de uma vila nas imediações estão arrombando os portões do castelo com o objetivo de incendiá-lo e impedir as experiências do médico, um conhecido ladrão de túmulos. Eles não sabem que Frankenstein acaba de dar vida à sua infame criação, e nem desconfiam que há uma figura ainda mais maligna por trás da experiência: Drácula (Richard Roxburgh, o Duque de “Moulin Rouge”) em pessoa. De qualquer forma, conseguem matar o cientista e o monstro, antes do vampiro conseguir reagir.

Corta para Paris, um ano depois. O público é então apresentado a Abraham Van Helsing (Hugh Jackman, o Wolverine), um mercenário a serviço do Vaticano. Ele encontra-se em plena perseguição ao conhecido Mr. Hyde (de outro clássico da literatura de horror da época, o livro “O Médico e o Monstro”) e o captura durante uma batalha repleta de efeitos visuais, no topo da catedral de Notre Dame. Depois, recebe da Igreja Católica a missão de ir até a Romênia para derrotar o conde Drácula, atualmente perseguindo os últimos representantes de uma linhagem de nobres romenos.

Não existe espaço para respirar em “Van Helsing”. O filme é longo – 132 minutos é uma duração um pouco excessiva para esse tipo de aventura – e possui poucas cenas de diálogos. Levando-se em conta que os adolescentes formam o público que o cineasta Stephen Sommers deseja atingir, a decisão parece compreensível. Mas é ela a responsável pelo fracasso da produção, pois dá ao filme um ritmo alucinado, uma sucessão interminável de cenas de ação repletas de efeitos digitais, que cansa o espectador. Além disso, o roteiro possui mais furos do que um queijo suíço.

A melhor de todas as seqüências talvez seja aquela em que as três noivas de Drácula atacam um vilarejo, tentando capturar a bela Anna Valerious (Kate Beckinsale, que curiosamente interpretou uma guerreira vampira no recente “Anjos da Noite”). O vôo das noivas vampiras é ótimo, e o clima gelado da vila empresta ao filme uma atmosfera mais tensa, que lembra um pouco o clássico “A Dança dos Vampiros”, de Roman Polanski. É melhor até que o equivocado confronto final entre herói, vilão e o Tarzan. Não entendeu? Então tente assistir e não cair na gargalhada, tamanha a falta de lógica da situação.

“Van Helsing” é catálogo de luxo de efeitos visuais, reunindo tudo o que há de mais moderno nas recentes técnicas de computação gráfica para cinema. Pena que não iguale nenhum dos filmes que o inspirou: criaturas monstruosas (o Mr. Hyde parece ter saído dos sets de “Hulk”, embora seja mal feito), interação entre seres digitais e atores de carne e osso (a inspiração óbvia é a série “O Senhor dos Anéis”, embora esse aqui não chegue aos pés) e maquiagem (o Frankenstein lembra um pouco a versão futurista da caveira Eddie, símbolo da banda de heavy metal Iron Maiden).

Tudo isso faz do filme uma montanha-russa de apelo apenas para espectadores adolescentes. Já os fãs dos filmes B da Universal vão ficar horrorizados (sem trocadilho) com a apresentação rasa, histriônica e exagerada de três grandes ícones do cinema de horror. O Drácula de Richard Roxburgh é afetado e pouco convincente, o lobisomem não passa do papel de cão de guarda do vampiro e o Frankenstein jamais convence como criatura solitária e atormentada, falando (ou melhor, gritando) o tempo todo. O diretor também não parece interessado em desenvolver os personagens de Van Helsing e Anne Valerious, e tenta engatar um romance que não funciona, pois a dupla nunca fica sozinha em qualquer situação que possa despertar interesse amoroso.

A mitologia dos personagens clássicos da Universal, apesar de mantida (balas de prata, alho, estacas no coração), é relegada a um papel de mero figurante na trama. Até a trilha sonora é insossa e derivativa, calcada na combinação de trombetas com percussão criada por Howard Shore para a trilogia de Peter Jackson. A rigor, “Van Helsing” não é um filme de terror e não pretende meter medo em ninguém; se for visto como uma aventura inconseqüente com toques de comédia (o herói tem o tradicional ajudante cômico, um monge medroso e mulherengo), pode até ser passável. Mas não tem cacife para ficar na memória da platéia por mais de quinze minutos.

– Van Helsing – O Caçador de Monstros (Van Helsing, EUA, 2004)
Direção: Stephen Sommers
Elenco: Hugh Jackman, Kate Beckinsale, Richard Roxburgh, David Wenhan
Duração: 132 minutos

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