Vanilla Sky

01/10/2003 | Categoria: Críticas

Refilmagem de suspense espanhol funciona como compêndio de cultura pop, mas dilui o original

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Pouco depois das filmagens de “Missão Impossível 2”, em 1999, Tom Cruise começou a procurar um roteiro mais denso para transformar em filme. Ele não queria uma trama de ação desenfreada, como a produção anterior. Numa tarde, assistiu ao suspense psicológico espanhol “Abre los Ojos” (no Brasil, Preso na Escuridão) e ficou impressionado. Cruise levou dois anos para refilmar a trama. O resultado, “Vanilla Sky” (EUA, 2001,888), é um filme que celebra a cultura pop e, ao mesmo tempo, trava uma interessante discussão sobre a verdadeira natureza da realidade.

Em português, o título deveria ser “Céu de Baunilha”, referência à paisagem de um quadro de Monet que o protagonista guarda no quarto do apê transado que possui, em Nova Iorque. O leitor atento deve estar pensando na quantidade de dinheiro que o sujeito deve ter no banco, para poder guardar um Monet em casa. Dinheiro, aliás, é a chave do enredo. Cruise interpreta David, um playboy bonitão que herdou um império editorial e vive chegando atrasado no emprego, depois de farras com belas mulheres. Ele se envolve com duas beldades, a ciumenta Julie (Cameron Diaz)e a misteriosa Sofia (Penélope Cruz). É o clássico triângulo amoroso: a primeira é apaixonada por ele, que não quer nada com ela além de cama, mas se apaixona pela espanhola.

Aí vem a reviravolta. Desprezada, Julie revela uma faceta homicida e envolve o galã num acidente de carro que mantém David em coma por três semanas e o deixa com o rosto desfigurado. É o inferno para um sujeito vaidoso, que nasceu em berço esplêndido e não conhece a dor da rejeição – exatamente aquilo que vai experimentar. A paquera com Sofia vira paixão avassaladora, mas não vai em frente, e o ex-belo garotão entra numa paranóia de delírios conspiratórios cada vez mais tensa e complicada.

”Vanilla Sky” é bacana, mas a faceta pop acaba diluindo a força do original espanhol. A segunda produção do diretor Alejandro Amenábar era pobre de recursos (César, o milionário de “Abre los Ojos”, dirigia um Fusca!), mas tinha um diferencial: transpirava criatividade. Assim como o subestimado “Vidas em Jogo”, de David Fincher, enfocava o mundo artificial e vazio dos novos ricos e usava a trama de suspense para discutir questões como religião, morte e o conceito de realidade. “Abre los Ojos” era atrevido e não tinha medo de ser politicamente incorreto, especialmente ao apresentar como protagonista um sujeito narcisista, arrogante e egoísta até nos momentos mais tristes.

A refilmagem americana, por sua vez, prova que a chave dos grandes filmes está na sutileza, nos pequenos detalhes. O roteiro reescrito pelo competente cineasta Cameron Crowe (do ótimo drama “Quase Famosos”), repete praticamente cena por cena o enredo do suspense espanhol, e mesmo assim acaba ficando muito diferente. O problema é que Crowe suaviza demais os traços de canalhice do protagonista, tentando transformá-lo numa espécie de playboy amadurecido, na segunda metade da trama.

O final do filme, aliás, deveria servir de lição para Hollywood aprender como não se deve terminar um thriller. Ao contrário do original, que deixava várias linhas de raciocínio em aberto, Crowe preferiu esquecer os elementos de suspense, rechear as imagens de cores mornas e dar uma lição de moral ao protagonista (e ao espectador).É a velha mania de subestimar a inteligência da platéia. O novo roteiro transforma a complicada trama num bolo politicamente correto e entrega na boca do espectador.

Mesmo com esses vacilos, o enredo inteligente e cheio de reviravoltas garante a diversão, especialmente de quem não viu a produção espanhola. As referências visuais a capas de disco (Bob Dylan) e filmes famosos (“Jules e Jim”, “Acossados”) são uma contribuição bem sacada de Crowe ao enredo. A trilha sonora (com R.E.M. e Radiohead em momentos-chave e Paul McCartney numa boa canção original) também soa fresca e criativa. Já as atuações, especialmente o trabalho do casal ajuntado nos bastidores, Cruise e Cruz, estão empostadas e algo artificiais. Num filme sobre o mundo de plástico dos yuppies, porém, isso até que vem a calhar.

O DVD possui dois documentários de bastidores, uma entrevista com Tom Cruise, um comentário em áudio que reúne Crowe e a esposa dele, Nancy Wilson, que fez a trilha sonora, e mais uma conversa com Paul McCartney. Isso tudo vem com legendas em português, acompanhadas dos trailers e de uma galeria de fotos animada.

– Vanilla Sky (idem, EUA, 2001)
Direção: Cameron Crowe
Elenco: Tom Cruise, Penélope Cruz, Cameron Diaz, Kurt Russell
Duração: 137 minutos

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