Verão de Sam, O

13/09/2007 | Categoria: Críticas

Spike Lee pinta retrato vívido e consistente da Nova York dos anos 1970 em drama maravilhoso sobre preconceito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

“Há oito milhões de histórias na cidade nua. Esta é uma delas”. É com esta frase que o colunista (na vida real) Jimmy Breslin abre “O Verão de Sam” (Summer of Sam, EUA, 1999), perfeita crônica saudosista do que foi Nova York durante os anos 1970. A frase é roubada de um velho e bom longa-metragem de Jules Dassin, que por sua vez inspirou um seriado de TV popular nos anos 1950. Trata-se de um dos mais acessíveis trabalhos do engajado cineasta negro Spike Lee, e também um dos melhores de uma carreira cujo nível médio é bem alto. Através de um impecável trabalho de reconstrução histórica, Spike usa fatos reais como pano de fundo para reconstituir o verão de 1977, um dos mais singulares da cidade, e para contar uma história permeada por um tema que lhe marcou a carreira: o preconceito.

Tivesse sido vendido da forma correta, “O Verão de Sam” poderia ter se transformado no primeiro grande sucesso comercial da carreira de Spike Lee. Como espetáculo cinematográfico, é impecável: um grupo consistente de personagens vivos e sólidos, maravilhoso trabalho de revisão histórica, trilha sonora espetacular (Abba, The Who, Frank Sinatra), roteiro e montagem que valoriza o papo de rua como poucos cineastas conseguem fazer. Há uma energia palpável no trabalho, e um senso de coletivo que remete a outros trabalhos do diretor, como “Faça a Coisa Certa” – a noção de comunidade, aqui, é bem mais importante do que a de protagonista, muito embora toda a história gire em torno de apenas dois rapazes, Vinny (John Leguizamo) e Ritchie (Adrian Brody).

O primeiro é cabeleireiro e machista. Casado com a riquinha Dionna (Mira Sorvino), Vinny parece uma versão latina do personagem de John Travolta em “Os Embalos de Sábado à Noite”. Dança bem, reina na discoteca de segunda categoria do bairro, e exerce certa atração sexual nas meninas da redondeza. Vai para a cama com todas, mas a crença católica lhe enche de culpa pelas seguidas traições que impõe à mulher. Com ela não consegue ter prazer, porque foi educado para tratá-la como esposa, não como amante – ou seja, nada de sexo oral ou posições excêntricas na cama. Ele até percebe que Dionna o ama e quer levar uma vida mais selvagem, mas ao invés de lhe encorajar, isto lhe deixa pior ainda. Vinny não quer ser casado com uma mulher que tope fazer sexo anal ou coisas do gênero. Freud chamada isso “complexo da santa e da puta”.

Ritchie não tem nada a ver com o colega. É um punk recém-convertido, de cabeça aberta, está aprendendo a tocar guitarra e fatura uns trocados fazendo shows de strip tease para gays em um boteco de terceira. Namora a vagabunda da redondeza (Jennifer Esposito), e tem com ela uma relação extremamente bem resolvida. O problema é que os hábitos noturnos dos dois, bem como o penteado moicano muito doido, o afastam cada vez mais da comunidade italiana que vive no Brooklyn. Aliás, o retrato do bairro pintado pelo filme é sensacional: profundo, bem-humorado, colorido, multifacetado. Os personagens parecem ter vida própria fora da tela. Conversam, se movimentam e falam de uma maneira completamente natural e realista.

Lee acompanha esta comunidade durante o verão maluco de 1977. Aquela época, extraordinariamente singular, viu o nascimento simultâneo do punk e da discoteca (numa seqüência especialmente genial, Vinny e Dionna visitam os dois locais-símbolo dos movimentos, respectivamente o CBGB e o Studio 54), uma série de blackouts violentos seguidos de saques, brigas raciais, ondas de calor e até mesmo um assassino em série (o Sam do título, interpretado por Michael Badalucco em tomadas de enquadramentos propositalmente distorcidos), que deixa os vizinhos desconfiados de tudo e de todos. Não há personagens negros, mas Spike trabalha muito bem o tema do preconceito através dos personagens Ritchie e Ruby (a namorada piranha).

Em termos técnicos, é o melhor trabalho de Lee: dos figurinos à direção de arte, tudo é impecável, valorizado ainda mais pela belíssima fotografia em tons quentes de néon e concreto. A narrativa é fluida, coloquial e espontânea. Com tudo isso, fica a pergunta: como é que um filme tão bom não se transformou num sucesso? A resposta pode estar na forma equivocada como o estúdio vendeu o filme na mídia, tratando-o como se fosse um thriller sobre a caçada a um serial killer. Como está longe, muito longe de tal coisa, “O Verão de Sam” acabou renegado pela platéia. Uma pena, porque é cinema da mais alta qualidade.

O DVD da Europa é bem fraco. O filme aparece mutilado, com formato incorreto de imagem (fullscreen, cortado nas laterais) e áudio OK (Dolby Digital 5.1). Os extras são basicamente material oriundo do Eletronic Press Kit (EPK): entrevistas não editadas com o diretor e os atores, e filmagens de bastidores. Há legendas em português.

– O Verão de Sam (Summer of Sam, EUA, 1999)
Direção: Spike Lee
Elenco: John Leguizamo, Mira Sorvino, Adrien Brody, Jennifer Esposito
Duração: 142 minutos

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