Verão Violento

04/09/2007 | Categoria: Críticas

Segundo longa de Valerio Zurlini funciona como boa introdução ao universo amargurado do cineasta italiano

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Não são muitos os cinéfilos, mesmo os mais viajados, que já ouviram falar em Valerio Zurlini. Dono de uma carreira curta, o diretor italiano fez oito belos filmes, mas teve o azar de aparecer numa época em que o cinema de seu país de origem era dominado por gigantes. Trabalhando entre mestres como Fellini, Visconti e Antonioni, o chamado “poeta da melancolia” acabou colocado para escanteio, embora fosse cultuado por uma minoria de fãs fiéis. Durante anos, foi tido por uma parte da crítica como uma espécie de sub-Antonioni – um rótulo injusto que somente nos anos 1990, com a restauração dos filmes e o lançamento de edições caprichadas em DVD, acabou finalmente superado.

Segundo título dirigido por Zurlini, “Verão Violento” (Estate Violenta, Itália/França, 1959) é uma excelente introdução ao universo pessimista e amargurado do cineasta. Além de ser o primeiro filme realmente bom de Zurlini – o primeiro, “Quando o Amor é Mentira”, feito em 1954, não agradava ao diretor – funciona como perfeita introdução à temática predileta dele: uma investigação atenta dos amores impossíveis, fadados ao fracasso. Zurlini não se cansou em sublinhar, nas entrevistas, que a ele interessava analisar, através do cinema, o pós-amor – ou seja, aquilo que acontecia com dois amantes depois da fase de paixão ardente, quando a faísca gloriosa que une duas pessoas se apaga. De certo modo, os filmes de Zurlini tentam mostrar aquela parte da vida que a maioria dos filmes prefere descartar.

Zurlini encaixou a história de “Verão Violento” no esqueleto narrativo que mais apreciava: a história de uma paixão proscrita tendo, como pano de fundo, um evento histórico importante. É 1943, ano crucial para os italianos no século XX (o país foi invadido pelas tropas aliadas e começou a perder a guerra). Numa pequena cidade da costa mediterrânea, um grupo de jovens burgueses se diverte, de forma hedonista e quase histérica, sem se preocupar com a guerra que bate à porta, enquanto os soldados italianos suam sangue para defender as fronteiras do país. Um desses jovens é Carlo (Jean –Louis Trintignant), filho de um grande chefe fascista. Apolítico, farrista e namorador, Carlo perde a cabeça quando conhece Roberta (Eleonora Rossi Drago), jovem viúva de um oficial italiano. Mesmo repreendidos por amigos e parentes de ambos os lados, os dois se apaixonam perdidamente.

Ao focalizar um amor condenado por pressões sociais – os jovens solteiros, amigos de Carlo, não compreendem a paixão dele, da mesma forma que a família de Roberta não aceita a dela – o filme se aproxima bastante de um clássico melodrama contemporâneo: “Tudo que o Céu Permite” (1955), de Douglas Sirk. Ao contrário do filme feito em Hollywood, contudo, aqui não há espaço para esperança. O aspecto amargo da relação fadada ao fracasso é traduzido em imagens pela própria tonalidade cinza-ofuscante utilizada por Zurlini. Embora não demonstrasse ainda o olho privilegiado para enquadramentos, algo claro em filmes subseqüentes, Zurlini deixa evidente ser um excelente diretor de atores, extraindo interpretações vigorosas do novato Trintignant e da então diva Rossi Drago.

Interessante é, também, a maneira como a visão política de Zurlini se infiltra, de modo não exatamente sutil, no enredo. Comunista de carteirinha, e ainda por cima oriundo de uma rica família burguesa, Zurlini não perde a oportunidade de alfinetar a classe social de origem, mostrando os jovens ricos da cidade costeira como alienados, hedonistas, donos de um estilo de vida egocêntrico. Demonstrando mão firme, entretanto, o diretor não deixa que esse aspecto político se sobressaia à intimidade dos personagens. Em seqüências geniais, ele captura toda a dor dos amantes por não poder concretizar livremente a paixão incendiária.

Numa seqüência de tirar o fôlego, Zurlini filma o casal trocando olhares sofridos durante um blackout, em um circo, com a ajuda de uma lanterna. Mais à frente, na mesma noite, eles estão em uma festa e dançam com parceiros diferentes, mas não conseguem tirar os olhos um do outro, enquanto ao fundo ecoa uma clássica canção romântica chamada “Temptation”. Não há palavras, e nem é preciso – os olhos angustiados dos atores transmitem tudo. “Verão Violento” termina com uma impressionante seqüência de bombardeio em uma estação de trem, com uso extraordinário de efeitos tão especiais quanto o filme. Muito bom.

A edição especial, lançada no Brasil pela Versátil, tem excelente qualidade de áudio (Dolby Digital 2.0) e vídeo (fullscreen, ou tela cheia, que é o formato original). Os extras são muitos: cinco featurettes, um deles produzido no Brasil, com o crítico Alfredo Sternheim fazendo uma apresentação resumida da obra de Zurlini. Os outros quatro trazem membros da equipe (diretor assistente, compositor, atriz e colega cineasta), em quase 80 minutos de entrevistas legendadas em português.

– Verão Violento (Estate Violenta, Itália/França, 1959)
Diretor: Valerio Zurlini
Elenco: Eleonora Rossi Drago, Jean-Louis Trintignant, Raf Mattioli, Jacqueline Sassard
Duração: 103 minutos

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