Verdade Inconveniente, Uma

13/02/2007 | Categoria: Críticas

Palestra filmada de Al Gore é uma aula apocalíptica sobre os efeitos do aquecimento global

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“Uma Verdade Inconveniente” (An Inconvenient Truth, EUA, 2006) não é um filme comum. Talvez nem mesmo devesse ser chamado de filme, pois vai pouco além de uma palestra filmada – uma palestra envolvente, didática e de conteúdo explosivo, mas apenas uma palestra. Sua maior qualidade é compilar, em uma narrativa que pode ser aterrorizante para quem tem filhos ou uma expectativa de vida longa, uma série de dados e estudos que não deixam margens para dúvidas: o ser humano está sentado sobre uma bomba relógio, chamado aquecimento global, que não deve demorar muito a explodir.

O documentário transformou o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, na maior de todas as celebridades ambientais internacionais. Evidentemente, o homem não é cientista, mas soube aproveitar sua condição política, que faz a voz ser ouvida com atenção nos cantos mais remotos do planeta, para mandar um recado apocalíptico àqueles que não querem ou não sabem ouvir. “Uma Verdade Inconveniente” é, basicamente, uma versão em vídeo da famosa apresentação em PowerPoint que Gore ministrou mais de mil vezes, em cidades de todos os continentes, desde 2001, enumerando dados que mostram como a Terra pode implodir em uma série de catástrofes ambientes, se o comportamento destrutivo do ser humano não mudar logo.

A fim de criar uma escalada dramática que acrescenta suspense ao filme, o diretor Davis Guggenheim (egresso do seriado “24 Horas”) enxerta, de quando em quando, reflexões e memórias pessoais de Al Gore, incluindo cenas da dramática derrota nas eleições presidenciais de 2000, quando ele chegou a ser celebrado como novo presidente dos EUA, mas acabou perdendo o cargo devido a uma suspeitíssima recontagem de votos no estado da Flórida. São cenas que não acrescentam nada além de um ligeiro molho dramático, e parecem ter sido incluídas apenas para esticar a duração do filme até o tamanho médio de um longa-metragem.

De qualquer forma, não importa muito. O objetivo de “Uma Verdade Inconveniente” é chamar a atenção do maior número possível de pessoas para o problema do aquecimento global, e este objetivo é cumprido com eficiência máxima. Na verdade, uma pessoa minimamente informada sobre o assunto não vai ficar surpresa com nenhuma das informações bombásticas contidas no filme, pois não há rigorosamente nada inédito ali. Uma boa pesquisa no Google teria efeito semelhante. No entanto, não há como negar que há valor em “Uma Verdade Inconveniente” como material didático. É o tipo de filme cuja exibição em escolas deveria ser obrigatória.

Destrinchando gráficos complicados com linguagem simples e envolvente, e mesclando as informações com fotos e trechos de filmes, Al Gore realiza uma perfeita prévia do apocalipse. Segundo os dados do filme, a queima de combustíveis fósseis no planeta deverá ser responsável pelo crescimento do nível dos oceanos em aproximadamente seis metros, até o ano 2100. O Pólo Norte pode derreter por completo até lá. O resultado disso? Dezenas de cidades costeiras inundadas, 100 milhões de pessoas sem lar, secas e inundações devastadoras, tempestades tropicais e furacões arrasadores, fome em escala mundial.

O principal mérito de “Uma Verdade Inconveniente” foi chamar a atenção de uma parte importante da população mundial para o problema, sistematicamente minimizado por mestres do marketing que insistem em dizer que o homem nada tem a ver com o que anda acontecendo na superfície do plabeta. Nos EUA, 50 mil cópias do filme foram distribuídas em escolas primárias, e as filas nos cinemas o transformaram no terceiro documentário mais visto por lá. Al Gore, viajando pelo mundo todo numa megaturnê promocional que durou todo o ano de 2006, transformou “Uma Verdade Inconveniente” num importante fator de pressão sobre governos e indústrias poluidoras. Fatos como esse superam em muito qualquer demérito cinematográfico que “Uma Verdade Inconveniente” poderia ter.

O DVD lançado pela Paramount é simples. O filme é apresentado no formato original (widescreen anamórfico) e com som de qualidade (Dolby Digital 5.1). Entre os extras, há um making of, uma conversa com o diretor e com os produtores, um bate-papo informal com Al Gore e um clipe musical.

– Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth, EUA, 2006)
Direção: Davis Guggenheim
Documentário
Duração: 96 minutos

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