Verdade Nua

05/10/2006 | Categoria: Críticas

Atom Egoyan mostra segurança para conduzir uma trama noir labiríntica sobre pessoas deprimentes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Uma dupla de comediantes se separa, no auge de uma carreira milionária, devido a um escândalo provocado pela morte de uma camareira do hotel onde ambos estão hospedados. Vinte anos depois, uma jornalista que escreve um livro sobre a dupla começa a investigar o crime novamente, com a esperança de revelar a verdade jamais descoberta. Esta é a sinopse de “Verdade Nua” (Where the Truth Lies, EUA/Canadá/Inglaterra, 2005), filme do diretor Atom Egoyan, nascido no Egito e radicado no Canadá que rachou a crítica em dois, provocando elogios e críticas na mesma proporção.

Egoyan utiliza o esqueleto narrativo de um filme noir clássico para investigar, com lupa especialmente sensível para questões morais, a devassidão e o vazio na vida de certas celebridades. O filme tem muitas qualidades, e a principal delas é a segurança demonstrada pelo diretor (também roteirista, baseado em um romance escrito por Rupert Holmes) para conduzir uma narrativa labiríntica, que embaralha com perícia presente e passado, em duas histórias paralelas que se cruzam em diversos momentos.

Há outros elementos de destaque. Um deles é a esplêndida atuação uniforme do elenco, detalhe que confirma uma das qualidades de Egoyan, que é a direção de atores. No entanto, não há diretor que consiga extrair atuações convincentes quando os personagens não são bons – e os de “Verdade Nua” são, o que demonstra claramente os méritos também do roteiro. O texto consegue compor três personagens principais que são marcados, de formas diferentes, pelo mesmo acontecimento do passado. O crime nunca esclarecido deixou marcas profundas nestas pessoas, e o espectador sente a inevitabilidade de que as vidas do trio se cruzem. É algo que está além da vontade ou mesmo da compreensão de cada um.

Os dois comediantes são enfocados, corretamente, como as duas faces de uma mesma moeda. Lanny (Kevin Bacon) é rebelde, mulherengo, agressivo, está sempre forçando os limites do espetáculo ao vivo que apresentam; um showman por excelência. Vince (Colin Firth) gostaria de ter o mesmo espírito libertário, mas não consegue. É a personalidade pragmática dele que dá solidez à dupla; ele perfaz a âncora que não deixa o parceiro voar além do que pode, embora não esteja satisfeito com este papel e se sinta prisioneiro dele, encontrando refúgio apenas no consumo exagerado de barbitúricos.

Juntos, os dois são artistas talentosíssimos, engraçados até dizer chega; isoladamente, não passam de sujeitos decadentes, solitários e deprimidos, apesar de podres de ricos. Nem mesmo a ajuda humanitária que Vince presta a uma instituição de caridade lhe alivia o peso na alma. Ele é um homem amargurado. Ou melhor, ambos são, já que Lanny, sempre escondido atrás de óculos escuros enormes e usando uma máscara de arrogância injustificada, continua agindo como se fosse uma grande estrela do show business. No fundo, ele sabe que age como algo que não é. São dois homens deprimentes.

Egoyan filtra esses dramas humanos em uma típica trama de assassinato, em que nada é exatamente o que parece ser. Isto inclui também a jornalista Karen (Alison Lohman), contratada por uma editora para escrever uma biografia da dupla. Karen tem um motivo secreto, totalmente pessoal, para aceitar o trabalho. Ela poderia facilmente compilar histórias curiosas, redigir duas centenas de páginas laudatórias falando bem dos dois homens, embolsar uma bolada e ficar rica. Mas para ela, este não é um trabalho comum. Ela precisa saber como aconteceu aquele crime do passado. Precisa saber, mais do que precisa comer e respirar para viver. É um ato instintivo, e Karen não vai medir esforços para conseguir o objetivo.

“Verdade Nua” funciona como verdadeiro compêndio de fraquezas morais, como os melhores filmes noir das décadas de 1940 e 50. O filme está encharcado de sexo, mentiras, chantagem, manipulação emocional, sangue, bebida, drogas lícitas ou não. Não há a tradicional divisão entre heróis e vilões aqui, mas existe, sim, uma linha divisória invisível, que põe os personagens em dois espectros de comportamento: há os seres humanos cheios de vaidades e fraquezas, e outros que sabem como explorá-las. Não existem pessoas virtuosas aqui, o que aproxima “Verdade Nua” do também criticado – e também inspirado no noir – “Má Educação”, de Pedro Almodóvar.

Por outro lado, o tema do vazio moral parece ter vazado para fora da tela, pois o único pecado do longa-metragem é não conseguir alcançar um resultado mais elevado do que ser uma trama intrincada soberbamente montada. É bonito, bem conduzido, elegante e inteligente, conta uma história interessante, e tem grandes performances, especialmente de Alison Lohman – uma atriz completa, capaz de percorrer uma grande variedade de nuances de sentimentos sem jamais parecer falsa ou artificial – mas não causa qualquer tipo de ressonância moral na platéia. Ou seja, é diversão requintada, perfeita para cinéfilos antenados, e não muito mais do que isso.

– Verdade Nua (Where the Truth Lies, EUA/Canadá/Inglaterra, 2005)
Direção: Atom Egoyan
Elenco: Kevin Bacon, Colin Firth, Alison Lohman, Sonja Bennett
Duração: 107 minutos

| Mais


Deixar comentário