Vestida para Matar

15/06/2006 | Categoria: Críticas

Rigor formal do filme inspirado em “Psicose” rende algumas seqüências que são pura mágica cinematográfica

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Brian De Palma é um diretor de trajetória curiosa. Pouco lembrado pelo público, também não ocupa as posições mais altas na hierarquia dos grandes cineastas eleitos pela crítica mainstream, que escreve regularmente nos jornais. Há, no entanto, uma parcela de cinéfilos que o exaltam como um dos mais autorais e criativos manipuladores de imagens do cinema recente, pós-anos 1970. E “Vestida para Matar” (Dressed to Kill, EUA, 1980) é um dos filmes mais elogiados por essa turma de adoradores do cinema. O filme ocupa lugar de destaque na filmografia do diretor norte-americano.

Os cinéfilos que defendem De Palma fazem questão de observar que ele não é um mero imitador de Alfred Hitchcock, como boa parte da crítica mainstream defende. Sim, há diversos longas-metragens assinados pelo diretor com narrativas inspiradas no mestre inglês do suspense. Outros filmes tomam idéias emprestadas ou fazem referências (algumas sutis, outras explícitas) a seqüências específicas de obras hitchcockianas. “Vestida para Matar”, décimo-terceiro trabalho da filmografia de Brian De Palma, não foge a esta regra e recicla diversas idéias de “Psicose” (1960).

O cineasta deixa isto evidente já a partir da seqüência de abertura, que presta homenagem à famosíssima cena do chuveiro com Janet Leigh: uma mulher loira toma banho e é agarrada violentamente por um homem. Só que De Palma não é um mero imitador; ele usa a obra de Hitchcock como referência, mas produz algo original ao inserir elementos próprios. Observe, por exemplo, a sofisticação dos enquadramentos no corpo nu da atriz Angie Dickinson, que compõem um conjunto de imagens ousado e sensual, mas nunca vulgar. E veja, também, como o vapor gerado pela água quente contribui para dar à cena uma textura onírica que vai se confirmar a seguir, pois a seqüência é mesmo o sonho de um personagem.

Há outras referências a “Psicose” na trama de suspense que se segue. A principal delas é a troca abrupta de protagonista que ocorre após os primeiros 20 minutos de projeção. Até então, De Palma acompanha a trajetória de Kate Miller (Dickinson), uma rica e sexualmente frustrada balzaquiana. A mulher vai a uma consulta com o psiquiatra Robert Elliot (Michael Caine), flerta com um homem bonitão em um museu, dorme com ele. O público se afeiçoa a ela e imagina que vai acompanhá-la até o final da película. Ledo engano: Kate acaba assassinada dentro de um elevador, por uma estranha mulher loira que veste capa preta e óculos escuros.

A partir daí, a trama desloca o ponto de vista e acompanha a prostituta Liz Blake (Nancy Allen), única testemunha ocular do crime, que passa a ser perseguida pelo misterioso assassino. Neste ponto, aliás, reside uma diferença crucial entre a obra de Brian De Palma e os filmes de Alfred Hitchcock: o inglês jamais gostou de filmar histórias em que o protagonista precisa descobrir a identidade do criminoso. Já o norte-americano faz deste o leitmotiv de “Vestida para Matar”. Na verdade, De Palma mostra alguma influência de outro cineasta, este bem menos conhecido (mas igualmente apreciado por cinéfilos), que é o italiano Dario Argento. A rigor, “Vestida para Matar” tem todos os elementos de um autêntico giallo italiano, incluindo as luvas pretas, a navalha como arma mortal e uma surpresa chocante no final.

Com Argento, que lhe é contemporâneo, Brian De Palma compartilha uma paixão evidente pelo rigor formal na construção meticulosa de cenas de suspense crescente. “Vestida para Matar” contém um dos momentos mais sublimes, nesse sentido, de toda a obra do diretor: o flerte de Kate Miller com um desconhecido pelos corredores do museu. São mais de 10 minutos sem diálogos, mas repletos da música celestial de Pino Donnagio, em que o movimento dos personagens estica e suaviza a tensão – neste caso, sexual – a partir de olhares e movimentos de câmera coreografados com tanta fluidez que escondem a incrível complexidade. É um verdadeiro balé cinematográfico, um momento mágico de cinema puro e genuíno que, sozinho, já vale o filme.

Como se não bastasse, chama a atenção o olhar apurado de Brian de Palma para as questões de sexualidade feminina, um tema especialmente importante na época da produção do filme, quando o feminismo chegava ao ápice. Na cena de abertura, Angie Dickinson surpreende a platéia e quebra um tabu gigantesco ao simular uma masturbação extremamente realista. Depois, ainda vai para a cama com um desconhecido. Mas estamos no terreno de Hollywood, e por causa desta ousadia sexual Kate Miller é duplamente punida – pega sífilis e morre. O diretor monta a seqüência de acontecimentos de modo que o recado fique bastante evidente.

A montagem, aliás, é um terreno em que Brian De Palma sempre ousou, e aqui a história não é diferente. Se o clássico estilo “invisível” é utilizado para a fenomenal cena do flerte no museu, o diretor mostra suas garras logo depois e inclui no repertório uma seqüência excitante de split screen, quando a tela é dividida e mostra, ao mesmo tempo, dois diálogos diferentes de personagens falando ao telefone. De Palma monta a cena com timing tão perfeito que as vozes nunca são sobrepostas, e o espectador entende perfeitamente o que os dois estão dizendo. Melhor ainda: as falas são ambíguas ao ponto de darem a impressão de que um personagem realmente está falando com o outro.

Para completar, observe também a simetria perfeita da última cena, que também se passa em um banheiro, com a seqüência de abertura do longa-metragem. Tudo isso junto mostra o motivo da adoração que uma parcela de cinéfilos demonstra para com o trabalho do cineasta norte-americano: ele é um artesão, um homem que conhece como poucos as sutilezas das peças que compõem a arte cinematográfica, unindo música, montagem, figurino, direção de arte e fotografia com extrema competência. Se a história não fosse tão comum (e fácil de antecipar), seria uma obra-prima.

O DVD da Fox não contém extras, com a exceção de um trailer, mas apresenta uma cópia muito boa do filme. O enquadramento original foi preservado (widescreen 2.35:1 anamórfico), o que é muito importante em um diretor visualmente cuidadoso como De Palma. O áudio está muito bom (Dolby Digital 5.1) e há uma trilha em português (DD 2.0) para quem preferir assim.

– Vestida para Matar (Dressed to Kill, EUA, 1980)
Diretor: Brian De Palma
Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, Nancy Allen, Keith Gordon
Duração: 105 minutos

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