Vestido, O

25/11/2004 | Categoria: Críticas

Direção teatral prejudica atores e transforma história interessante em filme pesado e fraco

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

“O Vestido” (Brasil, 2004) é o tipo de filme que um brasileiro torce, até o último minuto de projeção, para dar certo. O enredo, de autoria do diretor Paulo Thiago e do escritor e dramaturgo Haroldo Marinho Barbosa, é inspirado num dos maiores poetas que o país já produziu, Carlos Drummond de Andrade. Um elenco experiente o defende. E, mesmo assim, o filme afunda em decisões equivocadas de direção, deixando um gosto amargo na platéia por desperdiçar uma boa idéia de forma lamentável.

O mais gritante problema de “O Vestido” está na direção de atores. Como qualquer estudante da Sétima Arte sabe, existe uma diferença crucial entre as interpretações no teatro e no cinema. No palco, com a platéia longe, os atores precisam falar mais alto e mais pausadamente, utilizando expressões corporais exageradas. Já no cinema, o espectador vira uma presença invisível ao lado dos atores, o que exige interpretações menos exageradas, mais naturalistas. Os atores de “O Vestido”, porém, parecem interpretar no teatro.

Como não estou falando de um elenco iniciante, fica claro que o problema está na direção. O único membro do elenco que se salva do problema é Daniel Dantas, não por acaso o mais experiente do quarteto de protagonistas; o personagem dele, Fausto, é o único que parece estar realmente vivendo – e não interpretando – as cenas do longa-metragem. Também é o único que possui mais complexidade, o que o transforma no centro gravitacional de “O Vestido”. Pena que Fausto apareça relativamente pouco na trama.

Bárbara (Gabriela Duarte) é a verdadeira protagonista do melodrama, embora só apareça depois de 20 minutos de projeção. Ela é a atriz da capital que namora o já citado Fausto e vai visitá-lo na pequena cidade do interior onde vivem Ulisses (Leonardo Vieira) e Ângela (Ana Beatriz Nogueira). Eles formam um casal cheio de problemas de relacionamento, que passa por uma crise especialmente forte, ocasionada pelos problemas financeiros do marido. Bárbara, o arquétipo da mulher liberada da capital, vai se intrometer nessa relação.

Há, nessa trama, um certo cheiro de coisa velha, reforçada pelo tom solene e excessivamente correto dos diálogos. Eles são, de longe, a pior coisa em “O Vestido”. Longos, desiguais, desperdiçando boas idéias – que incluem uma reviravolta inesperada e inteligente mais para o final do filme –, os diálogos conseguem constranger a platéia por se transformarem, ao longo da projeção, em uma peça artificial. A direção de arte também não é especialmente cuidadosa ao realizar a reconstituição de época (o filme se passa em algum momento dos anos 1950).

Tudo isso é uma pena, já que o enredo de “O Vestido”, apesar de não ser especialmente criativo, poderia ter rendido uma espécie diferente de “filme de estrada”, que daria um contraponto interessante à latinidade de “Diários de Motocicleta”, o filme de Walter Salles que passa nos cinemas ao mesmo tempo. O diagnóstico final, infelizmente, é que “O Vestido” não está sintonizado com a sua época. Pertence a um passado do cinema brasileiro que ninguém está especialmente interessado em desenterrar.

– O Vestido (Brasil, 2004)
Direção: Paulo Thiago
Elenco: Gabriela Duarte, Leonardo Vieira, Ana Beatriz Nogueira, Daniel Dantas
Duração: 121 minutos

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