Viagem a Darjeeling

26/03/2008 | Categoria: Críticas

Wes Anderson permanece dentro do mesmo universo ficcional que marca sua obra, e é visualmente lindo, mas oco e repetitivo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

O grande perigo que correm os diretores estilistas – aqueles que empregam a maior parte da energia criativa no estilo visual dos filmes que dirigem – é o de se tornarem repetitivos ou enfadonhos. Esta afirmação tem peso ainda maior para cineastas que trabalham com um registro não-realista, de cunho pessoal e intimista, procurando dotar seu trabalho de elementos surreais ou oníricos. É o caso de Wes Anderson, roteirista e diretor do Texas (EUA) que sempre demonstrou talento especial para trabalhar no limiar entre a comédia e o drama, mas cujo pendor por direções de arte excessivamente elaboradas tem tirado a força das histórias que conta, quase sempre variações de um mesmo tema – acertos de contas entre pais e filhos.

“Viagem a Darjeeling” (The Darjeeling Limited, EUA, 2007), quinto longa-metragem da carreira de Anderson, apresenta um curioso paradoxo. Trata-se, claramente, de um filme de autor. Não são precisos mais do que alguns segundos de projeção para que o espectador atento identifique as impressões digitais do cineasta: paleta de cores fortes (com predomínio de amarelo, vermelho e azul), grande quantidade de objetos cênicos de caráter atemporal e/ou exótico (as locações estão sempre lotadas de coisas), música diegética (observe como todas as canções ouvidas no longa são executadas por iPod que permanece dentro do quadro), movimentos lentos e elegantes de câmera, personagens narcotizados ou com dificuldade de expressar emoções. Desde o primeiro trabalho, Wes Anderson construiu um universo ficcional muito particular, e permanece firmemente atado a ele. Ou seja, ele é um dos raros diretores que costumamos chamar de autor.

O problema, contudo, é que Anderson não parece ter nada de novo a dizer além daquilo que já disse, principalmente em “Três é Demais” (1999) e “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001), os dois melhores trabalhos da carreira. Ambos giram em torno de pais e filhos com problemas de relacionamento. Diferem, essencialmente, no ponto de vista – o primeiro é contado do ângulo do mais jovem, bem ao contrário do segundo, que graças a um orçamento generoso capricha mais na direção de arte. “Viagem a Darjeeling” transporta um conto bem parecido, sobre uma família disfuncional, para a Índia. Como a Nova York exibida em “Tenenbaums”, porém, não é a Índia real, mas a Índia que povoa os sonhos de Wes Anderson: multicolorida, exótica, povoada por táxis vermelhos e motoristas de turbante.

Há muito o que observar no filme. A locação principal é um trem semelhante ao lendário Expresso do Oriente – um trabalho portentoso de decoração, mais ou menos como era o submarino de “A Vida Marinha”, filme anterior de Anderson. O problema não está no trem, ou nas canções que sublinham os sentimentos dos personagens, ou mesmo nos trechos musicais retirados da obra de Satyajit Ray, o cineasta indiano mais conhecido no Ocidente. A música de “Viagem a Darjeeling” é muito bonita e funcional. O problema está nos personagens sedados, narcotizados, sonâmbulos, que parecem cópias carbono retiradas de roteiros não aproveitados pelo diretor. Um filme sem bons personagens é um filme sem história. E um filme sem história pode ser lindo, mas não tem recheio. É oco.

Jack (Jason Schwartzman, co-roteirista), Peter (Adrian Brody) e Francis (Owen Wilson) são três irmãos que não se falam há um ano, desde o funeral do pai. Eles se reúnem para uma turnê de reconciliação, a bordo do trem do título, passando pelo interior da Índia. Francis, organizador da viagem, acredita que o terreno espiritual do país pode ajudar a uni-los outra vez. O problema é que todos três têm problemas não resolvidos e ressentimentos que não querem revelar. Desta forma, a viagem vai se transformando aos poucos em um fracasso monumental – até que uma tragédia imprevisível acabe por alterar o rumo da peregrinação indiana, transformando as vidas dos três irmãos de maneira irreversível.

O longa-metragem é precedido de um prólogo, “Hotel Chevalier”, que funciona perfeitamente como curta independente – e é, sem dúvida, o melhor trecho do filme, trazendo de brinde a beleza estonteante de Natalie Portman. Além disso, há momentos de grande beleza plástica, inclusive os característicos travelings laterais em câmera lenta que o diretor tanto aprecia, e piadas inteligentes (uma delas abre o filme, com a participação mais que especial de Bill Murray, mas somente quem acompanha a carreira de Wes Anderson vai entender a ironia embutida no fato de o personagem de Murray não conseguir pegar o trem). É o caso clássico do filme cuja soma de partes resulta maior do que o todo. Não que “Viagem a Darjeeling” seja ruim. Apenas soa como road movie requentado com uma nova (e sofisticada) roupagem.

O DVD da Fox contém o filme com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Viagem a Darjeeling (The Darjeeling Limited, EUA, 2007)
Direção: Wes Anderson
Elenco: Owen Wilson, Jason Schwartzman, Adrian Brody, Natalie Portman
Duração: 95 minutos

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