Viagem de Chihiro, A

20/12/2003 | Categoria: Críticas

Imagine um episódio de ‘Além da Imaginação’ dirigido por Walt Disney. Agora sim, você está pronto para este filme

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“A Viagem de Chihiro” (Spirited Away, Japão, 2002) cumpriu uma carreira cinematográfica quase tão esquisita quanto o enredo do filme, para o ponto de vista da platéia ocidental. Afinal, quando se poderia imaginar que um desenho animado tradicional, com roteiro baseado em antigas lendas japonesas e criado sem o uso de computadores, poderia ter alguma chance de vitória no tradicional Festival de Berlim, um dos mais importantes eventos do cinema europeu? Pois é, ninguém apostava no longa japonês, mas o trabalho do cineasta Hayao Miazaki conseguiu esse feito. Da Alemanha, o longa japonês decolou para uma carreira internacional excepcionalmente bem sucedida, que incluiu até mesmo uma inesperada vitória na categoria de Melhor Longa de Animação, no Oscar 2003.

Tamanha badalação levanta uma pergunta: um desenho animado realizado para crianças justifica tanta paparicação? A resposta é sim, justifica. “A Viagem de Chihiro” pode parecer, para olhos ocidentais, um tanto deslocado. O filme ocupa um nicho particular no mercado internacional de animação. Foi feito para crianças, por um diretor especializado em belos desenhos animados, mas cujo público-alvo sempre foi formado por adultos (lembre-se de que as animações adultas, no Japão, possuem um público enorme e fanático). Além disso, tem uma protagonista criança (a Chihiro do título) que é submetida a provações cuja crueldade é difícil de encontrar até nos filmes adultos produzidos em Hollywood. Talvez por isso, no ocidente, o filme acabou encontrando espaço diante de um público bem diverso da massa infantil para a qual foi feito.

Um dos detalhes que contribuem para esse fenômeno é a utilização de personagens oriundos da mitologia japonesa, que dão ao longa um toque sombrio. O mundo de “A Viagem de Chihiro” é dominado por um elemento fantástico e sobrenatural que irrompe de repente, no cotidiano de uma garotinha de seis anos – pense no que aconteceria se um episódio de “Além da Imaginação” fosse dirigido por Walt Disney. Desse modo, desempenham papéis mais ou menos importantes, no longa, alguns espíritos da natureza, como um deus fedorento que vive num rio poluído, e outro, canibal, que transforma qualquer coisa em ouro. Há também muitos seres deformados ou híbridos, como um homem de oito longos braços que comanda aranhas por telepatia, uma criatura com corpo de pássaro e cabeça de mulher, um bebê gigantesco e um adolescente que se transforma em um feroz dragão.

Todos esses personagens são obstáculos ou aliados na jornada que a garotinha Chihiro precisa enfrentar, em busca de um objetivo bem claro: escapar dessa dimensão extraordinária, que ela encontrou por acaso, durante uma viagem de carro com os pais, pelo Japão rural. Logo no princípio do longa, o carro que leva o trio ultrapassa uma velha passagem no meio de uma floresta, o que os leva ao que parece ser um parque de diversões abandonado.

Enquanto a garotinha, assustada, passeia pelo lugar, os adultos encontram um banquete pronto para servir e se refestelam, sem pensar no exótico da situação (como tanta comida quente foi parar ali, no meio do nada?). Quando anoitece, Chiriho volta do passeio apenas para descobrir que os pais foram transformados em dois porcos enormes, como castigo por terem comido a refeição dos deuses. Ela logo percebe que aquele lugar é, na verdade, uma espécie de spa para espíritos imortais. E, pior, que tornou-se prisioneira do local, sendo obrigada a trabalhar como doméstica numa casa de banhos. Enquanto faz isso, a menina tenta arquitetar um plano para libertar os pais.

Para compreender melhor o enredo do filme, é preciso contextualizar o longa dentro de uma tradição das animações japonesas, que é atualizar, para o asiático de hoje, as antigas lendas do Japão feudal. Daí o sucesso desse tipo de filme entre as crianças do Sol Nascente, que conhecem a história e os mitos do seu país através desse tipo de aventura. Para o lado de cá do planeta, contudo, o mais interessante é observar o choque cultural entre esse tipo de filme e as animações hollywoodianas, de tramas mais infantilizadas e simplificadas. “A Viagem de Chihiro” tira proveito dessa temática pesada e adota um estilo visual que flutua entre o sinistro e o etéreo – quase podemos sentir que se trata mesmo de uma dimensão divina, de uma experiência espiritual.

Impressiona, também, que Hayao Miazaki tenha conseguido criar uma personagem tão consistente quanto a protagonista. No Ocidente, ele seria acusado de crueldade – colocar uma menina de seis anos, cujos pais foram transformados em porcos, para viver limpando sujeira feita por deuses-demônios? É difícil imaginar um projeto assim desenvolvido pela Disney ou pela Dreamworks, os dois estúdios que dominam a animação de Hollywood.

De qualquer forma, Chihiro enfrenta a provação com coragem e determinação, indo literalmente até o fim do mundo para conseguir cumprir seus objetivos e voltar a ser a mesma criança travessa e assustada dos primeiros quinze minutos de projeção. Nesse sentido, “A Viagem de Chihiro” lembra “O Império do Sol”, de Steven Spielberg; é o tipo de filme que ainda faz acreditar na inocência.

O DVD nacional existe em duas versões distintas, uma em formato letterbox (que distorce a imagem para preencher a tela da TV, tornando os personagens mais “magros”) e outra em widescreen. Ambas possuem um documentário sobre a produção.

– A Viagem de Chihiro (Spirited Away, 2002, Japão)
Direção: Hayao Miazaki
Animação
Duração: 122 minutos

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