Viagem Maldita

20/03/2007 | Categoria: Críticas

Refilmagem de horror da década de 1970 apresenta doses generosas de violência gráfica e tem temática racista dissimulada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O crítico norte-americano James Berardinelli analisou “Viagem Maldita” (The Hills Have Eyes, EUA, 2006) como um dos melhores filmes de horror da safra de 2006. Mesmo assim, numa escala de 1 a 4, ele desceu na lenha na produção do cineasta francês Alexandre Aja, cravou 2,5 e afirmou que o elogio involuntário só acontecia porque a safra do gênero a que ele pertencia, a de 2006, era muito ruim. Esse é o perigo de dar muita importância ao contexto quando se analisa um filme. Pois se “Viagem Maldita” tem enredo econômico e previsível, acerta em cheio no tratamento visual sanguinolento e no clima de tensão permanente.

Quem já assistiu ao interessante “Alta Tensão”, filme tenso e sangrento que pôs o nome de Aja no mapa de Hollywood, já pode ter uma boa idéia do que “Viagem Maldita” tem a oferecer: tensão incessante, olho caprichado para cenários e enquadramentos, e muita, muita violência explícita. Jovem e furioso, Alexandre Aja pertence ao time de cineastas (como Eli Roth) que não faz nenhuma questão de reduzir a quantidade de sangue nos filmes que dirige. Ele teve que cortar dois minutos da montagem final – basicamente os trechos mais sangrentos – para que o filme pudesse estrear nos Estados Unidos com uma censura liberada para adolescentes. A versão sem cortes está disponível em DVD.

Embora seja um remake bastante fiel de um filme de 1977 (o título original é o mesmo, e a tradução em português do primeiro longa chama-se “Quadrilha de Sádicos”), a inspiração atende pelo nome de “O Massacre da Serra Elétrica”. Em 1974, a obra de Tobe Hooper deu partida a todo um subgênero de horror adolescente, e levou o roteirista e diretor Wes Craven (o criador de Freddy Krueger) a imaginar o seguinte cenário: uma família americana em viagem de férias se perde no deserto do Novo México e acaba tendo que enfrentar a sanha assassina de uma comunidade de mutantes que habita as montanhas da região.

Vale lembrar que os mutantes são filhos de mineiros afetados por testes com bombas atômicas, o que proporcionava ao filme um subtexto que batia forte na política externa norte-americana, na época direcionada pela Guerra Fria com a então poderosa União Soviética. Em 2006, o subtexto não funciona mais, e o filme acabou ganhando – talvez involuntariamente, até porque o diretor é francês – tintas polêmicas, cuja leitura pode ser conservadora ou liberal, mas certamente é política. Vejamos: a família atacada pelos mutantes é quase toda republicana (do tipo que usa bandeirinha do país no carro), com integrantes que adoram andar armados até os dentes. Além disso, o único mutante bonzinho possui a aparência mais normal de todos os assassinos – a mensagem subliminar é que os feios são potencialmente perigosos, uma mensagem subliminar curiosamente racista e politicamente incorreta.

“Viagem Maldita” não tem, até mais ou menos a metade, um único ponto de vista narrativo. O trailer em que viaja a família sofre um acidente bem no meio do deserto (só nós, espectadores, sabemos que não foi bem um acidente), os personagens se separam, e o filme acompanha cada um deles em um crescendo bem orquestrado de tensão e sangue. Pode parecer falta de foco, mas a estratégia acaba funcionando a favor do filme, pois acabamos ser conseguir identificar previamente quem vai ser atacado primeiro pelos maníacos. Nesse ponto reside outra qualidade: o longa-metragem não segue a cartilha tradicional do gênero, segundo a qual os personagens chatos e egoístas são sempre os primeiros a morrer.

Já a estética visual adotada por Alejandro Aja é interessante, apesar dos clichês. Para aumentar a tensão, o diretor usa fartamente a câmera subjetiva com o ponto de vista subjetivo dos criminosos, geralmente fazendo aparecer um braço ou uma perna do meliante, ou o som fora-de-quadro da respiração de um deles, para enfatizar – com certo excesso – a proximidade entre vítimas e assassinos. O truque de fazer vultos passarem da frente da câmera também é usado várias vezes, assim como os acordes altos na trilha sonora, minimalista e quase sempre eletrônica.

O desenho de som, por sinal, é um ponto alto; Alexandre Aja pontua a ação com ruídos do deserto (corvos, coiotes, ventanias) que vêm de todos os lados, provocando uma sensação de que o perigo pode estar em qualquer lugar, o que aumenta ainda mais a tensão. No uso do som, aliás, fica patente a influência do spaghetti western e dos filmes de Sergio Leone, com a utilização insistente de ruídos naturais amplificados (o vento, passos na areia) para injetar drama e emoção numa trama esquelética. O senão vai para os excessos de sons não-diegéticos (zumbidos distorcidos, percussão) que pontuam a ação enquanto assustam os mais desavisados.

Quanto aos ataques dos mutantes assassinos, é aí que o bicho pega. São seqüências longas e bastante violentas, meio sádicas, na linha de “O Albergue” – momentos longos, que parecem nunca acabar, em que as garotas na platéia vão fechar os olhos. É um filme barato, feito quase sempre com maquiagem gosmenta à moda antiga (o visual de alguns mutantes é realmente bizarro), sangue aos borbotões e pouco CGI. “Viagem Maldita” foi filmado no Marrocos, todo em locação, e o diretor soube aproveitar a aridez da paisagem, criando um visual seco, bruto, cheio de poeira e repleto de tons amarelo-avermelhados e cinzentos.

O visual, embora bem produzido, não é necessariamente realista. O melhor exemplo disto é a cidade dos mutantes, cheia de manequins empoeirados (colocados lá por militares que desejavam medir o efeito das bombas atômicas testadas no lugar). A locação, excelente, tem um aspecto geral sinistro e desolado, mas jamais passa a impressão de que poderia realmente existir no mundo real. Afinal, apesar de o cinema gostar de pintar os militares como uma raça burocrática e incompetente, o país mais poderoso do mundo não costuma ter áreas tão desabitadas a ponto de uma cidade habitada apenas por bonecos e assassinos passar despercebida.

No campo das atuações, o elenco é razoavelmente conhecido e chama a atenção. Na ala jovem, aparecem um irreconhecível Aaron Stanford (o Pyro da série “X-Men”) e Emilie De Ravin (a Claire da telessérie “Lost”). Mas o maior destaque é o veterano Ted Levine, excelente ator coadjuvante que jamais conseguiu ascender ao time de astros de Hollywood, mas interpretou tipos inesquecíveis, como o psicopata de “O Silêncio dos Inocentes” (1991) e o ladrão mala-sem-alça Waingro no policial “Fogo Contra Fogo”, de Michael Mann.

No todo, “Viagem Maldita” lembra bastante o horror australiano “Wolf Creek”, que também enfoca, com doses generosas de violência gráfica, pessoas atacadas em pleno deserto por maníacos perigosos. Esta pequena produção, no entanto, é melhor em três pontos: o assassino é uma pessoa de aparência absolutamente inofensiva; o final, bastante original e incomum; e o desenvolvimento dos personagens, bem mais consistente. Agora, se você já viu “Wolf Creek” e achou a ação lenta demais, impressão que muita gente teve, pode se animar, pois “Viagem Maldita” tem tudo para lhe agradar.

O DVD simples lançado pela Fox tem boa qualidade de som (Dolby Digital 5.1) e imagem (widescreen 2.35:1 anamórfica), e traz ainda comentário em áudio dos produtores, um documentário (50 minutos) e um clipe musical, além de ter dois minutos a mais de sangue, tripas e planos-detalhes de dedos decepados, olhos arrancados e cabeças perfuradas por marretas e picaretas.

– Viagem Maldita (The Hills Have Eyes, EUA, 2006)
Direção: Alexandre Aja
Elenco: Aaron Stanford, Ted Levine, Emilie De Ravin, Kathleen Quinlan
Duração: 107 minutos

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