Vício Frenético

15/04/2010 | Categoria: Críticas

Werner Herzog investiga em thriller policial delirante os enigmas insondáveis da compulsão

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Há uma elipse reveladora e significativa logo após o prólogo de “Vício Frenético” (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, EUA/Alemanha, 2009), o bom thriller de Werner Herzog. A supressão de fatos ocorre logo após o detetive Terence McDonagh (Nicolas Cage) saltar dentro da água suja das inundações provocadas pelo furacão Katrina, em New Orleans (EUA), para resgatar um presidiário prestes a se afogar dentro da cela do distrito policial. Assim que Terence atinge a água, Herzog corta para a próxima cena, que inicia efetivamente o filme, mostrando o policial ganhando uma promoção por causa do ato de bravura.

Aos poucos, vamos descobrir que Terence não é tão bravo assim. Muito menos honesto. Sofrendo de dores atrozes nas costas por causa de um desvio irreparável na coluna cervical, ele não demora a se tornar um viciado em cocaína, crack e analgésicos à base de morfina, que compartilha com a namorada Frankie (Eva Mendes), prostituta de luxo. Está pronto o cenário para a descida ao inferno de Terence, cuja compulsão incontrolável pela droga – e pelo jogo – o leva dos pequenos e rotineiros desvios de conduta (chantagear freqüentadores de boates em busca de propina ou droga) a transações perigosas com barões do tráfico local e, finalmente, aos assassinatos.

“Vício Frenético” tem a aparência de thriller na superfície, mas lida com material bem mais complexo, insondável e inflamável: a compulsão, os instintos incontroláveis que levam um ser humano a pisotear seus próprios códigos de conduta para alcançar objetivos nem sempre mensuráveis. Herzog é um especialista no tema. Quase toda sua obra de ficção (“Aguirre, a Cólera dos Deuses”, de 1972, e “Fitzcarraldo”, de 1982, por exemplo) e boa parte de sua produção documental (“O Homem-Urso”, de 2005) consiste de variações do mesmo tópico.

O fascínio, é claro, tem sua razão de ser: o cineasta alemão radicado nos Estados Unidos admite ser, ele próprio, um obsessivo-compulsivo que usa o cinema ao mesmo tempo como válvula de escape (ou seja, como mecanismo de controle) e como microscópio que investiga as razões insondáveis de tal comportamento. Para fazer o já citado “Fitzcarraldo”, por exemplo, cujo protagonista megalomaníaco queria realizar a tarefa impossível de construir um teatro dentro da selva amazônica, Herzog agiu da mesma forma que o personagem: foi filmar na floresta, com todas as dificuldades de infra-estrutura que tornavam o trabalho mais difícil e caro. Nesse sentido, “Vício Frenético” (refilmagem de um longa de 1992 de Abel Ferrara) encaixa como uma luva na obra do diretor.

Ademais, embora não seja tão movimentado quanto um thriller de ação hollywoodiano comum, o filme de Herzog tem bons momentos de tensão e violência – o confronto entre duas gangues rivais dentro do escritório de um chefão da droga é o melhor deles. Os delírios do protagonista, causados pela droga ou pela síndrome de abstinência, geram cenas maravilhosas, repletas dos excessos de Herzog: close-ups extremos de iguanas filmados com lentes grande-angulares, uma tomada subjetiva de um jacaré enfurecido e a alma dançarina do traficante de drogas estão entre os melhores momentos do cinema policial norte-americano de 2009.

Além disso, há no filme bons personagens coadjuvantes, que acrescentam um diapasão ao tema do vício: as tentativas do pai de Terence (Tom Bower) em se livrar do alcoolismo encarando torturantes e monótonas sessões da AA, o vício da própria namorada do herói e a figura esquisita da namorada mais jovem do pai dele (Jennifer Coolidge), que vive com uma garrafa de cerveja na mão e um sorriso melancólico no rosto, e não precisa muito mais do que isso para se tornar um excelente comentário ao tema central do filme. Há, ainda, um final perfeito, com um par de cenas que rimam com as duas primeiras seqüências, usando ironia e cinismo para comentar o próprio tratamento ambíguo que o roteiro reserva para a moralidade do detetive.

É aqui que entra a elipse após o prólogo. Essa elipse propositalmente omite a informação sobre a origem do ferimento nas costas de Terence, impedindo que o espectador saiba as razões reais da conduta amoral do protagonista. Ele já era descontrolado, violento e viciado em drogas antes do incidente ocorrido na delegacia inundada? Foi o mergulho que lhe provou a lesão? O filme sugere sutilmente que não, que ele já era doidão antes (e que tinha bom coração) mas não deixa isso claro; afinal, é muito mais fácil para o público norte-americano aceitar um protagonista que tenha sido impelido à violência, ao crime e ao vício por um problema médico sobre o qual ele não tem controle. A maior virtude de “Vício Frenético” consiste, talvez, na recusa de Herzog em não explicar a personalidade compulsiva e moralmente fraca de Terence (ou melhor, para não oferecer uma explicação conveniente, banal e superficial para um componente de personalidade tão volátil e complexo).

Além do mais, o longa-metragem parece ter reenegizado o ator Nicolas Cage, que parecia trabalhar no piloto automático há diversos filmes e, finalmente, volta a oferecer um desempenho digno. A forma como ele sinaliza o arco dramático do personagem através da expressão corporal – caminhando progressivamente mais e mais curvado, como o corcunda de Notre Dame e lembrando em alguns momentos a silhueta sinistra do vampiro Nosferatu (o filme de Murnau, que Herzog refez em 1979) – cambaleante do detetive é um triunfo da boa interpretação, que lembra um pouco os bons dias de “Despedida em Las Vegas”. Cage dá um toque especial a um filme cheio de energia.

O DVD nacional da Swen Filmes traz o longa com proporção original de imagem (widescreen anamórfica) e seis canais de áudio (Dolby Digital 5.1).

– Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, EUA/Alemanha, 2009)
Direção: Werner Herzog
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes, Jennifer Coolidge, Val Kilmer
Duração: 122 minutos

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