Vicky Cristina Barcelona

13/03/2009 | Categoria: Críticas

Quarto filme consecutivo de Woody Allen no Velho Continente é um dos mais interessantes, apesar de denotar certa preguiça do cineasta em fugir dos estereótipos da cultura espanhola

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O desinteresse que a indústria cinematográfica norte-americana tem demonstrado por Woody Allen é revelador do estado de coisas no seio de Hollywood. Roteirista e diretor de mão cheia, apontado como grande renovador da comédia nos anos 1970 e 80, Allen envelheceu. Nada mais natural, certo? Só que, de repente, seus filmes deixaram de ter apelo junto ao público jovem, alvo da maior parte dos longas-metragens financiados pelos grandes estúdios. Aí a fonte secou. Sem dinheiro, ele foi obrigado a partir para a Europa e dar início a uma nova fase na carreira, longe das amadas ruas de Nova York. “Vicky Cristina Barcelona” (EUA/Espanha, 2008) é o quarto filme consecutivo que o diretor faz no Velho Continente, e um dos mais interessantes, apesar de denotar certa preguiça do cineasta em fugir dos estereótipos da cultura espanhola.

O processo de pré-produção de “Vicky Cristina Barcelona” foi bastante polêmico. Tudo porque o filme nasceu de uma encomenda feita pela Prefeitura de Barcelona. Sabendo das dificuldades do diretor para encontrar financiamento, os políticos catalães fizeram a proposta: bancariam dois milhões de euros, desde que Woody Allen filmasse na cidade (e desse um jeitinho de encaixar alguns pontos turísticos na história). Aos 72 anos e sem perspectivas de continuar mantendo o incrível ritmo de um longa-metragem por ano, ele topou a proposta. Na verdade, como contou depois em entrevistas, apenas pegou um antigo roteiro inacabado e mudou as locações principais para o balneário espanhol. A polêmica ficou por conta de cineastas locais, que reclamaram da enorme soma de dinheiro entregue a um estrangeiro para filmar na Espanha.

Turbulências financeiras à parte, “Vicky Cristina Barcelona” volta a trabalhar temas caros à fatia mais criativa da obra de Woody Allen, notadamente as angústias e inseguranças relacionadas ao sexo e ao amor (troque o preto-e-branco radical de “Manhattan” pelos tons pastéis, avermelhados e dourados de uma cidade praieira e terá uma boa idéia do filme mais recente). “Vicky Cristina Barcelona” também possui semelhança curiosa com dois trabalhos antigos e pouco lembrados pelos fãs (“Hannah e Suas Irmãs” e “A Outra”), ambos grandes filmes, mas de certa forma eclipsados pelo sucesso avassalador dos trabalhos de potencial cômico mais escancarado (“Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”). A diferença, aqui, é que o diretor americano resolveu assumir de uma vez por todas a faceta francesa do seu trabalho.

Não foram poucos os críticos que apontaram semelhanças entre “Vicky Cristina Barcelona” e os trabalhos de Eric Rohmer: filmes tagarelas, extremamente dialogados e aparentemente superficiais, até mesmo frívolos, quando na verdade demonstram curiosidade saudável para sentir o pulso sexual/amoroso da geração jovem. Woody Allen constrói um registro alegre, ensolarado (como convém a uma história que se passa em Barcelona), e cria variação esperta de um verdadeiro emblema de filmes franceses da nouvelle vague (movimento surgido entre os anos 1950 e 60, que deu ao mundo Rohmer, Truffaut e Godard, entre outros), que é o ménage-à-trois, ou triângulo amoroso. “Vicky Cristina Barcelona” é um filme que remete à tradição de “Jules e Jim” e “Banda à Parte”, apenas para citar dois dos mais famosos trabalhos franceses que focalizam relações a três travadas na maior naturalidade.

Ocorre que os três são, na verdade, quatro. E é aí que começam os problemas da película. Desde o início da narrativa, Allen opta por adotar como seu o olhar estrangeiro dirigido a Barcelona pelas duas jovens turistas norte-americanas que estão lá para uma temporada de estudos. Se o ponto de vista parece correto (um filme sobre duas turistas deve mesmo mostrar um olhar turístico), não deixa de ser conveniente para um trabalho feito por encomenda. As duas personagens, por dua vez, possuem visões opostas no que se refere ao amor. Vicky (Rebecca Hall) tem casamento marcado com um almofadinha, é conservadora e metódica. Cristina (Scarlett Johansson) é sexualmente libertária e está a fim de experiências. As duas encontram por acaso o pintor catalão Juan António (Javier Bardem), que acaba de se separar da esposa neurótica (Penélope Cruz). É o início de uma série de desventuras amorosas em que Woody Allen se diverte, bagunçando a cabeça das duas meninas com um estilo de vida despreocupado e boêmio a que elas não estão acostumadas.

Se o ponto de vista adotado é correto, também fica evidente que o cineasta não teve preocupação em tentar lançar à Espanha um olhar um pouco mais interessado, despido de preconceitos e estereótipos. Todos os personagens espanhóis passeiam de bicicleta, trabalham sem horário fixo, andam de chinelo pelas ruas e comem frango grelhado com pão, maçã e uvas. Woody Allen também não se preocupa em disfarçar o objetivo de fazer o filme funcionar como cartão postal da cidade, criando muitas cenas em pontos turísticos famosos como o parque Güell (com aquelas casinhas que parecem feitas de doces e pirulitos), o porto e a principal avenida da cidade, chamada La Rambla. Aliás, é irônico perceber que a crítica brasileira sequer faz menção a esta concessão comercial flagrante, depois de descer o pau em todos os filmes que vendem o Rio de Janeiro como a oitava maravilha do universo.

Por outro lado, apesar dos vacilos, há muitos aspectos positivos no filme. Um ponto forte é a atuação do elenco. Javier Bardem brilha como um homem quente e sedutor, em performance diametralmente oposta à dureza do assassino frio como uma pedra de gelo, que lhe deu o Oscar pelo trabalho anterior, em “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Penélope Cruz mostra que só enfrenta problemas quando precisa atuar falando em inglês. Scarlett Johansson é linda e não compromete, embora represente o elo mais fraco do quarteto. Em situação oposta está a novata Rebbeca Hall, que dá vida interior e complexidade a uma mulher jovem de alma velha, dividida entre a segurança de um casamento morno e uma paixão avassaladora e sem futuro.

Outro destaque está na fotografia, assinada pelo espanhol Javier Aguirresarobe (“Os Outros”). Não tanto pelos tons pastéis e ensolarados como filma Barcelona, mas pelo bom gosto e discrição nas composições e enquadramentos. Tome, por exemplo, a longa cena em que dois personagens conversam diante de uma varanda. Para evitar o banal sistema plano/contraplano, Aguirresarobe mantém a câmera bem próxima ao casal, flutuando levemente de um lado para outro, como um pêndulo suave que acompanha o ritmo estabelecido pelo diálogo. Sempre que o tema da conversa resvala para um assunto menor, sem relação com o enredo, a câmera recua, sinalizando ao espectador a pouca importância daquele instante, apenas para voltar a se aproximar quando a conversa esquenta mais uma vez. Simples, eficiente e discreta, como a boa fotografia para cinema deve ser.

A distribuição do DVD no Brasil é feita pela Imagem Filmes. O enquadramento original (widescreen anamórfico) foi preservado, e o áudio tem seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Vicky Cristina Barcelona (EUA/Espanha, 2008)
Direção: Woody Allen
Elenco: Javier Bardem, Scarlett Johansson, Penélope Cruz, Rebecca Hall
Duração: 96 minutos

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