Vida das Marionetes, Da

01/10/2008 | Categoria: Críticas

Filme de Bergman de 1980 monta impressionante e perturbador pesadelo sobre sexo, morte e máscaras sociais

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

“Da Vida das Marionetes” (Aus dem Leben der Marionetten, Suécia/Alemanha, 1980) surgiu durante a mais dura fase da vida de Ingmar Bergman. Na época, o cineasta sueco vinha sendo acusado de sonegar impostos no país, tendo que fugir para não ser preso. Bergman se estabeleceu em Munique, na Alemanha, onde passou a dirigir um teatro. Tomava remédios para depressão e para insônia. Péssimo momento para um ser humano comum trabalhar, mas não para Bergman. Durante a carreira prolífica, ele se tornara especialista no ato de sintetizar fantasmas pessoais em poderosas reflexões sobre os dramas da condição humana. Desta forma, transformou o próprio sofrimento em um impressionante e perturbador pesadelo sobre sexo, morte e máscaras sociais.

Por diversas razões, “Da Vida das Marionetes” jamais recebeu a merecida atenção da crítica especializada. Para começar, a própria condição de exilado limitava a participação de Bergman em festivais de lançamento. O filme também repisava temas (o medo da morte, a dor inerente à alma humana, as prisões sociais) e situações dramáticas (um casal em crise) muito comuns à obra do diretor sueco, algo que para muita gente rebaixava a obra. Foi produzido com baixíssimo orçamento, sendo lançado sem badalação. Adotava o formato “quadrado” de imagem (1.33:1), como o de um aparelho de televisão tradicional, o que reduzia as chances de ser exibido em circuito amplo de cinemas. Por fim, o próprio cineasta já acalentava a idéia de aposentadoria, o que lhe levava a ser visto por cinéfilos de todo o mundo como um diretor ultrapassado, um dinossauro que não tinha mais nada de novo a dizer.

Uma pena, porque filmes como “Da Vida das Marionetes” são raros até mesmo na obra de um cineasta prolífico e intenso, como Bergman. Neste longa-metragem radical, o mestre sueco realiza um desejo que já perseguia há décadas: um estudo minucioso sobre um ato de extrema violência, cometido por uma pessoa comum, durante um curto-circuito emocional. O protagonista é Peter (Robert Atzorn), um empresário rico e bem-sucedido, que vive um casamento aparentemente perfeito com a fotógrafa de moda Katarina (Christine Buchegger). Logo no princípio do filme, num extravagante prólogo dominado pela cor vermelha – quem conhece Bergman sabe o quanto esta cor é importante em um filme dele – Peter mata uma prostituta e faz sexo anal com o cadáver.

A partir daí, Bergman subtrai a cor e inicia um poderoso estudo deste ato, em uma narrativa não-linear que salta do passado para o futuro, oferecendo vislumbres da investigação do crime e da vida íntima de Peter, além de uma seqüência de sonho. Ouvimos amigos e parentes de Peter. Vemos flagrantes da intimidade do casal. Aos poucos, as máscaras sociais vão caindo, e descobrimos a verdade sobre Peter e Katarina: um casal emocionalmente impotente, acometido pelo tédio e pela insônia, que nutre uma relação destrutiva de dependência mútua. Algum tempo depois, o próprio diretor diria que “Da Vida das Marionetes” era uma tentativa de estudar as emoções primais de um indivíduo, removendo aos poucos cada camada de proteção que ele ergueu, durante toda a vida, entre ele a sociedade. Ocorre que Bergman faz isso não como um médico-legista, mas como um psiquiatra. Ele não mexe em carne morta, mas em tecido vivo, como se fosse um cirurgião cerebral que opera sem anestesia.

Cada uma das seqüências deste filme, uma mais incrível do que a outra, provoca uma onda de choque genuíno nos espectadores. Desarmados, somos apresentados a Peter e então submetidos a seguidas provas de empatia para com um personagem que, a princípio, julgávamos alguém cruel e desalmado. Mas Peter não é um assassino de filme de suspense. Ele é alguém como eu e você. Uma pessoa comum: inteligente, espirituoso, bem-educado, tímido, calado. Alguém taciturno e dominado por tensões que, devido a uma rara e complexa conjunção de fatores, acaba dobrado pelos traumas da própria psique. Cada uma das cenas deste filme magnífico ajuda a construir um retrato intrincado do movimento interno de Peter, até o perfeito golpe final do cineasta. No epílogo circular, quando Peter mata a prostituta, não apenas o compreendemos, como entendemos e até justificamos o ato assassino. Apreciar “Da Vida das Marionetes” é contemplar, de mãos amarradas, os horrores da nossa própria humanidade.

Entre tantos momentos primorosos do roteiro, um é a chave para desvendar os mistérios do filme. O monólogo proferido pelo amigo Tim (Walter Schmidinger), sobre si mesmo, diz o seguinte: “Há forças que me movem e que não consigo controlar. Médicos, amantes, comprimidos, drogas, álcool, trabalho. Nada ajuda. São forças secretas. Têm nome? Não sei. Talvez seja o processo de envelhecimento. Não tenho controle sobre essas forças. Eu me aproximo do espelho e olho para a minha cara, que se tornou tão familiar. E chego à conclusão de que esta combinação de carne, sangue, nervos e ossos reúne duas pessoas incompatíveis. De um lado, o sonho de intimidade, de ternura, interesses comuns. Do outro a violência, a obscenidade, o horror e a morte. Às vezes penso que têm a mesma origem. Não sei. Como poderia saber?”. Quantos cineastas na história do cinema seriam capaz de escrever algo com tanta força, verdade e poesia?

Pouco conhecido até mesmo pelos fãs do cineasta sueco, “Da Vida das Marionetes” foi lançado no Brasil em DVD pela Versátil. A cópia tem boa qualidade de imagem (fullscreen 1.33:1) e áudio (Dolby Digital 1.0, em alemão).

– Da Vida das Marionetes (Aus dem Leben der Marionetten, Suécia/Alemanha, 1980)
Direção: Ingmar Bergman
Elenco: Robert Atzorn, Christine Buchegger, Martin Benrath, Walter Schmidinger
Duração: 104 minutos

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