Vida de Brian, A

13/12/2007 | Categoria: Críticas

Sátira religiosa do Monty Python é filme impecável em DVD com falhas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Um ser humano normal pode ter câimbras na barriga? Bem, é melhor que isso seja possível. Se não puder, o redator destas mal traçadas linhas não é um ser humano normal. Sim, porque todas as vezes em que assistiu a “A Vida de Brian” (Monty Python’s Life Of Brian, Inglaterra, 1979), e não foram poucas, ele foi acometido de câimbras na barriga, de tanto rir. Como o filme é uma comédia, essa afirmação garante a qualidade do longa-metragem. Pode ter certeza: “A Vida de Brian” é um dos filmes mais engraçados jamais produzidos na história do cinema.

O Monty Python, sexteto de comediantes ingleses que escreveu, produziu e atuou em um programa de TV durante parte dos anos 1970, estava particularmente inspirado, na época da produção do filme. O grupo conseguiu transformar uma idéia simples e original em uma alucinada salada de influências, misturando esquetes cômicos, números musicais e animação tosca de maneira absurdamente satírica. A expressão “metralhadora verbal” cabe aqui como uma luva. Os comediantes do Python não poupam ninguém: religião, política, história e o próprio cinema são satirizados implacavelmente, em uma verdadeira saraivada de piadas e gags de provocar… ahnn… câimbras em barrigas de críticos.

A idéia central sobre a qual o filme foi erigido é simples e eficiente. Os seis gênios cômicos do grupo imaginaram o que poderia ter acontecido se um bebê tivesse nascido na manjedoura vizinha àquela em que Jesus Cristo nasceu. O filme mostra, portanto, a suposta vida desse personagem imaginário, chamado Brian (Graham Chapman). Ele é o filho bastardo de um solado romano com uma mulher judia (o arremedo de Maria é interpretado pelo diretor do filme, Terry Jones) que deseja ardentemente participar da resistência contra a dominação de Roma em Jerusalém.

Após uma breve e hilariante introdução em que os três reis magos confundem Brian com Jesus, o filme começa com o Sermão da Montanha. Detalhe: Brian, é claro, faz parte da platéia. Nos dias que se seguem, ele vai ser seguidamente confundido com o Messias, se envolvendo também com um grupo de revolucionários que tramam a derrubada do imperador romano e com os próprios integrantes do império que domina a cidade sagrada dos cristãos. De quebra, vai cruzar várias vezes o caminho de Cristo.

Essa descrição do esqueleto narrativo não dá a menor idéia do quanto o filme é engraçado. Imagine, então, que “A Vida de Brian” consegue a proeza de introduzir uma batalha intergalática envolvendo raças extraterrestres no meio de um filme ambientado 21 século atrás! Atente, também, para o verdadeiro show de interpretação de cada um dos comediantes, que interpretam juntos nada menos do que 40 personagens diferentes. Michael Palin, o ator mais capacitado do grupo (ele faz Pilatos), é um show à parte.

Entre as muitas seqüências antológicas, três ganham destaque: a alucinada perseguição de Brian por um grupo de soldados romanos que o flagram pichando os muros de Jerusalém; o primeiro encontro entre Brian e Pilatos (a tal cena em que a barriga do crítico ficou dura de tanto rir); e a última seqüência, um número musical envolvendo assobios, crucificações e um exército suicida.

“A Vida de Brian” é uma obra-prima da comédia satírica, o tipo de trabalho que o Casseta & Planeta tenta copiar há 10 anos e jamais conseguiu sequer chegar perto. Pouca gente em Hollywood conseguiu combinar tão bem, tanto antes quanto depois do Monty Python, a crítica social e a comédia de forma tão coesa, corrosiva e engraçada.

São duas versões de DVD no Brasil. A primeira, simples, tem som Dolby Digital 2.0, imagem “quadrada” (com cortes laterais que mutilam o enquadramento original) e um documentário da produção sem qualquer tipo de legenda. A edição dupla, da Sony, é muito mais caprichada: dois comentários em áudio de cinco dos seis Pythons (menos Graham Chapman, já falecido, e ambos com legendas em português), mais um novo documentário (59 minutos), galeria de cenas cortadas (13 minutos) e uma leitura completa do roteiro original (110 minutos).

– A Vida de Brian (Monty Python’s Life Of Brian, Inglaterra, 1979)
Direção: Terry Jones
Elenco: John Cleese, Eric Idle, Graham Chapman, Michael Palin, Terry Gilliam, Terry Jones
Duração: 94 minutos

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