Vida de Inseto

12/04/2006 | Categoria: Críticas

Subestimado longa-metragem da Pixar tem enquadramentos precisos e animação esplêndida

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Injustiça. É a palavra que vem à mente quando você assiste a “Vida de Inseto” (A Bug’s Life, EUA, 1998), o único filme dos estúdios Pixar que não foi coberto de glórias e louvado como obra-prima. A única razão para que esse longa-metragem de animação tenha alcançado um resultado tão modesto (principalmente do ponto de vista da crítica) é a semelhança incontestável entre ele e o projeto dos estúdios DreamWorks, “FormiguinhaZ”. Os dois filmes foram lançados no mesmo ano, têm formigas marginalizadas como protagonistas e narram aventuras que se passam dentro de formigueiros. A DreamWorks levou vantagem por ter lançado o seu longa alguns meses antes. Mas a verdade é que são dois produtos que objetivam atingir públicos distintos.

Se a produção rival era quase um filme de Woody Allen finalizado como animação (o comediante fez o papel principal, escrito especialmente para ele), “Vida de Inseto” segue o padrão Disney: é um filme infantil, feito para crianças pequenas, com personagens mais simplificados. Do ponto de vista do enredo, “Vida de Inseto” realmente não impressiona. Seu ponto forte está na imbatível qualidade da animação digital, muito melhor do que a técnica utilizada para produzir o filme rival. Além disso, é possível até mesmo falar em excelência quando se menciona a direção de fotografia, algo desprezado quando se fala em desenhos animados. “Vida de Inseto” tem uma das finalizações mais perfeitas da história da animação infantil.

Todos sabem que o maior mérito da Pixar, desde que o gênio John Lasseter lançou o primeiro “Toy Story”, foi amarrar perfeccionismo digital a enredos firmes, clássicos sem deixar de serem inovadores. Lasseter sempre apregoou, para quem quisesse ouvir, que a tecnologia digital de animação jamais poderia garantir o sucesso de um filme, se não desse vida a personagens simpáticos que tivessem uma história forte e interessante para contar. Se “Vida de Inseto” não é especialmente inovador em termos de enredo, também não fica longe do padrão da indústria cinematográfica para esse tipo de produção. O que temos, aqui, é a clássica história do filho pródigo, narrada com pequenas variações.

Flik (voz de Dave Foley, na versão original) é uma formiga irrequieta. Sem se destacar pela força, ele acredita que pode ascender na comunidade usando a inteligência. Por isso, teima em criar invenções, como um telescópio feito com uma gota de água colocada na ponta de uma folha enrolada, que possam ser úteis. No afã de ajudar, acaba atrapalhando. A comunidade tem um acordo com um grupo de agressivos gafanhotos, liderados por Hooper (Kevin Spacey), segundo o qual as formigas se encarregam de coletar comida para o inverno dos grilos, enquanto estes prometem proteção contra insetos maiores. Mas Flik derruba acidentalmente a comida dos gafanhotos num rio, metendo seu formigueiro numa enrascada: agora eles precisam coletar tudo de novo, antes que os grilos se vinguem. Para isso, ele vai contar com a ajuda de um grupo de insetos de circo, incluindo uma joaninha cujo rosto delicado esconde um cara muito macho.

“Vida de Inseto” é engraçado sobretudo pela fenomenal quantidade de idéias que pululam na tela a cada instante. Basta olhar a indumentária de Flik, por exemplo, que inclui um boné feito de folha (ou seja, é algo em que uma formiga metida a inventora certamente pensaria!). O filme da Pixar possui um extraordinário trabalho de cores e uma direção de fotografia esplêndida, repleta de movimentos de câmera refinados e enquadramentos precisos.

O uso abundante da câmera subjetiva (em determinado momento, por exemplo, vemos aquilo que uma mosca está vendo, da mesma maneira multifacetada que um inseto de verdade vê) e as “locações” belíssimas (como uma flor finíssima que flutua levemente ao vento, carregando as formigas e espalhando pólen em um verdadeiro caleidosópio multicolorido) garantem um visual espetacular à animação. Para completar, “Vida de Inseto” ainda tem uma das seqüências de ação mais tensas das animações recentes, quando um pardal persegue os insetos no meio do leito seco de um rio. Para relaxar junto com o filho ou sobrinho.

O DVD nacional de “Vida de Inseto” é legal, mas possui problemas. Para começar, adota o formato de tela 4 x 3, quase quadrado, encaixotando a imagem original através de cortes laterais em um processo que soa como um crime, pois mutila os brilhantes enquadramentos obtidos com muito esforço pela fotografia original. Além disso, a Disney manteve apenas os erros de gravação (dois segmentos curtos, cerca de 5 minutos) e um jogo para crianças como material extra. A edição importada de 2003 inclui um segundo disco com um superdocumentário e um comentário em áudio com os dois diretores. As crianças não vão sentir falta, mas os adultos sim.

– Vida de Inseto (A Bug’s Life, EUA, 1998)
Direção: John Lasseter e Andrew Stanton
Animação (vozes originais de Kevin Spacey, Dave Foley e Julia Louis-Dreyfus)
Duração: 96 minutos

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