Vida Marinha com Steve Zissou, A

11/10/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Wes Anderson é bom exemplo de longa cuja soma das partes é melhor do que o todo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Wes Anderson é um cineasta em quem se deve prestar atenção. Desde o segundo trabalho da carreira, “Três É Demais”, o diretor texano construiu para si mesmo um universo quase onírico, surreal, composto por personagens carismáticos, ainda que às vezes possam agir de modo bem desagradável. Em “A Vida Marinha com Steve Zissou” (The Life Aquatic With Steve Zissou, EUA, 2004), o cineasta constrói mais um longa-metragem ambientado nesse universo de mentirinha. Decomposto aos pedaços, o filme tem muitos pontos fortes: galeria de personagens interessante, ótimo elenco, boa trilha sonora e direção de arte impecável, qualidades que o diretor já havia demonstrado em “Os Excêntricos Tenenbaums”, a película anterior. Aqui, contudo, a soma das partes resulta em um todo irregular, que estranhamente deixa a desejar.

O enredo de “A Vida Marinha” poderia ser descrito como um bizarro cruzamente de “Moby Dick” com os documentários de Jacques Custeau. Para imaginar o que é o filme, tente colocar o oceanógrafo francês como protagonista do célebre romance de Herman Melville, e ambiente a história do lúdico mundo de Wes Anderson – um mundo que parece sair direto da imaginação de uma criança travessa. O protagonista é o já citado Steve Zissou (Bill Murray), um famoso diretor de documentários sobre a vida submarina nos oceanos do planeta (a fauna subaquática, por sinal, é animada por computação, com peixes e bichos criados pelo especialista Henry Selick, autor do desenho animado gótico “O Estranho Mundo de Jack”).

Logo nas primeiras cenas do filme, narradas em retrospectiva, Zissou anuncia uma nova expedição, que tem o objetivo de encontrar um gigantesco animal submarino, batizado por ele de Tubarão Jaguar. O bicho foi responsável por devorar o melhor amigo e co-capitão das expedições anteriores. Dessa vez, portanto, o motivo de Zissou para realizar a tarefa é pessoal: vingança, pura e simples.

Na expedição, além da equipe habitual que o segue há vários anos, se incorporam alguns novos componentes. Uma é a jornalista Jane Winslett-Richardson (Cate Blanchett), que deseja escrever uma reportagem para uma revista especializada em vida marinha. Outro é o banqueiro Oseary Dracoulias (Michael Gambon), responsável por fiscalizar os gastos da expedição. Há ainda o piloto de avião Ned Plimpton (Owen Wilson), que pode ser um filho de Zissou com uma antiga namorada.

Além dessa turma, há ainda os veteranos da equipe, como o alemão Klaus Daimler (Willem Dafoe), segundo no comando, e o brasileiro Pelé dos Santos (Seu Jorge), faxineiro do navio que cantarola músicas de David Bowie com letras em português, rabiscadas ao violão. O representante nacional, por sinal, é uma espécie de síntese do filme: uma aberração boazinha, um freak bizarro de alma pura, e ao mesmo tempo uma tentativa meio canhestra de Wes Anderson mostrar que consegue atirar, num caldeirão multicultural, todas as suas influências.

Existem acertos no filme, como o lindíssimo cenário do navio em que a expedição viaja, apresentado em uma tomada sem cortes logo no início do longa-metragem. O barco tem biblioteca computadorizada, aquário e até sala de edição para que os documentários sejam montados ali mesmo, antes de voltar à terra. Todos os ambientes têm cenários cuidadosamente montados, com paredes repletas de fotos, badulaques e bugingangas ornamentais. A melhor seqüência acontece perto do final, quando Zissou e Plimpton travam uma discussão caminhando pelos compartimentos do barco. É realmente uma proeza técnica espantosa.

A influência de François Truffaut permanece muito viva. O ponto de vista com que o filme olha para seus personagens é bem lúdico, à maneira do crítico e cineasta francês. Por outro lado, Anderson dá mostras evidentes de que começa a se repetir, a começar pelo protagonista. Steve Zissou não passa de uma variação de Royal Tenenbaum, o personagem principal do filme anterior. Aliás, toda a estrutura de personagens de “A Vida Marinha” remete àquela obra: temos, como lá, uma dúzia de sujeitos gravitando em torno de um homem ególatra, amoral e com senso de humor esquisito, apesar de lá no fundo ser uma boa alma. Talvez seja essa estrutura a responsável pelo fracasso parcial do filme, que permanece frio, impenetrável, sem jamais envolver ou emocionar o espectador.

A platéia norte-americana, tanto quanto a crítica, ofereceu uma recepção não muito agradável ao jovem cineasta. O filme foi mal de bilheteria e não emplacou indicações aos prêmios mais importantes, apesar do forte elenco e das boas performances (Bill Murray e Willem Dafoe entregam o que deles se espera, e Cate Blanchett prova mais uma vez que é uma atriz completa, com timing cômico perfeito). Talvez “A Vida Marinha” marque uma lição importante para Wes Anderson: um filme que deseja criar empatia com a platéia não pode ter apenas personagens bacanas, mas deve envolvê-los em uma trama tão sólida quanto a moldura técnica que o cineasta já provou saber desenvolver.

O Cinema da Fundação exibe o filme em sessões especiais na semana de 14 a 20 de outubro.

A Buena Vista lançou o disco simples no Brasil. Além do filme, que comparece no enquadramento original (widescreen 2.35:1) e com som de ótima qualidade (Dolby Digital 5.1), há um comentário em áudio reunindo Wes Anderson e o roteirista Noah Baumbach, um curto documentário de bastidores, trailer e cenas excluídas. Na Região 1 (EUA), existe uma versão dupla, com um disco só de extras.

– A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic With Steve Zissou (EUA, 2004)
Direção: Wes Anderson
Elenco: Bill Murray, Cate Blanchett, Owen Wilson, Angelica Huston
Duração: 118 minutos

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