Vida Íntima de Sherlock Holmes, A

08/04/2011 | Categoria: Críticas

Apesar da tesoura aplicada pela MGM, longa de Billy Wilder satiriza aristocracia auropéia com cinismo fino e saboroso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Quando a MGM decidiu, em 1969, tentar o lançamento de uma nova franquia cinematográfica protagonizada pelo detetive mais famoso da literatura, sabia que a escolha do diretor era pule de dez. Não havia, na indústria do cinema, nenhum cineasta mais habilitado para dar vida a um Sherlock Holmes de celulóide do que o austríaco Billy Wilder. Dono de sete Oscars, Wilder conhecia muito bem o universo da aristocracia européia, ambiente por onde o detetive circulava. Ele passara a infância em Viena, convivendo com gente da alta roda, e também havia escrito diversos roteiros para Ernst Lubitsch, o mais incisivo cronista da vida dos barões europeus. E o melhor de tudo que Wilder não apenas compreendia aquele mundo, tão exótico para a maioria dos mortais. Ele também sabia satirizá-lo com cinismo fino e saboroso, graças ao dom perene que tinha para criar diálogos que extraíam humor das situações mais sisudas.

Wilder aceitou a proposta e trouxe com ele o co-roteirista L.A.I. Diamond (parceria responsável, entre outros, pela obra-prima “Se Meu Apartamento Falasse”). Seria uma mega-produção de US$ 10 milhões (uma fortuna para a época), com quase quatro horas de duração, para projeções especiais com interlúdio (interrupção programada na exibição, para permitir que a platéia faça um lanche e vá ao banheiro). Tudo indicava que “A Vida Íntima de Sherlock Holmes” (The Private Life of Sherlock Holmes, Reino Unido, 1970) se tornaria mais uma obra-prima. Infelizmente, as circunstâncias que envolveram o lançamento minaram consideravelmente o poder de fogo do filme. Na temporada de 1970, a MGM acumulou prejuízos com películas de longa duração, de forma que os executivos do estúdio decidiram reduzir os riscos e obrigaram Billy Wilder a usar a tesoura sem cerimônia.

A versão original de “A Vida Íntima de Sherlock Holmes” tinha 210 minutos. O filme narrava quatro aventuras distintas do grande detetive inglês (Robert Stephens), todas postas no papel pelo ajudante Dr. Watson (Colin Blakely), mas guardadas em um cofre porque denegriam, de um modo ou de outro, a imagem pessoal de Holmes. O corte final, lançado com a aprovação de Wilder, eliminou duas das quatro aventuras, além de um prólogo que explicava a origem das novas histórias (encontradas no espólio de Watson, após a morte deste) e de um flashback sobre um trauma da juventude de Sherlock. Embora não tenha transformado “A Vida Íntima de Sherlock Holmes” em um filme ruim, o episódio de bastidores jogou fora boa parte dos esforços de composição do personagem.

O Sherlock de Billy Wilder, por exemplo, não era um exímio violinista, mas apenas um esforçado aprendiz de músico, além de misógino de carteirinha e viciado em cocaína. Achou estranho? Vamos analisar com calma. Na verdade, Wilder raciocinou certinho. Para conseguir chegar ao posto de detetive imbatível, Holmes não poderia mesmo dedicar tempo demais a outras atividades. Para ser um ás da música, ele teria que exercitar menos seus dotes intelectuais, e isso fatalmente reduziria sua capacidade extraordinária de resolver enigmas. A misoginia, que no filme envolve insinuações maldosas de homossexualismo (que divertem Holmes e enfurecem Watson), já era insinuada nos livros. Além disso, sendo acostumado a viver emoções fortes, parece natural que o detetive recorresse à cocaína nos momentos de tédio, mais ou menos como ocorre com roqueiros que caem de nariz numa montanha de pó quando não estão na estrada.

Tudo isso sobreviveu numa única seqüência, apresentada logo no início e desconectada do resto do filme. Trata-se de uma cena deliciosa, repleta do típico humor cínico e refinado de Billy Wilder. Um pouco do senso de humor sobrevive no primeiro segmento, em que Holmes e Watson atendem a um convite para assistir ao balé imperial da Rússia, e se envolvem numa divertida confusão de bastidores, mas está ausente no segundo e principal conto, em que a dupla precisa resolver um mistério que inclui o desaparecimento misterioso de um engenheiro belga, tráfico de canários brancos e a fuga de um grupo de anões de circo. O monstro do Lago Ness (Escócia) e espiões proto-nazistas alemães também fazem parte da trama, que conta com uma participação especial curiosa de Christopher Lee, no papel do irmão do detetive.

Na verdade, não há nada de especialmente errado com “A Vida Íntima de Sherlock Holmes”. O roteiro é simples e eficiente, a fotografia límpida e de luz difusa valoriza os ambientes naturais da Escócia (onde parte importante da trama se desenrola), o elenco dá conta do recado. O gosto de decepção é inevitável, porém, quando se sabe que pelo menos 70 minutos da metragem original, incluindo dois mistérios completos solucionados por Sherlock Holmes, foram cortados da montagem final. Esse material acabaria sendo perdido pelo estúdio, de forma que quase metade do longa-metragem é considerada oficialmente desaparecida pela MGM. Uma ocorrência inexplicável, levando-se em consideração a importância do diretor envolvido no projeto e a fama internacional do personagem principal.

O DVD traz o selo da Versátil. O filme em si aparece restaurado, com imagens nítidas e enquadramento original preservado (widescreen anamórfico), e áudio límpido em dois canais (Dolby Digital 2.0).

– A Vida Íntima de Sherlock Holmes (The Private Life of Sherlock Holmes, Reino Unido, 1970)
Direção: Billy Wilder
Elenco: Robert Stephens, Colin Blakely, Geneviève Page, Christopher Lee
Duração: 125 minutos

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