Vidas em Jogo

14/03/2006 | Categoria: Críticas

Thriller esquecido de David Fincher mostra sucessão de pegadinhas que misturam suspense e humor negro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O prestígio do cineasta David Fincher subiu aos céus após o enorme sucesso de “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, em 1995. Elogiado pela meticulosa direção de arte e também pela originalidade narrativa, o diretor decidiu escolher como próximo projeto um filme que tivesse seu ponto forte justamente nessas duas características. O resultado foi “Vidas em Jogo” (The Game, EUA, 1997), uma inteligente e cativante mistura de suspense com humor negro. O filme deu solidez ao nome de Fincher na indústria cinematográfica e possibilitou ao diretor a chance de pôr em celulóide um projeto ainda mais ambicioso, o polêmico “Clube da Luta”.

Imprensado entre dois grandes filmes contemporâneos, “Vidas em Jogo” teve uma carreira errática nos cinemas, especialmente no Brasil, onde só entrou em cartaz dois anos após o lançamento nos EUA. De forma inexplicável, o filme tampouco foi lançado por aqui em formato DVD, apesar de estar disponível na Região 1 (América do Norte) em um disco simples, que contém os dois cortes do filme (um no formato widescreen original, outro em tela cheia, com cortes laterais nas imagens), trilha de áudio Dolby Digital 5.1 com certificado de excelência THX e nenhum extra.

Por ter sido lançado no intervalo entre dois filmes polêmicos com pecha de obra-prima, “Vidas em Jogo” passou despercebido até mesmo entre admiradores de David Fincher e cinéfilos de plantão. Injustiça. O filme é uma delícia: tem um enredo criativo e intrigante, uma direção de arte rica em detalhes, e uma fotografia escura e sombria com o toque chique-decadente característico de Fincher. Para completar, possui um final de prender a respiração, já que é impossível, para a platéia, saber qual o destino do protagonista até os últimos segundos de projeção.

Toda a trama gira em torno de Nicholas Van Orton (Michael Douglas). As cenas de abertura mostram à platéia quem é Nicholas: um empresário de sucesso, que mora em uma mansão isolada nos arredores de San Francisco. Ele também é um homem frio, ríspido e solitário, capaz de comemorar o próprio aniversário comendo um hambúrguer em uma bandeja de prata, em frente à televisão. O filme sugere que Nicholas talvez seja assim por causa do suicídio do próprio pai, cometido no mesmo casarão – as cenas surgem durante os créditos iniciais, como uma melancólica montagem de filmes caseiros adornada por uma canção pungente levada ao piano.

No mesmo dia do aniversário, só que um pouco antes, Nicholas recebe um convite: almoçar com o irmão caçula, Conrad (Sean Penn). Conrad é a ovelha negra da família, um jovem rebelde que se envolveu com drogas e por isso foi afastado dos negócios familiares, enquanto o irmão assumiu tudo sozinho. Conrad dá a Nicholas um presente: um cartão de uma firma chamada Consumer Recreation Services. Conrad é especialmente persuasivo ao recomendar ao irmão: participe do Jogo. “Não posso dizer o que é, mas mudou a minha vida. Para melhor”, avisa.

Nicholas não dá muita atenção, mas sem querer se encontra, no dia seguinte, em frente ao prédio da CRS. Ele entra, é recebido por um gerente prestativo, chamado Jim Feingold (James Rebhorn), preenche alguns formulários e é obrigado a fazer exaustivos testes. Irritado, acaba sendo interrompido durante uma reunião, no dia seguinte, por uma secretária do CRP ao celular. Ela lhe avisa que ele não foi aceito no Jogo. E desliga na cara dele. Furioso, Nicholas resolve tomar satisfações. Mas não tem tempo para isso. Quando chega em casa, percebe um macabro boneco de palhaço na frente de casa, posicionado da mesma maneira como o cadáver do pai foi encontrado, décadas antes. É o início do Jogo, uma sucessão de pegadinhas insólitas que lembram um pouco o ótimo “Depois de Horas”, de Martin Scorsese.

Daí para a frente, o filme vira uma espécie de montanha-russa para pessoas adultas, enquanto vemos progressivamente a vida de Nicholas Van Orton sair de controle. Para alguém como Nicholas, um sujeito maníaco por poder, é um inferno pessoal. Sua maleta não abre. Uma caneta mancha de tinta sua camisa. O apresentador de seu programa de TV favorito interrompe o programa para conversar diretamente com ele. Uma garçonete derruba um copo de uísque no seu terno. Ele vê um homem sofrer um ataque cardíaco, é perseguido por cães ferozes. E isso é apenas o começo. Diante de tanta coisa surreal, Nicholas sabe que está participando do Jogo, mesmo a contragosto. Mas o que é o Jogo? Qual a real intenção das pessoas que se mantêm na sombra, por trás das pegadinhas?

“Vidas em Jogo” pode ser lido pelo espectador como um mero filme de suspense recheado com tiradas de humor negro. Se preferir, a platéia também pode encontrar uma mensagem social muito evidente: a vida pequeno-burguesa é chata, previsível e solitária. A formidável direção de arte cria locações perfeitas, como a mansão dos Van Orton, um lugar que revela tristeza e solidão sob a fachada elegante. E há dezenas de pequenas pistas espalhadas pelo longa-metragem que, em uma segunda (ou terceira, ou quarta) revisada, deixam claro como o final tão surpreendente estava, na verdade, diante dos olhos de todo mundo, inclusive do próprio Nicholas. É a maior pegadinha de todas – e dá a maior vontade de rever o filme de novo, e de novo.

O DVD do filme, uma edição especial, é da Universal. O disco é simples, mas contém muitos extras, a começar por um comentário em áudio que reúne Fincher, Michael Douglas, dois roteiristas, o fotógrafo, o diretor de arte e o supervisor de efeitos especiais do longa. Há quatro segmentos de bastidores (com comentários, somando 30 minutos) e cinco featurettes mostrando as locações (com comentários, somando 10 minutos). Um final alternativo (2 minutos), galeria com 30 desenhos de produção e todos os 274 storyboards do filme, mais dois trailers.

O material é de primeira, contando com legendas em português em todos os extras, inclusive comentários. Uma boa dica é ver os featurettes acompanhados dos comentários. Dessa maneira, você vai acabar descobrindo curiosidades, como a informação de que a seqüência do cemitério mexicano foi visualmente inspirada em fotos de Sebastião Salgado. O DVD conta ainda com uma cópia perfeita do filme, incluindo o corte original da imagem (wide 2.35:1) e som de primeira (Dolby Digital 5.1).

– Vidas em Jogo (The Game, EUA, 1997)
Direção: David Fincher
Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn
Duração: 128 minutos

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