Vidas Secas

21/06/2007 | Categoria: Críticas

Narrativa econômica, poucos diálogos, longos planos-seqüência: retrato perfeito da dor de uma família de retirantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Uma paisagem seca. Terra esturricada, vegetação rasteira, uma árvore desfolhada à direita, céu branco, explosão de sol. Um rangido fino e insistente parece, lentamente, se aproximar. De repente, um cachorro aparece na linha do horizonte. Longe, bem longe. Depois do animal, quatro pessoas caminhando em direção à câmera. O ruído irritante se avoluma. Parece ter origem nas rodas enferrujadas de um velho carro-de-boi, mas a família de retirantes liderada pelo vaqueiro Fabiano nem isso tem. O lento e silencioso plano-seqüência que abre “Vidas Secas” (Brasil, 1963) funciona como um manifesto de intenções. Este é um filme duro, seco e quente sobre o drama da pobreza no sertão nordestino.

Quando lançada, em 1963, a obra-prima de Nélson Pereira dos Santos causou furor internacional. Exibindo grande influência do neo-realismo italiano, o filme impressionou os críticos porque propunha um retrato naturalista da seca, sem retoques ou maquiagens, sem resquícios de melodrama. Um retrato 100% coerente com a prosa econômica e substantiva do livro de Graciliano Ramos, em que o filme se baseava. O tratamento do som, com poucos diálogos e atenção absoluta para os ruídos do ambiente, deixou marcas profundas na estética do cinema mais independente que se desenvolvia à margem dos grandes estúdios. Ao longo dos anos, a fama de “Vidas Secas” só fez crescer. Qualquer bom conhecedor de cinema sabe que se trata de uma obra seminal na cinematografia nacional.

Um dos elementos mais impressionantes é a fidelidade canina que Nélson Pereira dos Santos conseguiu manter para com a estética de Graciliano Ramos. O escritor não gostava de adjetivos, evitava diálogos e adotava um estilo subjetivo, narrando a história através dos pensamentos dos personagens. Descobrir a maneira certa de transpor uma narrativa assim foi um desafio vencido com sucesso. Pereira dos Santos não inventou diálogos nem acrescentou narração em off. Filmou tudo em longos e silenciosos planos-seqüência, enfatizando a vagareza do tempo, o calor, a lenta agonia vivida pelos personagens sempre em trânsito, procurando uma sombra ou um lugar melhor para viver. O êxodo rural, com os trabalhadores miseráveis fugindo da seca e da fome que ela gera, jamais ganhou um retrato tão duro e acurado.

Filmar desta maneira significava uma atenção especial para a fotografia, e o resultado alcançado por Luiz Carlos Barreto é antológico. Abolindo filtros e iluminação artificiais, ele filmou com luz estourada, o sol refletindo diretamente dentro da câmera. O resultado é a abundância de brancos, a ausência de sombras, um céu branco de rigidez implacável. Este padrão estético reproduzia com fidelidade a luz do sol inclemente do sertão, mas ia contra todas as regras do cinema mainstream – quase todos os filmes norte-americanos, por exemplo, utilizam uma luz mais expressionista, baseada em contrastes mais fortes e jogando com as sombras como elemento narrativo. Muitas obras que vieram depois, como o pernambucano “Cinema, Aspirinas e Urubus”, beberam desta fonte.

Além disso, embora apareça com menos destaque no filme do que no livro, a cachorra Baleia – considerada a personagem de maior empatia da história – ganha um tratamento original. Companheira fiel, que mata a fome da mulher e dos dois filhos do vaqueiro Fabiano (Átila Iório) caçando preás, o animal ganha uma morte alegórica filmada com beleza, mas sem sentimentalismo, por Nélson Pereira dos Santos. Única seqüência em que foge da narrativa naturalista, a cena é apresentada do ponto de vista subjetivo da cadela agonizante, que delira com uma abundância de preás inexistente na terra esturricada do sertão. Não por acaso, é o clímax do filme, o grande momento de exceção que interrompe a rotina extenuante da família, sempre fugindo da desgraça.

A situação deste clássico do cinema brasileiro no mercado de home video é exemplo perfeito do descaso nacional para com o passado cultural do país. “Vidas Secas” nunca foi lançado em DVD por aqui, podendo ser encontrado apenas em VHS, nas locadoras mais antigas, ou em retrospectivas televisivas. Curiosamente, é possível encontrar o DVD do filme nos Estados Unidos, em uma edição bem decente, com imagens restauradas (fullscreen 3:4, o formato original) e bom áudio (Dolby Digital 2.0). O professor de Cinema Robert Stam, um especialista em filmes brasileiros, dá um depoimento (12 minutos) analisando o filme, há um curta-metragem raro sobre a morte da cachorra Baleia (20 minutos), e um encarte de seis páginas contendo uma entrevista com Pereira dos Santos.

– Vidas Secas (Brasil, 1963)
Direção: Nélson Pereira dos Santos
Elenco: Átila Iório, Maria Ribeiro, Jofre Soares, Orlando Macedo
Duração: 100 minutos

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