Vidente, O

31/01/2008 | Categoria: Críticas

Produzido e estrelado por Nicolas Cage, filme dilui boa idéia de Philip K. Dick em mescla de romance e thriller

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Frank Cadillac (Nicolas Cage) trabalha como mágico, fazendo shows para bêbados e turistas numa casa noturna em Las Vegas. A profissão exótica esconde um dom extraordinário: ele pode prever o que vai acontecer ao redor de si, nos dois minutos seguinte. Este poder de antecipar o futuro faz com que o mágico fracassado comece a ser perseguido simultaneamente pelo FBI e por terroristas. E isso acontece justamente quando Frank está perto de conhecer uma professora (Jessica Biel) por quem se apaixonou depois de ter visões recorrentes dela no futuro. Esta é a trama básica de “O Vidente” (Next, EUA, 2007), filme assinado pelo neozelandês Lee Tamahori que falha na tentativa de mesclar, em doses iguais, o thriller de suspense e o romance clássico.

Na verdade, o longa-metragem repete um erro que diversas produções anteriores já haviam cometido: a diluição de uma boa idéia do escritor sci-fi Philip K. Dick em um enredo melodramático, superficial e cheio de inconsistências. Assim como ocorreu em “O Pagamento” (2003), por exemplo, a história assinada pelos roteiristas Gary Goldman e Jonathan Hensleight parte de uma boa idéia, contida num dos inúmeros contos instigantes de Dick, e aplica a ela um tratamento burocrático e cheio de clichês. O resultado lembra bastante uma daquelas aventuras sem assinatura que saem aos montes dos grandes estúdios de Hollywood. Ou seja, é mais do mesmo – um produto de uma linha de produção sem qualquer cunho autoral.

Dirigida sem personalidade pelo mesmo Lee Tamahori que já passou por franquias como “007”, sem deixar saudades, a produção apresenta como destaque positivo uma série de seqüências de ação com uso criativo de computação gráfica. Na melhor delas, Cadillac provoca um acidente automobilístico, fazendo um carro arrastar montanha abaixo uma série equipamentos pesados e toras de madeira, para conseguir escapar de um cerco. É um momento de realização cinematográfica impecável. As cenas mais agitadas, porém, são relativamente raras, já que o filme passa a maior parte do tempo mostrando os artifícios (desonestos) empregados pelo mágico para fazer a professora Liz Cooper (Biel) se apaixonar por ele.

O lado thriller do filme é bastante prejudicado pela falta de lógica do enredo. É difícil acreditar, por exemplo, que uma policial tão competente quanto Callie (Julianne Moore) apostaria todas as fichas da investigação sobre a bomba atômica no dom questionável de um sério candidato a charlatão, abandonando todas as outras linhas investigativas. Além disso, talvez para manter a duração do filme curta (e assim evitar o risco de dispersão por parte da platéia desatenta), Lee Tamahori opta por um clímax rápido e limpo demais. O resultado é que, ao final da projeção, fica a forte impressão de que “O Vidente” terminou pela metade – até porque a trama principal permanece sem uma conclusão definitiva.

Um dado curioso diz respeito ao personagem de Nicolas Cage, que também atua como produtor executivo. O ator vem se especializando em interpretar homens solitários e melancólicos que possuem um dom extraordinário (foi assim em “O Motoqueiro Fantasma”, em “O Sacrifício” e em “A lenda do Tesouro Perdido”), quase sempre em thrillers genéticos e sem personalidade, mas que têm bom desempenho nas bilheterias. Infelizmente, para o galã calvo, não foi o que aconteceu aqui, já que “O Vidente” foi mal nas bilheterias norte-americanas e teve desempenho apenas discreto no resto do mundo. Faça o seguinte: preste atenção no elenco coadjuvante de luxo (o excelente Peter Falk, de “Asas do Desejo”, aparece numa ponta) e esqueça os rombos de lógica. Pelo menos dá para se divertir.

O DVD da Paramount, simples, não contém nenhum extra. O filme aparece com qualidade OK de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– O Vidente (Next, EUA, 2007)
Direção: Lee Tamahori
Elenco: Nicolas Cage, Jessica Biel, Julianne Moore, Thomas Kretschmann
Duração: 96 minutos

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