Vidocq

18/01/2005 | Categoria: Críticas

Filme de ação francês alucina no clima hipercolorido e constrói espécie de gibi em movimento

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

É impossível assistir a “Vidocq” (França, 2001) e não lembrar do longa de terror “Do Inferno”, versão em celulóide de uma revista em quadrinhos inglesa que narra a história de Jack, o Estripador. Como esse, “Vidocq” tem uma única pretensão verdadeira: ser um gibi filmado, com tudo de bom e de ruim que isso significa, incluindo visual extravagantemente colorido, personagens rasos como um pires e trama cheia de segredinhos que um bom conhecedor de subliteratura de mistério não demora a antecipar.

O cineasta responsável por “Vidocq”, Pitof (só isso mesmo; não tenho idéia se este é o apelido, o primeiro nome ou o sobrenome do sujeito), tem um currículo no mínimo estranho. Começou como montador de cinema, enveredou pela Publicidade, fez trilhas sonoras e direção de arte de comerciais em TV, se especializou em créditos de filmes, e abandonou tudo isso para virar diretor de segunda unidade de Jean Pierre Jeunet (de “Amelie Poulain”). Pitof estreou na direção com “Vidocq”, que tem a honra de ser, oficialmente, o primeiro longa-metragem filmado sem filme. Ou seja, o trabalho é inteiramente digital.

O enredo, como em “Do Inferno”, possui raiz num personagem real. Vidocq foi o comissário que iniciou um processo de modernização da polícia francesa, nos idos do século XIX. O filme de Pitof, contudo, não é uma cinebiografia e nem narra em retrospectiva um caso real em que o detetive esteve envolvido. Pitof usou apenas a visão do senso comum que o público francês tem sobre o personagem para criar uma trama inteiramente fictícia.

“Vidocq”, o filme, começa com a morte de Vidocq, o detetive. Em uma seqüência que dá o tom barroco e hipercolorido do restante do filme, o comissário persegue um estranho meliante. Conhecido como O Alquimista, o homem usa capa preta e máscara dourada e possui, dizem, o dom de domar raios elétricos, usando-o para matar ricos burgueses da Paris do século XIX. A perseguição ocorre dentro de uma fornalha, em Paris. Vidocq cai em um forno e acaba morrendo.

Logo depois, um jornalista jovem, Etiénne (Guillaume Canet) aparece na cidade para escrever a biografia do famoso comissário. Ao descobrir que ele está morto, Etiénne decide reconstituir a última investigação do detetive. O filme contrapõe as entrevistas conduzidas pelo jornalista com a verdadeira investigação de Vidocq, em flashbacks bem conduzidos. Gerard Depardieu é o destaque do elenco, parecendo se divertir um bocado em um filme de ação, que mistura uma investigação no melhor estilo de Agatha Christie com artes marciais e balé.

De fato, “Vidocq” é um deleite visual de cores berrantes e clima surreal. Pitof realmente aprendeu a lição de Jeunet, construindo uma Paris hipercolorida em pleo ano de 1830; a fotografia digital favorece a manipulação das cores e Pitof usa esse recurso a seu favor, criando contrastes fortíssimos e usando cores primárias (vermelho, azul, amarelo), aliadas a movimentos de câmera imprevisíveis e direção de arte estilizada, para atirar o espectador dentro de um gibi em movimento.

Parece óbvio que “Vidocq” participa do movimento contemporâneo do cinema francês, que busca se aproximar do público recriando as tramas juvenis de Hollywood com a estética estilizada dos diretores europeus mais afeitos ao visual (Sergio Leone, Dario Argento). Filmes como “Amelie Poulain” e principalmente “O Pacto dos Lobos” são co-irmãos de “Vidocq”, que levou o diretor Pitof a uma viagem sem escalas direto para Hollywood. Enquanto isso, a gente fica com uma aventura OK para se divertir sem compromisso.

Infelizmente, o DVD nacional é muito ruim. A Europa lançou o filme com cortes laterais nas imagens, para caber no formato 4 x 3 (das TVs comuns), e áudio em francês Dolby Digital 2.0. Além de tudo, não há extras.

– Vidocq (França, 2001)
Direção: Pitof
Elenco: Gerard Depardieu, Guillaume Canet, Inés Sastre, Andrés Dussolier
Duração: 100 minutos

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