Vigarista do Ano, O

27/11/2007 | Categoria: Críticas

Cheio de vitalidade e energia, filme de Lasse Hallström é interessante estudo de um mentiroso compulsivo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Contar mentiras é uma atividade tão delicada que os melhores praticantes desta arte sutil estão a um passo do desequilíbrio psicológico. Esta é a teoria em que se apóia o drama “O Vigarista do Ano” (The Hoax, EUA, 1971), interessante estudo de personagem que se baseia em uma incrível história real. Dirigido pelo cineasta sueco Lasse Hallström, a partir de um bom roteiro de William Wheeler, o filme reconstitui um episódio verídico ocorrido em 1971, quando um obscuro romancista enganou, por alguns meses, alguns dos mais poderosos grupos de comunicação dos Estados Unidos, dizendo ter em mãos a autobiografia de segundo recluso mais famoso do século, o magnata Howard Hughes (o primeiro seria o romancista J.D. Salinger).

Charmoso, excelente improvisador e também egocêntrico, Clifford Irving (Richard Gere) está no princípio de uma carreira promissora como escritor. Autor de uma elogiada biografia (curiosamente, de um falsário holandês especialista em criar falsas obras-primas de Picasso e Matisse), ele se aventura no terreno da ficção e começa a levar negativas. Para aplacar o ego ferido, inventa a primeira mentira: tem em mãos o livro mais importante do século XX. Sua editora (Hope Davis) está inclinada a desprezá-lo, mas aceita ouvir o que ele tem a dizer. Assim, quase de improviso, Irving falsifica uma carta manuscrita que informa ter sido Irving o escolhido para redigir a autobiografia de Howard Hughes (se você não sabe de quem se trata, assista a “O Aviador”, de Martin Scorsese, ou faça uma busca no Google).

Sem ser visto em público há 13 anos, Hughes é um personagem que captura a imaginação de todo mundo. O sumiço voluntário do dublê de empresário, diretor de cinema e ás da aviação fez surgirem as mais variadas lendas a respeito dele. A simples menção de Hughes atiça a cobiça da editora, que acaba convencida pela verve do mentiroso e libera uma bolada. O problema, claro, é que Irving não conhece Hughes. A primeira mentira leva a outra, e à próxima, e a mais uma, de forma que o escritor e seu parceiro de trambique, Dick (Alfred Molina), acabam afundando em um oceano de mentiras e fraudes. Mas são mentiras tão inteligentes e bem elaboradas que, a certo momento, até o próprio Irving começa a acreditar nelas.

Exibindo vitalidade e energia que pareciam ausentes do trabalho anterior de Hallström em Hollywood (dramas adocicados como “Regras da Vida” e “Chocolate”), o longa-metragem tem diversos pontos positivos. Um deles é a excelente atuação do elenco, que conta com um Richard Gere inspirado (ótimas as cenas em que ele se arruma, incluindo até um bigode falso e banha no cabelo, para imitar o sotaque texano de Hughes em gravações de entrevistas falsas). O maior destaque, porém, vai para Alfred Molina, cuja naturalidade e química perfeita com Gere tornam as seqüências com os dois juntos sempre dinâmicas e bem-humoradas. Observe, por exemplo, o divertido momento em que os dois relatam o suposto primeiro encontro de ambos com Howard Hughes (“ele me deu uma ameixa”), cheia de olhares de soslaio e detalhes exóticos improvisados.

Outro ponto positivo é a maneira encontrada por Hallström para narrar os devaneios mentirosos de Irving, cuja imaginação fértil o leva cada vez mais longe. Em certo ponto da jornada, as mentiras eram tão elaboradas que o próprio Irving passou a acreditar nelas – e o cineasta sueco ilustra isso mostrando, em flashbacks repletos de tensão e sombras, as recordações que na verdade nunca aconteceram. Sob esse aspecto, “O Vigarista do Ano” apresenta muitos pontos de contato com filmes do porte de “Prenda-me se for Capaz” e “Confissões de uma Mente Perigosa”, que também focalizam mentirosos compulsivos em jornadas enlouquecidas cujo final não poderia mesmo ser feliz.

Como ponto negativo, dá para perceber uma queda de ritmo no terceiro ato, quando Lasse Hallström infelizmente endossa teorias conspiratórias impossíveis de serem provadas para explicar a derrocada do protagonista. Além disso, a inserção de imagens de arquivo em que o então presidente Richard Nixon nomeia George Bush pai para um cargo importante apenas força a barra para estabelecer um elo de ligação entre o filme e a realidade política contemporânea nos Estados Unidos. Dá até para dizer que Hallström teve um surto de mentirismo à Clifford Irving, justamente quando o filme se aproximada do encerramento. No balanço final, porém, “O Vigarista do Ano” conta mais pontos positivos do que negativos.

O DVD da Alpha Filmes é fraco. Não tem extras, a imagem tem cortes laterais (tela cheia, 1.33:1) e o áudio é OK (Dolby Digital 5.1).

– O Vigarista do Ano (The Hoax, EUA, 1971)
Direção: Lasse Hallström
Elenco: Richard Gere, Alfred Molina, Marcia Gay Harden, Hope Davis
Duração: 110 minutos

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