Vigaristas, Os

09/04/2006 | Categoria: Críticas

Bandido neurótico tem que lidar com golpe milionário e filha que ele pensava não existir. Diversão de primeira!

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Filmes que apresentam trapaceiros simpáticos como protagonistas viraram febre na safra 2003 de Hollywood. Naquele ano, nada menos do que três longas-metragens do gênero estrearam nos cinemas brasileiro. Primeiro apareceu o charmoso Frank Abagnale Jr (Leonardo DiCaprio), de “Prenda-me Se For Capaz”. Depois, foi a vez do carente Charlie Croker (Mark Whalberg), de “Uma Saída de Mestre”. O menos famoso – e talvez o mais interessante de todos – foi o neurótico Roy Waller, protagonista de “Os Vigaristas” (Matchstick Men, EUA, 2003), produção leve e divertida de Ridley Scott.

O nome do cineasta é um bom sinal, embora nesse caso específico não signifique muito. O projeto, na verdade, pertence a Cage, que pegou o papel de Waller antes mesmo que o livro que deu origem ao roteiro fosse publicado. E o ator se dá muito bem. “Os Vigaristas” é um filme refrescante, de consumo rápido, mas também de charme irresistível. O grande responsável por esse mérito é o ótimo roteiro, dos irmãos Ted e Nicholas Griffin. E essa é a chave, na verdade, para entender o trabalho: Ted escreveu “Onze Homens e Um Segredo”, outro filme sobre ladrões bacanas, com quem esse trabalho guarda algumas semelhanças muito bem vindas. “Os Vigaristas” parece um cruzamento do filme anterior de Ted com “Melhor É Impossível”, temperado com pitadas de “Prenda-me Se For Capaz”.

Nicolas Cage está à vontade no papel do neurótico Roy Waller, um trapaceiro que sofre de síndrome do pânico, tem pavor a lugares abertos e uma mania irritante de limpeza. Um acidente prosaico provoca uma reviravolta na vida de Waller: ele perde as pílulas que toma para combater o problema e, assim, não consegue mais aplicar os golpes com destreza. Desesperado, acaba consultando um psiquiatra (Bruce Altman), que o convence de que a origem da neurose pode estar num relacionamento mal resolvido do passado. Procurando a ex-mulher, Roy acaba descobrindo a existência de Ângela (Alison Lohman), uma filha de 14 anos.

Assim, o roteiro logo passa a narra três histórias distintas que vão se cruzando aos poucos. A primeira enfoca o relacionamento entre um pai careta e uma filha rebelde. Essa relação, claro, é atrapalhada pelo problema singular do vigarista, que encontra na adolescente um motivo para tentar, pela primeira vez em anos, lutar para parecer normal. No meio de tudo isso, Roy ainda decide aplicar um golpe arriscado, junto com o parceiro Frank (Sam Rockwell, que já fez um bandido charmoso em “O Assalto”, outro primo desse filme), um pupilo competente e de confiança. Tudo parece bobo ou simples demais? Acredite, não é nem um nem outro. O filme consegue equilibrar essas três situações com inteligência e sensibilidade, sem deixar, pelo menos até os últimos dez minutos, que a trama resvale para o melodrama. Para melhorar, “Os Vigaristas” passa longe da comédia vulgar. É um filme sofisticado, inclusive no visual clean e ensolarado.

Essa sofisticação remete a outras qualidades do longa-metragem, como a trilha sonora e o elenco. As canções de Hans Zimmer, com um pé no jazz, combinam perfeitamente com o clima cool da mansão de Roy. O elenco acompanha a performance inspirada de Cage (que traz alguns maneirismos do Charlie Kauffman de “Adaptação”). Sam Rockwell é um ator de muita energia, e a estreante Alison Lohman mostra qualidade. A química do trio principal funciona muito bem e conduz o enredo rumo a um terceiro ato intrincado, quando o golpe principal – seguindo os moldes de “Onze Homens e Um Segredo” – passa a ser aplicado.

Assim, ao mesmo tempo em que narra a transformação que a responsabilidade gerada pela descoberta da paternidade pode causar em um homem, o longa jamais perde de foco a questão da vigarice. O texto tece uma trama que até cede à tentação das reviravoltas, mas faz isso com inteligência, de modo que as três pontas de narrativa se amarrem de forma inesperada. “Os Vigaristas” é um daqueles filmes que, ao final da projeção, estimula o espectador a repassá-lo mentalmente para verificar se há furos no raciocínio do roteiro. É uma história consistente.

“Os Vigaristas” é diversão de qualidade, que marca uma novidade na carreira de Ridley Scott. O filme toma distância de tudo o que o cineasta inglês já dirigiu. Comédias de situação jamais foram um ponto forte do diretor, que tem tendência para filmes pesados, com visual estilizado, e costuma se dar melhor em histórias mais longas e épicas (pense nos dois maiores sucessos da carreira dele, como “Blade Runner” e “Gladiador”). “Os Vigaristas” é luminoso e soa como uma lufada de ar fresco durante as férias de um esteta do cinema, além de exibir uma leveza inédita na obra dele. Se não é perfeito, ainda oferece diversão de qualidade, do tipo que não se encontra todo dia.

O DVD nacional é simples e muito bom. O filme tem ótima qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1), e há um extra muito bom: um longo documentário em três partes (71 minutos), legendado em português, cheio de curiosidades sobre todas as fases da produção. Há ainda um comentário em áudio com os irmãos Griffin e Scoptt. O lançamento é da Warner.

– Os Vigaristas (Matchstick Men, EUA, 2003)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Nicolas Cage, Sam Rockwell, Alison Lohman, Bruce McGill
Duração: 120 minutos

| Mais


Deixar comentário