Vila, A

08/01/2008 | Categoria: Críticas

Shyamalan insiste em passar mensagem espiritualista e tira charme de bom suspense sobrenatural

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O diretor e roteirista M. Night Shyamalan segue um método de trabalho bastante rígido. Ele usa como ponto de partida lendas urbanas (aliens, fantasmas, super-heróis) com elementos fantásticos, inserindo-as em tramas que têm o suspense como motor mas que, no fundo, desejam passar alguma mensagem de cunho espiritual. “A Vila” (The Village, EUA, 2004) também segue essa linha e tem argumento essencialmente idêntico ao filme anterior do diretor de origem indiana, “Sinais”. Troque os alienígenas do filme anterior por criaturas místicas, recue a trama para o século XIX, e pronto: você tem pronto o cenário sobre o qual vai se desenvolver a ação de “A Vila”.

Como todos os longas-metragens assinados pelo diretor, o filme funciona melhor quando a platéia conhece pouco da história do filme. O enredo de “A Vila” gira em torno de uma garota cega, Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), filha do líder de uma comunidade rural no interior da Pensilvânia (EUA). Os moradores da vila vivem isolados, sem contato com o mundo, pois estão ilhados em uma clareira, no meio de um bosque habitado por agressivas criaturas místicas. A raça tem um pacto com os humanos. Os animais respeitam as fronteiras da comunidade, desde que os humanos não tentem se aventurar pela mata. Acontecimentos extraordinários, porém, vão perturbar esse acordo tácito.

A premissa do filme é intrigante, e Shyamalan sabe o que faz. Por isso, a primeira parte de “A Vila”, em que a situação dramática é apresentada, é excelente. O diretor constrói a atmosfera correta de suspense, aproveitando uma trilha sonora grave e dissonante de James Newton Howard (responsável também por outra boa trilha de 2004, de “Colateral”). Shyamalan recorre a uma velha e eficiente lição que muitos cineastas vêm esquecendo: ele conta a história com imagens, não com palavras, e deixa lacunas na narrativa, o que obriga o espectador a descobri-las e preenchê-las por si mesmo. Isso é ótimo, pois envolve o espectador no filme e não despreza a inteligência da platéia.

Um exemplo: durante os primeiros minutos de projeção, vemos que os moradores responsáveis pela vigilância das fronteiras da comunidade utilizam capas amarelas. Além disso, toda a comunidade evita contato com a cor vermelha. Repare que não existe um único adereço vermelho, seja roupa, móvel ou objeto de decoração, em nenhuma casa; em uma das primeiras cenas, duas garotas encontram uma flor vermelha e, assustadas, a enterram rapidamente. Aos poucos, a platéia intui que o jogo de cores faz parte do acordo firmado entre as criaturas místicas e o conselho que rege a comunidade – vermelho, a “cor ruim”, chama a atenção da raça habitante do bosque, enquanto amarelo é seu correspondente humano, e serve como sinal para que as criaturas respeitem quem o veste. Isso nunca é dito por nenhum personagem; a platéia tem que descobrir sozinha.

Os estranhos capuzes amarelos também ajudam a dar ao filme uma aparência de conto de fadas. Não há dúvida de que Shyamalan vai buscar inspiração em assustadoras histórias da carochinha, como “João e Maria” ou “Chapeuzinho Vermelho”; e faz isso muito bem. Outro destaque do filme é a performance enérgica de Bryce Dallas Howard, que estréia no cinema em grande estilo. Joaquin Phoenix, parceiro habitual de Shyamalan, também está bem, mas aparece menos do que se espera, como o destemido jovem Lucius Hunt; William Hurt, que faz o líder Edward Walker, tem um ar de austeridade que combina com o personagem. Já Adrien Brody, no papel de um rapaz mentalmente perturbado, não parece muito à vontade.

Todo o elenco é ofuscado ainda pela fantástica fotografia do mestre Roger Deakins (colaborador habitual dos irmãos Coen), que utiliza fartamente fontes naturais de luz para revestir a comunidade de um tom ocre que é perfeitamente coerente com o enredo. Deakins prova, mais uma vez, que sabe ser discreto e eficiente como poucos fotógrafos da atualidade, além de ser um craque no aspecto técnico da coisa; quem filma sabe como é difícil dominar a luz natural – o sol, o fogo – e usá-la de forma clara e límpida durante grandes porções de um longa-metragem. Deakins faz isso e, com movimentos de câmera lentos e elegantes, aumenta ainda mais o suspense.

Por fim, vale dizer “A Vila” também possui a marca registrada do diretor: uma reviravolta surpreendente no final (ou melhor, duas reviravoltas, sendo a primeira bastante previsível). Neste caso, porém, a maior surpresa do roteiro está sedimentada sobre uma pequena trapaça: uma revelação que, apesar de uma ou outra pista espalhada pelo filme (um diálogo logo no começo, algumas peças de roupa), não pode ser antecipada por nenhum espectador, nem mesmo os mais atentos. Apesar desse problema, o indiano fez um filme cheio de atmosfera assustadora, algo que anda raro no cinema norte-americano, e isso conta muitos pontos a seu favor.

O lançamento em DVD da Buena Vista é bastante interessante para os fãs. O disco é simples, mas bastante completo. Para começar, existe um certificado de excelência THX de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1). Um documentário de bastidores (25 minutos) é o extra principal. Há quatro cenas deletadas com introdução de Shyamalan, um diário da atriz principal em vídeo (4 minutos), galeria de fotos e um curta-metragem amador feito pelo diretor quando criança.

– A Vila (The Village, EUA, 2004)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, William Hurt, Adrien Brody
Duração: 108 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


Um comentário
Comente! »