21 Gramas

14/06/2004 | Categoria: Críticas

Alejandro Iñárritu mostra talento em narrativa pesada sobre o acaso, que mistura passado, presente e futuro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“21 Gramas” (21 Grams, EUA/México, 2003) tem grande semelhança com aquele que é, talvez, o melhor filme de 2003: “Sobre Meninos e Lobos”, de Clint Eastwood. Ambos possuem o estofo dramático dividido entre três personagens atormentados, têm o ator Sean Penn em ótima forma e trabalham com o tema do acaso, do destino implacável e cruel, inteferindo na vida de seres humanos sem que eles possam fazer nada.

A película do diretor mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu sai perdendo na comparação, mas isso não é demérito algum. Afinal, estamos falando do segundo longa-metragem de um jovem e muito talentoso cineasta, contra o melhor trabalho de um diretor experiente, cuja competência já foi testada diversas vezes. Em outras palavras, “21 Gramas” é um excelente filme que só poderia ter saído da cabeça de um cineasta jovem.

O enredo é simples, mas torna-se extremamente complicado por ser apresentando em uma montagem que parece um verdadeiro quebra-cabeças (vou discutir isso mais à frente). Temos aqui três protagonistas cujas vidas vão ser cruzadas por um acontecimento que já pode ser considerado a marca-registrada do diretor: um acidente de carro. Lembrem-se de que a mesma ocorrência liga as três histórias que compõem “Amores Brutos”, o primeiro filme de Iñárritu.

O matemático Paul Rivers (Penn) possui um grave problema cardíaco e está na fila para um transplante (ou para a morte), sendo obrigado a enfrentar ainda uma crise conjugal. Christina (Naomi Watts) é uma ex-viciada em drogas que só encontrou forças para vencer essa batalha com a ajuda do marido e de duas filhas pequenas. Enquanto isso, o ex-presidiário Jack Jordan (Benício Del Toro) luta para sobreviver, depois de convertido em cidadão honesto e evangélico fervoroso.

Isso é tudo o que deve ser dito a respeito da trama, para não atrapalhar a experiência que o cineasta mexicano quis levar ao espectador. O quebra-cabeças acontece, na realidade, porque Iñárritu despreza uma seqüência cronológica para contar sua fábula sobre o acaso. Ele passeia por passado, presente e futuro sem dar a mínima pista para a platéia sobre o que está acontecendo. É preciso um certo esforço, principalmente na primeira meia hora de projeção, para ir juntando as peças e desvendando certos aspectos dos personagens.

O filme vai mais longe do que isso, na verdade. “21 Gramas” foi filmado em grande parte com a câmera na mão, e a película recebeu um tratamento químico para retirar boa parte das cores, o que resulta em imagem pesada, granulada e levemente tremida. O uso da música é econômico, e a montagem bastante fragmentada evita com firmeza qualquer tipo de transição, especialmente sonora, entre diferentes tomadas. Os cortes entre as cenas são secos e abruptos. Tudo isso dá ao longa um clima melancólico, quase soturno.

A pergunta que não cala, nesse caso: era necessário realizar tantos malabarismos estéticos para criar um grande filme? Iñárritu afirma que organizou “21 Gramas” dessa forma para ajudar o espectador a entrar no clima de caos pessoal dos conflitos vividos pelos personagens. Cada pessoa na platéia pode refletir sobre essa questão, mas não deve deixar de levar em conta o filme de Eastwood; “Sobre Meninos e Lobos” enfrenta o mesmo dilema de maneira mais serena, mais confiante e mais sólida, sem jamais deixar de lado a objetividade da narração.

De qualquer modo, não há dúvida de que o talentoso mexicano fez um filme muito acima da média. Os três protagonistas possuem personalidades realmente bem construídas, despertando sentimentos genuínos – piedade, raiva, compaixão – na platéia e deixando forte impressão na tela. Nisso, o diretor é auxiliado pelas interpretações uniformemente espetaculares do trio principal. Os coadjuvantes necessários para o desenvolvimento de cada arco de histórias também fornecem o realismo necessário para que o filme funcione.

Se há algo que incomoda particularmente, após a projeção de “21 Gramas”, é o final do longa-metragem. Montada com imagens que sugerem, de maneira um tanto óbvia, a solidão e a impotência daquelas três pessoas, a seqüência ainda recorre a uma batidíssimo recurso cinematográfico (a narração em off) para tentar concluir e dar um sentido maior ao filme, algo sempre excessivo. Em momentos como esse, fica evidente a juventude do realizador. Mesmo assim, o espectador pode esperar com ansiedade pelos próximos filmes de Iñárritu. Está aí uma promessa que vem se cumprindo.

– 21 Gramas (21 Grams, EUA/México, 2003)
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Elenco: Sean Penn, Benicio Del Toro, Naomi Watts
Duração: 124 minutos

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