Violação de Conduta

19/03/2004 | Categoria: Críticas

Excesso de reviravoltas e furos no roteiro deixam novo longa de John Travolta difícil de digerir

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Espectadores adoram filmes com grandes reviravoltas no final. Nesse sentido, o cinema se configura como uma forma tecnológica de fazer ilusionismo. Quando os elementos narrativos são corretamente manipulados, cineastas competentes conseguem grandes resultados quando recorrem a esse artifício. M. Night Shyamalan fez isso com “O Sexto Sentido”, em 1999. Mais recentemente, Alejandro Amenábar repetiu o sucesso com “Os Outros”, em 2001. Agora, John McTiernan tenta fazer uso da estratégia em “Violação de Conduta” (Basic, EUA, 2003). Tentar, contudo, não é sinônimo de conseguir. O resultado a que McTiernan chega é bem diverso do que os colegas alcançaram. O filme soa como uma mágica que deu errado.

Para começo de conversa, “Violação de Conduta” está longe de ser um filme de terror. Estrelada por John Travolta e Samuel L. Jackson, a película reconstitui uma investigação militar em plena selva do Panamá. Um ex-oficial afastado por suspeita de envolvimento com o tráfico de drogas, Tom Hardy (Travolta), recebe um chamado de emergência no meio de uma noite. Ele fica sabendo que um pelotão desapareceu na mata durante um treinamento, numa tempestade. Dos seis homens, apenas dois retornaram, um deles ferido a bala; os outros desapareceram sem deixar rastros, inclusive um sargento legendário, Nathan West (Samuel L. Jackson). Antes que o caso vire um escândalo militar, Hardy precisa descobrir o que aconteceu, com base nos depoimentos dos sobreviventes.

Se o enredo parece simples, é porque precisava ser assim – porque a idéia básica do roteiro é complicá-lo cada vez mais, a medida em que a projeção vai avançando. Assim, “Violação de Conduta” estabelece, logo nos primeiros quinze minutos, todas as premissas básicas. Ficamos conhecendo melhor o personagem de Travolta, um sujeito com talento para interrogatórios mas que não deseja se envolver num conflito interno, já que um dos feridos nas matas é filho de um general de alta patente. Além disso, sabemos também que ele não é o protagonista do filme; esse papel cabe à tenente Julia Osborne (Connie Nielsen, de “Gladiador”), a militar que deveria ser encarregada do caso mas acaba afastada pelo comandante da base, para dar lugar à maior competência de Hardy. Julia é a protagonista porque conta o caso em retrospectiva, como fica claro na breve narração em off utilizada na abertura do longa.

Em resumo, os 99 minutos do filme mostram a investigação promovida por Hardy e Osborne. Eles precisam elucidar o caso em seis horas, e para isso promovem longas sessões de interrogatórios com os sobreviventes, comparando depois as versões que cada um vai apresentando ao longo da noite (cenas que vemos em flashbacks). Logo fica claro, para interrogadores e platéia, que os dois sabem mais do que estão contando. O melhor do filme reside na primeira hora de projeção. Habilmente, o roteiro constrói as personalidades de Dunbar (Brian Van Holt) e Kendall (Giovanni Ribisi) de modo que a platéia simpatize com o primeiro e desconfie do segundo. Da mesma forma, as motivações de Hardy e Osborne ficam muito claras: o primeiro quer se livrar do problema rapidamente, e a segunda deseja ir até o fim na investigação.

Há, evidentemente, alguns problemas nesse cenário – os inevitáveis clichês que vão colocando o filme da rota dos thrillers convencionais e sem tempero. Travolta e Nielsen, ambos corretos mas sem brilho, repetem na tela uma das “surpresas” mais batidas de Hollywood, os co-protagonistas que inicialmente não se bicam e acabam desenvolvendo uma simpatia que pode (ou não?) ultrapassar os limites da simples amizade. Há uma cena inteiramente dispensável, em que os dois se trancam num depósito de armas para discutir a investigação, que envolve uma coreografia beirando o ridículo. Mas esses detalhes não chegam a enterrar o longa, apenas dão a velha sensação de ‘deja vu’.

O maior problema do filme está na hora em que o “mágico” (no caso, o veterano diretor John McTiernan, do primeiro “Duro de Matar”) precisa realizar o truque de ilusionismo com perfeição. Na segunda metade do trabalho, quando começa a confundir a cabeça do espectador e mostrar que as coisas não são bem o que aparentam ser, o diretor perde o filme de controle. A quantidade de reviravoltas ultrapassa os limites aceitáveis e “Violação de Conduta” acaba se perdendo em meio às múltiplas versões da verdade – uma frase que os próprios personagens cultivam como dogma (que justiça poética, aliás!). Quando a trama finalmente sofre uma amarração final, fica difícil de reconhecer o mesmo filme na tela. Faça então um exercício: reorganize toda a trama mentalmente e verifique se os detalhes da história ainda se sustentam. Se fizer isso com atenção, você vai entender porque o filme só leva duas estrelas.

– Violação de Conduta (Basic, EUA, 2003)
Direção: John McTiernan
Elenco: John Travolta, Samuel L.Jackson, Connie Nielsen, Giovanni Ribisi
Duração: 99 minutos

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