Violação de Privacidade

09/08/2005 | Categoria: Críticas

Diretor Omar Naim discute memória e privacidade em drama de ficção científica dos bons

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“Violação de Privacidade” (The Final Cut, EUA, 2004) parece, à primeira vista, um thriller de ficção científica ambientado em um contexto social bizarro, mas muito interessante. Trata-se da história de Alan Hakman (Robin Williams), um homem atormentado que tem uma profissão incomum: editor de memórias. É preciso explicar o contexto dessa profissão. Em um futuro não especificado, os seres humanos podem implantar chips de silício no cérebro, de modo a gravar tudo o que um indivíduo vê, ouve e fala durante toda a vida. Assim, quando uma pessoa morre, a família pode contratar os serviços de sujeitos como Hakman. Eles recebem a incumbência de montar um “filme” de duas horas a partir das gravações no chip, resumindo a vida do morto. O tal filme é exibido no funeral e fica de lembrança para a família.

O enredo de “Violação de Privacidade” envolve um trabalho específico para o qual Alan Hakman é contratado: editar o chip de memórias do advogado Charles Bannister (Michael St. John Smith), poderoso executivo da empresa que inventou o artefato. A mulher dele, Jennifer (Stephanie Romanov), é extremamente cuidadosa ao pedir que Alan seja discreto na edição, de forma a poupar a família de embaraços. O editor também descobre, sem demora, que membros de grupos de protesto contra o uso do equipamento gravador de memórias estão interessados em colocar as mãos no chip do advogado. Afinal, que segredos esconde aquele pedaço de silício?

A premissa é intrigante, mas representa apenas uma trama secundária do longa-metragem. O diretor Omar Naim parece ter utilizado essa moldura de thriller para atrair as platéias. Naim entra no terreno do escritor Philip K. Dick apenas como desculpa, utilizando um velho truque cinematográfico. Ele finge que vai falar de algo para, na verdade, abordar disfarçadamente outro assunto, aquele que realmente deseja discutir. No caso, a abordagem do diretor se inclina muito mais à reflexão sobre os problemas éticos relacionados ao chip de memórias. Afinal, quando presente em pessoas que não sabem de sua existência, ele não representa uma violação de privacidade, como indica o título nacional?

Mais importante ainda é o debate acerca do trabalho de editor de memórias. O que esse profissional faz, na verdade, não é simplesmente resumir a vida de alguém, mas eliminar as partes ruins, preservar e realçar os momentos bons. Na verdade, uma Rememória (como se chamam os filmes resultantes do trabalho do editor) não apresenta a vida de alguém como ela foi, mas sim uma versão da mesma vida, a versão que a família do morto desejaria ver. O que o filme faz, então, é debater as implicações éticas desse tipo de procedimento, com coragem e inteligência.

Outro ponto interessante que o filme aborda – e que ao final de revela o verdadeiro cerne do longa-metragem – é a questão da subjetividade da memória. Há uma cena curta e exemplar a respeito disso no filme. Logo no princípio, Alan é contratado para editar uma memória e recebe instruções específicas para incluir uma cena que envolve um passeio de barco. Ele o faz. Depois de exibir o filme, o responsável pelo pedido o aborda e pergunta se ele alterou a memória em questão. “Nas minhas lembranças, o barco é verde, mas no filme ele aparece vermelho”, questiona. “Talvez sempre tenha sido vermelho”, responde Alan. A cena é curta, mas reverbera até o final, no filme e na cabeça do espectador. Memórias sempre distorcem a realidade, como todos sabemos.

Em resumo, “Violação de Privacidade” aborda, sob um ângulo diferente, um tema que vem sendo visitado por muitos criadores: onde termina a realidade e onde começa a ilusão? Talvez por causa dessa abordagem, Omar Naim preferiu não se preocupar com a direção de arte. O que lhe interessa é o conteúdo, não a forma do filme. Assim, embora o implante de memória seja um artefato claramente futurista, assim como as chamadas “tatuagens elétricas”, que pessoas desejosas de se livrar do equipamento precisam implantar na face para inutilizá-lo, toda a ambientação do filme acontece no presente, incluindo os automóveis e a arquitetura.

O que parece realmente incomodar o público que assiste a “Violação de Privacidade”, no entanto, é mesmo a pouca importância que a história do advogado tem para o diretor. O serviço para o qual Alan Hakman foi contratado tem papel importante na trama, mas não da maneira que as pessoas esperam. “Violação de Privacidade” é Alan, não sobre Charles Bannister. É sobre o trauma de infância do editor, e não sobre um advogado que as pessoas imaginam ser um criminoso. Bannister funciona meramente como catalisador da discussão rica e complexa a respeito das questões envolvendo memórias e privacidade, que o diretor deseja abordar. Omar Naim prova isso quando termina o filme deixando sob sombras o verdadeiro segredo de Bannister. Naim não fez um thriller, mas um drama de ficção científica. Dos bons.

O DVD é lançamento da PlayArte. Contém o filme em formato original (widescreen), trilha Dolby Digital 5.1 (a versão em português é DD 2.0) e um segmento extra com entrevistas de Robin Williams e Mira Sorvino.

– Violação de Privacidade (The Final Cut, EUA, 2004)
Direção: Omar Naim
Elenco: Robin Williams, Jim Caviezel, Mira Sorvino, Stephanie Romanov
Duração: 105 minutos

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