Violência Gratuita

03/01/2006 | Categoria: Críticas

Michael Haneke atiça os espectadores com uma abordagem irônica da violência

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Metade da sala que exibia o filme ficou vazia no meio da projeção, no Festival de Cannes, em 1997. O crítico, cineasta e blogueiro militante Carlos Reichenbach abandonou o cinema, em São Paulo, aos gritos de “nazista” – e foi seguido por uma turba de espectadores indignados. “Violência Gratuita” (Funny Games, Áustria, 1997), de Michael Haneke, é um daqueles títulos que atiça os ânimos de quem assiste, e provoca reações extremadas de amor e ódio. Nesse sentido, antes de ser submetido a qualquer análise dos méritos cinematográficos, estéticos ou artísticos, é desde já um filme bem-sucedido, pois disparou um debate incessante de idéias, o que era exatamente o objetivo do diretor.

“Violência Gratuita” choca muita gente pela abordagem irônica, quase cínica, da violência. O verdadeiro alvo do cineasta austríaco, contudo, não está na violência em si, mas na representação cinematográfica dela, cuja escalada parece não ter fim, especialmente nos filmes de Hollywood – há longas-metragens em que mais de 150 assassinatos são mostrados displicentemente. A câmera de Michael Haneke não comenta ou critica a escalada da violência na sociedade. A tarefa a que o diretor se propõe é mais sutil do que isso. O filme força o espectador a contemplar sua própria condição de consumidor passivo – e, como tal, incentivador – de verdadeiros espetáculos de sangue e tripas.

Em síntese, o enredo é muito simples. O filme mostra uma família indo passar o fim de semana em uma tranqüila casa de campo, à beira de um lago, na Áustria. Nem bem se estabelecem, pai, mãe e filho são visitados por dois jovens, Peter (Frank Giering) e Paul (Arno Frisch). Sob o pretexto de pedir emprestados alguns ovos para um vizinho, a dupla arma uma pequena confusão cuja progressão termina em seqüestro. A família é então mantida como refém, enquanto Peter e Paul resolvem “brincar” com eles (os “funny games” do título original).

Até aí, nada de novo. A partir do momento em que pai, mãe e filho são feitos reféns, entretanto, Haneke começa a mostrar seu jogo. Primeiro de forma sutil: Peter, o líder da dupla delinqüente, fala com a câmera e dá piscadelas ao espectador, lembrando-o de vez em quando que está vendo um filme e, pior do que isso, colocando-o na inusitada posição de cúmplice passivo do ato de violência. Aqui, o diretor é traiçoeiro. As brincadeiras de Peter com a câmera fazem cada membro da platéia se identificar, inconscientemente, como uma espécie de terceiro agressor.

No fundo, o nosso desconforto é causado pela posição que ocupamos na narrativa: estamos mais próximos dos delinqüentes, a quem condenamos, do que das vítimas. Além disso, os seqüestradores, convenientemente vestidos de branco (talvez uma referência aos delinqüentes juvenis de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick; a cor simboliza, no cinema, um ideal de pureza e paz que nada tem a ver com aquelas pessoas do filme), estão encenando uma peça macabra para a qual você, espectador, comprou um ingresso. Em certo momento, Peter é direto nesse ponto (“ainda não atingimos a duração de um longa-metragem”, diz, deixando evidente saber que é o personagem de um filme).

Essa auto-consciência dos personagens do filme como seres que integram uma narrativa artificial quebra uma regra sagrada da dramaturgia, chamada no teatro de quarta parede. Em outras palavras, o cinema é voyeurismo e, ao mesmo tempo, ilusão consentida; o tem consciência de que assiste a uma ficção, mas existe um pacto tácito, não dito, entre atores e platéia, para que todos finjamos que o que se encena é a realidade. “Violência Gratuita” quebra essa regra invisível, como já fizera outro filme maldito que expõe as vísceras do cinema, o genial “A Tortura do Medo” (1960), de Michael Powell.

Outra jogada inteligente de Haneke é jamais mostrar nenhum ato violento em si; toda vez que sangue vai ser derramado, a câmera desvia o olhar, deixando a cargo de cada espectador imaginar (a partir dos ruídos, que continuamos a ouvir) o que está acontecendo. A intensidade da violência, portanto, depende da carga de imagens violentas presente na memória de cada membro da platéia. Em outras palavras: quanto mais filmes de pancadaria e assassinatos você já viu, mais brutal parecerá o ataque contra aquele trio de personagens inocentes.

À medida que o filme avança, o grau de ousadia de Michael Haneke vai aumentando; a música, inicialmente calmas melodias de autores como Mozart, passa à barulheira infernal do saxofonista experimental John Zorn. Além disso, no momento em que os delinqüentes deixam a residência, o cineasta ousa apresentar um longuíssimo take – mais de 10 minutos – com a câmera parada, sem cortes, mostrando literalmente… nada. À platéia, só é permitido ouvir. Um dos personagens, ferido, está lutando para se libertar de cordas que o amarram, para poder ver o que aconteceu com outro personagem, espancado pelos delinqüentes. Os dois personagens não se vêem, e a platéia não os vê. Apenas ouvimos os urros de dor e angústia. Por mais de 10 minutos, tempo suficiente para que a dor presenciada na tela seja quase palpável.

Como se não fosse suficiente, Haneke ainda prepara uma última brincadeira bizarra para a audiência, uma brincadeira metalingüística que deixa muita gente irritada, pois derruba radical e propositalmente mais duas regras sagradas da narrativa clássica cinematográfica: 1) Mesmo quando a narrativa é cronologicamente embaralhada, a lógica temporal é semelhante à realidade, o que significa que não se pode mudar o passado (a não ser que o filme seja sobre viagens no tempo); e 2) a punição para quem comete atos de violência pode demorar, mas quase nunca falha e é geralmente violenta, numa tradução visual do ditado “olho por olho, dente por dente”. Pois numa única e genial seqüência, Michael Haneke ousa arrebentar essas duas regras com um cinismo único.

Claro, é possível questionar a existência de algum sentido, moral ou estético, para a experiência radical promovida pelo diretor austríaco. Para algumas pessoas, a proposta de Haneke é obscena e até perversa, na medida em que obriga o espectador a contemplar sua própria cumplicidade no espetáculo de violência promovido pelos heróis anabolizados de filmes que matam e mutilam dezenas de pessoas anônimas, sem mostrar que por trás de cada uma daquelas faces ensangüentadas existe um passado, um código moral – em suma, uma vida.

Para outros, a atitude é ousada e bem-vinda, pois tira do torpor e obriga à reflexão uma platéia acostumada a assimilar os filmes – e sua lógica, muitas vezes desprovida de qualquer senso de humanidade – como sorvete, sem jamais questionar o que existe de ideologicamente repulsivo, ou pelo menos discutível, na carga de imagens que se consume diariamente.

O diretor assume essa postura e nega com veemência a acusação, repetida pelos detratores, de que faz cinema com o propósito de chocar. “Estamos habituados a ver um cinema calmante, de entretenimento, que não nos confronta com a realidade. Mas, se quisermos ver o cinema como uma forma de arte, somos obrigados a esse confronto. E isso, muitas vezes, choca o público de hoje em dia. Eu faço um filme para me confrontar, eu mesmo, com um tema que acho importante, grave. Nunca tenho a idéia de chocar”, diz ele. Em “Violência Gratuita”, conseguiu.

É curioso perceber que os responsáveis pelo título nacional do filme já o julgam seguindo a lógica dos detratores, talvez sem perceber, através do uso da palavra “gratuita”. A violência do filme de Haneke pode ser ou não gratuita, mas isso depende da maneira como você, leitor/espectador, o interpreta. A melhor atitude diante do debate que se impôs sobre ele é não seguir qualquer posicionamento antes de poder analisá-lo sob sua própria ótica. Essa é, em última instância, o conselho mais útil que se pode dar a um espectador crítico e isento: julgue o filme por si mesmo.

O filme foi lançado no Brasil em DVD em janeiro de 2000, pelo selo Cult Filmes. É bem difícil de encontrar. Não há extras, mas a cópia é boa: imagem com enquadramento preservado (wide 1.85:1) e som OK (Dolby Digital 2.0).

– Violência Gratuita (Funny Games, Áustria, 1997)
Direção: Michael Haneke
Elenco: Ulrich Muhe, Frank Giering, Arno Frisch, Susanne Lothar
Duração: 103 minutos

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