Virgem de 40 Anos, O

29/03/2006 | Categoria: Críticas

Galeria de personagens sólidos faz da comédia do diretor novato Judd Apatow um programa engraçado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Na última década do século XX, um novo estilo de comédia nasceu e cresceu em Hollywood até virar uma espécie de bicho-papão cinematográfico. Esses filmes invariavelmente têm linguagem obscena aos borbotões, muitas gírias, grosseria à vontade (muitas vezes chegando mesmo à escatologia), personagens machistas e pegadinhas dolorosas para os atores. De algum modo, a juventude (especialmente nos EUA) aprovou a fórmula, e longas-metragens que investiram nessa receita passaram a gerar grandes rendas para os produtores. A má notícia é que a fórmula se desgastou rapidamente, de forma que a maior parte desses filmes não passa de lixo. Somente vez por outra aparece alguma película desse gênero que merece alguma atenção. “O Virgem de 40 Anos” (The 40 Year-Old Virgin, EUA, 2005) é uma delas.

Não, o primeiro filme com o comediante Steve Carell no papel principal não é uma obra-prima. Mas está anos-luz à frente da concorrência, e a participação do ator é um dos principais trunfos para isso. Carell, que já havia brilhado numa pequena e hilariante participação no sucesso “Todo Poderoso”, com Jim Carey, confirma o talento construindo cuidadosamente o seu personagem. Andy trabalha numa loja de equipamentos eletrônicos, é tímido, tem uma enorme coleção de action figures (bonecos de personagens de filmes conhecidos), adora videogames e vai de bicicleta para o trabalho. E é, como o título do filme indica sem a menor sutileza, virgem.

Curiosamente, o detalhe não o transformou numa pessoa amarga, mas o manteve congelado numa espécie de infância crescida (esse tema da infância tardia, aliás, tem rendido vários bons filmes). Depois de um par de tentativas frustradas (e engraçadas) de transar, o rapaz simplesmente resolveu admitir que era tímido demais para aquilo e deixar de lado a idéia de sexo. Direcionou sua libido para outras atividades, e tentou nunca mais pensar nisso. Poderia ter seguido assim até o fim da vida, se três colegas de trabalho não o tivessem convidado para uma inofensiva partida de pôquer, que termina com a revelação acidental do celibato de Andy. Em parte para ajudá-lo, em parte para dar boas gargalhadas, o trio decide fazer Andy perder o medo de garotas. É o início de uma série de complicados encontros que rendem muito constrangimento para o sujeito, e boas risadas para o espectador.

“O Virgem de 40 Anos” encaixa direitinho na fórmula das comédias grosseiras e previsíveis que se tornaram regra em Hollywood, mas ao mesmo tempo consegue ir além delas. O segredo do cineasta estreante Judd Apatow é demonstrar um carinho insuspeito pelos personagens, especialmente pelo protagonista. Na maior parte das produções do gênero, os personagens têm importância muito reduzida. Eles são construídos em função das piadas, e os filmes não respeitam seus sentimentos. Por isso, freqüentemente viram sacos de pancadas ou bobos da corte, meros bonecos construídos com o fim específico de fazer rir. Em “O Virgem de 40 Anos”, os personagens são mais importantes do que as piadas, e isso faz toda a diferença.

De certo modo, para fazer uma comparação justa, o longa-metragem ecoa as melhores obras dos irmãos Peter e Bobby Farrelly, a exemplo de “Debi e Lóide” ou “Quem Vai Ficar Com Mary?”. Mas existem diferenças. Uma delas é que Steve Carell (que co-roteiriza o longa)jamais deixa o filme de 2005 cair na farsa, na caricatura, no exagero. O ator compõe o seu Andy de forma que o personagem soa absolutamente acreditável. Ele poderia existir de verdade. Poderia ser um vizinho nosso. Do mesmo modo, todos os outros personagens, incluindo o trio que tenta ajudar Andy com seu problema, são personagens sólidos, de carne e osso.

Tome o exemplo de David (Paul Rudd). Apesar de assumir na frente dos amigos a postura misógina de um homem mulherengo que só pensa em sexo, por trás das aparências ele é um homem traumatizado pela perda de uma parceria a quem amava de verdade. Sempre que bebe além da conta, o rapaz se revela um homem apaixonado, com tudo de bom e de ruim – o papo obsessivo a respeito da ex-parceira – que alguém apaixonado possui. Outro bom exemplo é Trisha (Catherine Keener), a vendedora da loja da frente por quem Andy tem uma queda. Mãe de três filhas (“a avó mais gostosa dos EUA”, diz Andy), ela não tem a menor vontade de falar sobre a família para o candidato a namorado. Qualquer um de nós, da platéia, já viveu situações como essas.

Além de tudo isso, vale a pena parabenizar ainda o diretor pela correta escalação do elenco, que não conta com nenhum rosto glamouroso. Todos, incluindo Keener (que é bonita, mas não aparece super-maquiada, graças a Deus) e Carell, têm rostos tradicionais, simpáticos, de pessoas comuns, como eu e você. Gente normal, que não é feia e nem bonita, e que se atrapalha na hora de colocar uma camisinha (uma das cenas mais engraçadas do filme). Enfim, gente de verdade encenando uma história sobre gente de verdade, algo que, por mais incrível que possa parecer, não é muito comum no mundo de fantasia de Hollywood.

De qualquer forma, “O Virgem de 40 Anos” não é um filme perfeito, a começar pelo ritmo irregular imprimido pelo diretor, algo certamente influenciado pela sua condição de estreante no ofício. Há cenas longas demais e gags sem a mínima graça. Além disso, a cota de piadas grosseiras ultrapassa o limite do aceitável justamente naquela que é considerada uma das melhores cenas do filme: a seqüência em que Andy passa por uma dolorosa depilação corporal. Na ânsia de incorporar o personagem a todo custo, o ator concordou em se submeter de verdade ao procedimento e filmar tudo. O resultado é mostrado com requintes de crueldade que incluem closes da pele pontilhada de sangue, bem no estilo das pegadinhas de “Jackass”. Não há dúvida de que a cena é engraçada, mas seria mais eficiente se fosse mais curta – e é certo que não havia necessidade de tomadas fechadas de ferimentos.

Por fim, vale registrar que, possivelmente devido à satisfação de estar à frente de uma filme engraçado de verdade, Judd Apatow deixou a duração mais longa do que o necessário, quando todos sabem que uma boa comédia romântica funciona melhor quando deixa um gosto de quero mais. A impagável seqüência final, copiada do musical “Hair”, deixa isso evidente: é o tipo de cena que rende uma boa risada, mas poderia ser encurtada em vários minutos se fosse exibida ao mesmo tempo em que os créditos de encerramento. Tudo bem, esse é o tipo de falha facilmente perdoável. O que conta, no final, é que o público torce e se preocupa com Andy, algo não muito fácil de acontecer com as comédias do mesmo gênero.

O DVD brasileiro, um lançamento bem bacana, é da Universal. Para começar, o filme aparece com ótima qualidade de imagem (wide 1.85:1) e som (Dolby Digital 5.1), em um corte 17 minutos mais longo do que a versão exibida nos cinemas (133 minutos, ao todo). Há ainda uma galeria de 11 cenas cortadas, dois featurettes curtinhos (juntos somam apenas 7 minutos) e um comentário em áudio que reúne diretor e sete atores do elenco. Todo o material extra tem legendas em português.

– O Virgem de 40 Anos (The 40 Year-Old Virgin, EUA, 2005)
Direção: Judd Apatow
Elenco: Steve Carell, Catherine Keener, Paul Rudd, Romany Malco
Duração: 116 minutos

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