Viver a Vida

28/09/2007 | Categoria: Críticas

Um dos grandes trabalhos de Godard, filme acompanha a espiral descendente de uma moça que vira prostituta para sobreviver

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Em francês, a expressão “viver a vida” funciona como gíria para descrever prostituição. O filme de Jean-Luc Godard que carrega a expressão no título, portanto, é uma tradução literal da narrativa, a história de uma garota bela e inteligente, mas pobre, que acaba virando prostituta em Paris para conseguir sobreviver. Um filme de Godard, porém, nunca é feito apenas de matéria-prima literal. E o título de “Viver a Vida” (Vivre As Vie, França, 1962) deixa isso, mais uma vez, evidente. Porque há uma conotação extra nas entrelinhas, uma conotação filosófica, quase metafísica, uma reflexão – bem ao gosto de Godard – sobre o ato de viver, com todas as complexas implicações que ele guarda.

Em certo momento da projeção, a personagem principal, Nana (Anna Karina, então mulher do diretor), se aproxima de um senhor de idade em um bar. Puxa conversa, pede que ele lhe pague um drinque. Ele concorda. Ela senta, e a conversa acaba resvalando para filosofia pura. Eles discutem o sentido da vida. Ela resume sua moral em uma frase: “Se estou feliz, sou responsável; se estou infeliz, sou responsável”. É uma frase fundamental. De maneira elíptica, ela resume a abordagem ascética, impassível, de Godard ao problema da moça. O cineasta francês assume a influência de Robert Bresson e Carl Dreyer (este último homenageado em cena-chave que se passa dentro de um cinema), fazendo um filme minimalista, distante, que é ao mesmo tempo uma elegia ao poder feminino.

“Viver a Vida” tem uma estrutura seca e compacta. É dividido em doze partes, cada uma apresentada por uma série de letreiros que resume a ação a seguir. Inicialmente vendedora de discos, Nana acaba de se separar e deixar o filho bebê com o ex-marido. Ela tem dívidas. Precisa desesperadamente de dinheiro. Pede emprestado a todos que conhece, mas não consegue nada com os conhecidos, e apela para os desconhecidos. Vai até o boulevard onde ficam as prostitutas, passeia por ali, até receber uma oferta. A prostituição vira mais do que um quebra-galho. Vira um emprego formal, que Nana encara com pragmatismo. Ela vê “A Paixão de Joana D’Arc”, de Dreyer, em um cinema de Paris. “Vendo o corpo para preservar a alma”, diz a heroína adolescente. Nana chora. Identificação completa. É o único momento de “Viver a Vida” em que a protagonista se emociona.

Nas mãos de um cineasta comum, “Viver a Vida” daria um melodrama encharcado de lágrimas. Godard, entretanto, está muito longe de ser um cineasta comum (não esqueçamos que na época da produção, durante os anos 1960, Godard era o homem para o qual todos os olhos estavam virados, inclusive os olhos dos futuros grandes cineastas da Nova Hollywood, como Scorsese e Friedkin). O francês trata o tema como uma criança mexendo em um brinquedo, com curiosidade. Inclui nele todos os seus temas fundamentais, homenageando os filmes de gângsters norte-americanos (a surpreendente seqüência final) e inserindo muitos diálogos de cunho existencialista.

Chama a atenção, em especial, o insólito e excepcional trabalho de Raoul Coutard, que logo se tornaria um dos fotógrafos mais admirados do mundo. A câmera é nervosa, agressiva. Diferentemente do que ocorria em filmes comuns, ela chama a atenção para si. Não tenta acompanhar a ação de maneira invisível. Exprime emoções: raiva, negação, irritação, candura. Tome como exemplo a primeira seqüência, com um casal batendo papo num bar. Ao invés de filmar tudo em monótonos planos e contra-planos, Godard enquadra os atores de costas, sem mostrar os rostos. Em outro momento, extraordinário, a câmera faz um verdadeiro balé em um bar de sinuca, saltando entre personagens até assumir, finalmente, o ponto de vista de Nana, que dança uma canção de modo sensual.

Curiosamente, reza a lenda que Anna Karina odiou o resultado final, alegando que Godard a havia deixado feia (alguns críticos chegaram até a escrever que o filme seria, na verdade, uma romantização da história de amor fracassada entre os dois). Quem vê o filme deve achar difícil acreditar em tal bobagem, uma vez o olhar que Godard dirige à sua musa é de indisfarçável encantamento – um encantamento melancólico, talvez, mas um encantamento concreto – banhando-a de luz e sombras em momentos de pura poesia visual. Saudado na época do lançamento nos cinemas como um filme arrojado e instigante, “Viver a Vida” não desperta tanta atenção por ter sido feito dentro de um período repleto de obras-primas – a primeira fase de Godard, até o final dos anos 1960, é venerada de modo quase religioso por cinéfilos de todo o mundo. Mas não se engane: é um filmaço.

O DVD nacional do filme leva a assinatura da Magnus Opus. A cópia é OK, com boa qualidade de imagem (tela cheia, 1.33:1, formato original) e áudio (Dolby Digital 2.0). Não há extras dignos de nota.

– Viver a Vida (Vivre Sa Vie, França, 1962)
Direção: Jean-Luc Godard
Elenco: Anna Karina, Saddy Rebbot, André S. Labarthe, Guylaine Schlumberger
Duração: 85 minutos

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