Volta do Todo Poderoso, A

20/11/2007 | Categoria: Críticas

Com ótimos efeitos digitais e nenhuma graça, continuação do sucesso de 2003 é uma decepção

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Não é segredo para ninguém que o comediante Steve Carell despontou para o estrelato por causa da pequena e hilariante participação em “Todo Poderoso” (2003). Na comédia com Jim Carrey, que fez enorme sucesso em todo o planeta, ele interpretava um âncora de TV e estrelava a cena mais engraçada do filme, enrolando a língua durante um telejornal ao vivo. A performance histriônica de Carell chamou a atenção de muita gente importante, e ele logo estava à frente de seu próprio blockbuster cômico: “O Virgem de 40 Anos” (2006). Desta forma, quando Jim Carrey se recusou a voltar para a continuação de “Todo Poderoso”, a solução encontrada pelos produtores para retomar a série foi transformar o jornalista Evan Baxter (Carell) em protagonista.

A operação, porém, foi realizada de maneira displicente. A rigor, nada da personalidade exibida pelo ambicioso âncora, no primeiro filme, foi aproveitado – nem mesmo a profissão do personagem. Há apenas um pequeno prólogo de abertura, destinado a fazer a ligação entre os dois filmes, que “explica” a alteração: Baxter foi eleito para o Congresso norte-americano, após uma campanha apoiada no bordão “Vamos mudar o mundo”, e está abandonando a atividade jornalística. Ele se muda para Washington e começa, então, a receber visitas de Deus (Morgan Freeman, retornando ao papel). O todo-poderoso original deseja que Evan Baxter construa uma arca para abrigar homens e animais de uma inundação destinada a ocorrer dentro de alguns meses.

Escrito pelo mesmo Steve Oedekerk do primeiro filme, o roteiro de “A Volta do Todo Poderoso” (Evan Almighty, EUA, 2007) é o ponto fraco do longa-metragem. A história se limita a reciclar clichês de um dos subgêneros cômicos mais lucrativos nos EUA desde “A Felicidade Não se Compra” (1946): as comédias familiares, em que o protagonista aprende lições sobre a importância da amizade e da família a partir de um acontecimento de caráter sobrenatural. O “Todo Poderoso” original, “O Mentiroso” (1997) e “Click” (2006), com Adam Sandler, são alguns exemplos de produções que conseguiram faturar muita grana, nas bilheterias ianques, revisitando a velha fórmula.

Infelizmente, o resultado final de “A Volta do Todo Poderoso” está bem aquém de todos os títulos acima. O próprio público norte-americano percebeu isto claramente, rejeitando o filme com vigor. A bilheteria total arrecadada nos Estados Unidos estacionou em US$ 96 milhões, aproximadamente metade do astronômico custo total da produção. É fácil perceber onde o diretor Tom Shadyac errou: ao invés de caprichar na história, recheando-a com piadas de melhor nível e aproveitando a grande qualidade de Steve Carell – o humor físico repleto de improvisos –, Shadyac preferiu concentrar os esforços na elaboração de seqüências grandiosas, com efeitos especiais de ponta. Caiu num velho defeito: deu mais atenção à forma do que ao conteúdo. A maior parte do orçamento foi gasta no CGI, e o resultado foi um filme bem feito, mas sem graça.

Há bons momentos ocasionais, como as cenas que investem na interação entre atores e animais. A falta de lógica da história – qual a razão para a barba do personagem principal ficar branca em poucos dias? Como imaginar um deputado republicano indo trabalhar vestido como um ermitão sem ser levado ao hospício? – e as piadas surradas decretam o fracasso do filme. Para piorar, Carell tem uma performance pífia, limitando-se a gritar cada vez mais alto a cada nova cena cômica, e o elenco de luxo (John Goodman, o já citado Freeman) é desperdiçado com poucas aparições, quase nunca engraçadas. Em resumo, uma grande decepção.

O DVD da Universal é interessante. O filme aparece com qualidade legal de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras incluem nove featurettes enfocando os bastidores das filmagens e uma galeria de cenas excluídas da montagem final.

– A Volta do Todo Poderoso (Evan Almighty, EUA, 2007)
Direção: Tom Shadyac
Elenco: Steve Carell, Morgan Freeman, Lauren Graham, John Goodman
Duração: 95 minutos

| Mais


Deixar comentário